Renascida das cinzas
Nove meses após o incêndio da boate Kiss, que deixou 242 mortos, sobrevivente tenta retomar a vida
Curitiba - Nove meses depois do incêndio que
atingiu a boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, a estudante
Jéssica Duarte da Rosa, de 21 anos, uma das sobreviventes, retoma o
rumo de sua vida, agora morando ao lado da família em Colombo, na Região
Metropolitana de Curitiba (RMC). O número total de mortos na tragédia
chegou a 242. Jéssica cursava o quinto período de Administração na
Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e, depois do incidente,
decidiu deixar a cidade e vir para a Grande Curitiba, onde seus pais
moram há três anos.
Ao iniciar a conversa, a jovem faz questão de frisar que "tudo o que aconteceu não pode cair no esquecimento, justamente para que não ocorra novamente". Para isso, sempre que solicitada participa de palestras e debates sobre o assunto tanto na capital quanto no interior. "Logo que saí do hospital quase não tinha horário porque eram muitas entrevistas. Sempre que possível tento conciliar com meus estudos porque acredito ser importante", ressalta.
Jéssica está prestando o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste final de semana em Curitiba, e pretende ingressar no curso de Fisioterapia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O desejo surgiu durante as sessões diárias a que ela é submetida desde que foi liberada do Hospital Cristo Redentor, em Porto Alegre, em fevereiro. Já aprovada em dois vestibulares de fisioterapia, a jovem conta que conseguiu voltar a escrever somente em agosto. A ideia é também concluir o curso de Administração, paralelamente à nova área.
"Meu braço estava atrofiado por causa das queimaduras e tive que passar por diversas cirurgias de enxerto de pele. Tive 45% do meu corpo queimado, com ferimentos nos dois braços, nas pernas e no lado direito das costas. Com a fisioterapia fui vendo o progresso, então sem dúvida teve influência direta na minha escolha", conta.
Ela ainda faz fisioterapia motora diariamente e há pouco tempo terminou as sessões de exercícios respiratórios. "Meus pulmões ainda estão bastante danificados. Quando fico doente da garganta, por exemplo, junto com as secreções também aparece aquela fuligem preta que inalei no dia do incêndio", explica.
Jéssica também frequenta uma psicóloga e uma nutricionista. Sua primeira cirurgia plástica está marcada para 20 de novembro.
Mas, mesmo com todas essas sequelas, ainda há pessoas que a criticam. "Sofro com gente ignorante, mas fazer o quê? Um dia, na sala de espera da minha fisioterapeuta, um homem veio me dizer que as pessoas que estavam na boate é que eram culpadas por estarem naquele local. E justo naquele dia estava muito mal, saí chorando do local, nem fiz a consulta", relata.
Era dia 2 de outubro e fazia oito meses da morte de seu namorado, Bruno Portella Fricks. Ele estava com Jéssica na boate Kiss, ficou uma semana internado no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, mas não resistiu.
Retorno a Santa Maria
No dia 1º de julho Jéssica retornou a Santa Maria pela primeira vez. Foi em uma homenagem a Bruno. "Foi muito difícil, a cidade é praticamente outra. Não é essa realidade que tenho da cidade, a imagem que quero manter é outra", diz.
A jovem revela que somente depois de muito tempo conseguiu ir a uma balada em Curitiba. "Geralmente vêm alguns flashes do que passei. Dizer que não tenho trauma é mentira. Não tinha o costume de verificar sinalização de emergência, agora é a primeira coisa que procuro, e procuro ficar perto inclusive. Tenho que aprender com o que passei."
Jéssica ressalta que se os clientes perceberem algum problema devem denunciar. "Vai que o estabelecimento está com problemas e daqui dois meses acontece alguma coisa e você não fez nada? Se os frequentadores desses locais não cobrarem, ninguém vai cobrar", aconselha.
O pai de Jéssica, Cláudio Forgiarini, cobra responsabilização daqueles que, de alguma forma, tiveram envolvimento no incidente. "As pessoas se esquecem mas tem que ficar em cima. Foram 242 vítimas fatais, cerca de 600 mutilados, além das famílias que sofrem e estão sofrendo com isso, e não tem ninguém preso. Vou esperar o que e de quem?", questiona.
Ao iniciar a conversa, a jovem faz questão de frisar que "tudo o que aconteceu não pode cair no esquecimento, justamente para que não ocorra novamente". Para isso, sempre que solicitada participa de palestras e debates sobre o assunto tanto na capital quanto no interior. "Logo que saí do hospital quase não tinha horário porque eram muitas entrevistas. Sempre que possível tento conciliar com meus estudos porque acredito ser importante", ressalta.
Jéssica está prestando o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste final de semana em Curitiba, e pretende ingressar no curso de Fisioterapia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O desejo surgiu durante as sessões diárias a que ela é submetida desde que foi liberada do Hospital Cristo Redentor, em Porto Alegre, em fevereiro. Já aprovada em dois vestibulares de fisioterapia, a jovem conta que conseguiu voltar a escrever somente em agosto. A ideia é também concluir o curso de Administração, paralelamente à nova área.
"Meu braço estava atrofiado por causa das queimaduras e tive que passar por diversas cirurgias de enxerto de pele. Tive 45% do meu corpo queimado, com ferimentos nos dois braços, nas pernas e no lado direito das costas. Com a fisioterapia fui vendo o progresso, então sem dúvida teve influência direta na minha escolha", conta.
Ela ainda faz fisioterapia motora diariamente e há pouco tempo terminou as sessões de exercícios respiratórios. "Meus pulmões ainda estão bastante danificados. Quando fico doente da garganta, por exemplo, junto com as secreções também aparece aquela fuligem preta que inalei no dia do incêndio", explica.
Jéssica também frequenta uma psicóloga e uma nutricionista. Sua primeira cirurgia plástica está marcada para 20 de novembro.
Mas, mesmo com todas essas sequelas, ainda há pessoas que a criticam. "Sofro com gente ignorante, mas fazer o quê? Um dia, na sala de espera da minha fisioterapeuta, um homem veio me dizer que as pessoas que estavam na boate é que eram culpadas por estarem naquele local. E justo naquele dia estava muito mal, saí chorando do local, nem fiz a consulta", relata.
Era dia 2 de outubro e fazia oito meses da morte de seu namorado, Bruno Portella Fricks. Ele estava com Jéssica na boate Kiss, ficou uma semana internado no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, mas não resistiu.
Retorno a Santa Maria
No dia 1º de julho Jéssica retornou a Santa Maria pela primeira vez. Foi em uma homenagem a Bruno. "Foi muito difícil, a cidade é praticamente outra. Não é essa realidade que tenho da cidade, a imagem que quero manter é outra", diz.
A jovem revela que somente depois de muito tempo conseguiu ir a uma balada em Curitiba. "Geralmente vêm alguns flashes do que passei. Dizer que não tenho trauma é mentira. Não tinha o costume de verificar sinalização de emergência, agora é a primeira coisa que procuro, e procuro ficar perto inclusive. Tenho que aprender com o que passei."
Jéssica ressalta que se os clientes perceberem algum problema devem denunciar. "Vai que o estabelecimento está com problemas e daqui dois meses acontece alguma coisa e você não fez nada? Se os frequentadores desses locais não cobrarem, ninguém vai cobrar", aconselha.
O pai de Jéssica, Cláudio Forgiarini, cobra responsabilização daqueles que, de alguma forma, tiveram envolvimento no incidente. "As pessoas se esquecem mas tem que ficar em cima. Foram 242 vítimas fatais, cerca de 600 mutilados, além das famílias que sofrem e estão sofrendo com isso, e não tem ninguém preso. Vou esperar o que e de quem?", questiona.
Rubens Chueire Jr.
Reportagem Local
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