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IMIGRAÇÃO - Sonho americano ameaçado




Há quatro anos, a maringaense Julia (nome fictício), de 24 anos, migrou para os Estados Unidos da América (EUA) em busca de uma "vida melhor". Ela queria mais segurança e qualidade de vida, o que encontrou em uma cidade no estado da Virgínia, o mesmo do presidente eleito Donald Trump, que durante a campanha prometeu endurecer as políticas relativas a imigrantes e ameaçou até mesmo realizar uma deportação em massa de pessoas que, como Julia, estão ilegais no país.
Trump ainda não assumiu, mas o discurso anti-imigrantes parece ter tomado uma parcela da população. A maringaense conta que, há uma semana, viveu a primeira experiência xenofóbica em terras americanas, o que atribui ao discurso da campanha de Trump. "Fui ao posto abastecer o carro e aproveitei para comprar um maço de cigarro. A funcionária que me atendeu era 'americana' e pediu minha identidade. Mostrei meu passaporte, como sempre faço. Ela olhou e deu risada. Disse que aquilo não era identidade e pediu meu 'green card'. Disse que não tinha e expliquei que o passaporte é uma identidade universal para quem viaja. Ela deu risada de novo e disse para eu voltar para o meu país, que ela não iria me vender nada", relata, acrescentando que teve uma crise de choro ao ser discriminada. 
Em seguida, a moça ligou na central de atendimento do estabelecimento, explicou o ocorrido e recebeu um pedido de desculpas. Também pediu a um parente com carteira de motorista da Virgínia comprar o mesmo produto. "Ela vendeu para ele sem questionar nada", lamenta a brasileira, que já enfrenta muitas dificuldades no dia a dia e teme que a situação piore. 
Durante o governo de Barack Obama, Júlia não percebia racismo, xenofobia e discursos de ódio na comunidade onde vive. "A maior parte das pessoas que eu conheço estão tristes e preocupadas com os imigrantes, mas tem gente contente com o Trump porque acha que roubamos o trabalho deles", conta. 
A vida de imigrante nos EUA, segundo ela, "não é fácil". "Além da barreira da comunicação, saímos de casa rezando todos os dias para não nos envolvermos em acidentes de trânsito ou sermos parados em alguma blitz, pois não temos documentos, poderia complicar nossa vida. Temos a habilitação do Brasil e, se algo acontecer, só nos resta torcer para que a polícia acredite que estamos a passeio", teme. 
O plano de saúde dela e do marido é cancelado a cada três meses, o prazo máximo para apresentar documentos americanos às operadoras. "É muito complicado, pois tenho fibromialgia e preciso de atendimento constante em hospitais. O jeito é ficar mudando de plano a cada três meses", conta. 
Júlia só conseguiu um emprego porque o patrão é brasileiro e não pediu documentos. "Por isso que a maior parte dos brasileiros acabam trabalhando como faxineira ou pedreiro, cortando grama no frio extremo ou no calor intenso", diz. 
Apesar de sentir-se triste com as ameaças de Trump, a maringaense sonha conseguir o green card através da irmã do marido, o que pode levar 15 anos. "Ainda acredito em um milagre de conseguir os documentos. Amo esse país, pois aqui tudo é mais fácil e barato. Trabalho bastante, mas vejo render", diz ela, que sonha fazer faculdade e trabalhar na área de saúde, justamente para ajudar pessoas "que nem falam inglês direito e não têm condições de pagar uma consulta médica". 

Confiança 
Em uma situação mais confortável, o imigrante Paulo Roberto, de 34 anos, saiu de Londrina para viver em Falmouth, no Estado de Massachustts, na região próxima a Boston que concentra boa parte da comunidade brasileira nos EUA. Com visto de trabalho, ele atua na construção civil instalando e lixando pisos de madeira junto com o cunhado. 
Apesar do teor radical da campanha de Trump, ele diz que não teme as promessas dos eleitos em relação aos imigrantes. "O maior temor é o risco de uma recessão na economia", diz ele, que até o momento considera que os imigrantes recebem um bom tratamento nos EUA. "Os americanos são bem educados e respeitam as leis, que aqui funcionam. Os imigrantes têm direito de ir ao hospital e frequentar a escola. Os maus-tratos dependem também dos estados onde as pessoas vivem, pois as leis são independentes", frisa. 
Paulo acha, inclusive, que o governo Trump pode ser melhor para os estrangeiros, diante da possibilidade das fronteiras serem mais vigiadas, o que pode impedir a entrada de "criminosos". "Acho que o radicalismo foi uma estratégia de campanha para atingir a classe mais conservadora e acabou conseguindo simpatizantes democratas", avalia, destacando que, no início do mandato, pode haver redução no turismo e até investimentos no país. 
O brasileiro elogia a estrutura dos serviços oferecidos à população e garante que, em solo americano, todos têm a oportunidade de vencer, independentemente de cor, classe social ou formação. "São as oportunidades que atraem milhares de imigrantes em busca de uma vida melhor, mesmo que de forma ilegal", diz

FONTE - FOLHA DE LONDRINA
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