Aumento dos roubos de cargas assusta caminhoneiros



De acordo com a Firjan, um a cada 88 veículos utilizados no transporte de cargas no País foi alvo de assalto em 2016


Nivaldo Paulo está há 35 anos na estrada e nunca foi surpreendido por quadrilhas de roubos de cargas. Já o filho dele, também caminhoneiro, não teve a mesma sorte. Em São Paulo, na Rodovia Castelo Branco, o rapaz parou à noite em um pedágio para descansar. Homens armados quebraram os vidros do caminhão e o fizeram dirigir até uma área rural durante a madrugada. O rapaz só foi liberado pelos assaltantes no início da manhã e a quadrilha seguiu viagem com a carga de óleo de cozinha que seria descarregada em um supermercado de São Paulo.
Pesquisa feita pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) aponta que a quantidade de roubos de cargas aumentou 86% no Brasil entre 2011 e 2016. Em 2016, 22.547 ocorrências foram registradas, contra 12.124 em 2011. Ao longo de seis anos, 97.786 roubos de cargas foram computados em 22 Estados e no Distrito Federal, o que significou perda estimada de mais de R$ 6,1 bilhões, sendo R$ 1,4 bilhão em 2016. A entidade não conseguiu números de ocorrências registradas no Paraná, Acre, Amapá e Roraima.
A estatística revela que um a cada 88 veículos utilizados no transporte de cargas no País foi alvo de assalto em 2016. No ano passado, um caminhão foi roubado a cada 23 minutos. A ocorrência citada no início da reportagem foi há aproximadamente 40 dias. Mesmo com a prisão de três suspeitos que pretendiam desviar a carga de óleo de cozinha (já com notas fiscais frias) para Minas Gerais, pai e filho caminhoneiros passaram a conviver com o medo nas estradas. "Na mesma semana do caso dele roubaram mais dois que são da região aqui de Londrina e que estavam passando por São Paulo. Não vou mais para São Paulo, nem para o Rio de Janeiro. Meu filho também não quer mais levar carga para lá", conta Nivaldo.
Conforme levantamento da Firjan, quase 88% dos roubos registrados em 2016 ocorreram nos dois estados da Região Sudeste. "O risco de desabastecimento é real. Tem algumas seguradoras que não fazem mais seguros para o Rio de Janeiro e as poucas que fazem estão cobrando mais caro", alerta o vice-presidente da Federação, Sergio Duarte.


"Nós estamos perdidos; a bandidagem é demais e não temos sossego para parar e nem dormir", lamenta Nivaldo Paulo


Com base nas estatísticas, a Firjan lançou recentemente o Movimento Nacional Contra o Roubo de Cargas. A intenção é cobrar o aumento na fiscalização, melhorias na estrutura oferecida às polícias para a investigação dos crimes, a proibição da venda de bloqueadores de sinal de rádio utilizados pelas quadrilhas e punições mais severas para quem rouba ou compra a carga desviada.
O assessor de segurança da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC), Paulo Roberto de Souza, coronel da reserva do Exército, explica que a falta de estatísticas precisas prejudica a implantação de estratégias de combate às ocorrências. "Tem uma lei que cria o Sistema Nacional de Combate a Roubo de Cargas. Essa lei ficou se arrastando sem efeito prático. Em dezembro foi publicada em diário oficial a constituição dos membros que formam o comitê gestor dessa lei. Uma das metas é padronizar estatísticas no Brasil inteiro", afirma. A associação também acompanha os números e deve finalizar em breve um balanço referente a 2016.
Pelas estatísticas da Firjan, a quantidade de roubos de cargas saltou de 18.491 (em 2015) para 22.547 (em 2016). Souza cita a crise econômica e o desemprego como fatores que refletiram nesse crescimento. "A crise social levou muita gente a práticas de crimes como forma de sobrevivência, segundo os próprios órgãos de segurança pública. Muita gente que não tinha o perfil de envolvimento com delitos está se envolvendo agora", ressalta. O assessor de segurança da NTC destaca que o desafio é estabelecer medidas conjunturais, além de aprimorar a legislação e reforçar a estrutura dos órgãos de segurança pública.
À espera de melhorias, caminhoneiros seguem firmes nas estradas, mas colecionam relatos de ocorrências vivenciadas por companheiros de profissão. "Outro colega da região foi assaltado ao meio-dia em um sinaleiro. Os ‘caras’ entraram no caminhão e perguntaram se era carregamento de cerveja. Ele disse que era de óleo de cozinha. Os ‘caras’ pediram desculpa, abriram a porta e desceram. Três sinaleiros à frente, os mesmos ‘caras’ renderam o caminhoneiro de novo e disseram que tinham ligado para o dono no mercado, que também se interessou pela carga de óleo. Nós estamos perdidos! O pedágio é caro, o frete não reage, a bandidagem é demais e não temos sossego para parar e nem dormir", lamenta Nivaldo Paulo.(Com Folhapress)

Sem estatísticas detalhadas no Paraná
Dados de quatro Estados do País não foram incluídos nas estatísticas da Firjan, um deles é o Paraná. Consultada pela reportagem, a Polícia Civil não soube informar o número total de ocorrências relacionadas a furtos e roubos de cargas registrados em território paranaense. Em 2016, 84 inquéritos foram abertos em Curitiba e região metropolitana, onde fica a única Delegacia de Furtos e Roubos de Cargas (DFRC) do Estado.
A delegacia começou a funcionar em janeiro de 2016. Este ano, até 15 de março, 34 inquéritos foram abertos. "Nas outras unidades, não se tem o filtro para atender essa demanda no momento", informou a assessoria da Polícia Civil.
De acordo com o delegado titular da Delegacia de Furtos e Roubos de Cargas, Marcelo Lemos de Oliveira, 43 suspeitos, incluindo comerciantes, foram presos entre julho de 2016 e março de 2017. O principal foco das quadrilhas são cargas de alimentos. "São produtos difíceis de serem identificados posteriormente", explica. Roubos de caminhões carregados com cigarros e bebidas também são comuns. Cargas de fertilizantes são alvo no interior do Estado. Em alguns casos, as ocorrências estão relacionadas ao tráfico de drogas.
O chefe do Núcleo de Comunicação da Polícia Rodoviária Federal (PRF-PR), Fernando Oliveira, ressalta que as rondas foram intensificadas e que a PRF realiza operações conjuntas com frequência para identificar as quadrilhas. Entre as rodovias que exigem maior atenção dos caminhoneiros está a BR-116, que liga Curitiba a São Paulo. "É importante planejar sempre o deslocamento e evitar locais onde não há estrutura mínima de segurança. Se o posto de combustível, por exemplo, é mal iluminado, não tem câmeras ou serviços de vigilância, o motorista fica mais suscetível", reforça o policial. (V.C.)

Prejuízos são repassados a todos
Consumidores, caminhoneiros, donos de transportadoras e empresários em geral amargam os prejuízos causados pelos roubos de cargas em todo o País. O conselheiro fiscal do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas no Estado do Paraná (Setcepar), Gilberto Cantú, explica que o crime gera aumento nos custos que são repassados em efeito cascata.
"Esse produto roubado retorna ao mercado através de receptadores por um preço muito menor, às vezes 10% ou 15% abaixo do que vale. Ele é comercializado, muitas vezes, em locais já estabelecidos. Com isso, os demais produtos têm aumento nos custos de produção e transporte. Para o transportador, há o aumento no valor do seguro. O motorista fica com o estresse de permanecer em cativeiro durante algumas horas. O embarcador tem o prejuízo da não venda do material e da concorrência com o mercado paralelo e muitas seguradoras já deixaram de oferecer o seguro para as transportadoras", explica Cantú.
O representante em Paranaguá do Sindicato dos Condutores Autônomos de Bens (Sindicam), Hilton Rangel, revela que muitos caminhoneiros arcam com os prejuízos. No Paraná, os roubos ocorrem com frequência nas proximidades do porto. Segundo ele, ladrões se escondem atrás de um barranco em uma rotatória que dá acesso a Paranaguá. As quadrilhas colocam eletrodomésticos velhos (como geladeiras) na rodovia para obrigar o motorista a desacelerar. "Quando ele entra na rotatória, é obrigado a frear. Quando desvia, os ladrões saem de trás do barranco e abrem os caminhões com qualquer carga, principalmente grãos e adubo. Quando o caminhão é aberto na rodovia, o produto cai no chão. Duas ou três toneladas de grãos, por exemplo, podem valer menos do que a franquia da seguradora. Aí é descontado do caminhoneiro", detalha. (V.C.)
Viviani Costa
Reportagem Local/FOLHA DE LONDRINA
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