Veneno de peixe pode ser 'transformado' em analgésico



São Paulo - Os blênios dentes-de-sabre são peixes pequenos, tímidos e aparentemente inofensivos, que usam seus longos e afiados caninos para se defender, injetando um poderoso veneno nos potenciais predadores desavisados. Depois de estudar o conjunto de proteínas presentes nesse veneno, um grupo de cientistas concluiu que ele tem propriedades únicas que podem ser utilizadas para o desenvolvimento de analgésicos potentes.

De acordo com o estudo, publicado no dia 30 de março, na revista científica Current Biology, o veneno do pequeno peixe do gênero Meiacanthus contém substâncias como opioides, que atuam como a morfina e a heroína, causando uma súbita queda na pressão sanguínea das vítimas, paralisando-as imediatamente.

Depois de extrair o veneno e injetá-o em camundongos de laboratório, os cientistas constataram que roedores não apresentaram nenhum sinal de dor. "O fato do veneno do blênio dende-de-sabre ser indolor para os camundongos foi uma grande surpresa. O veneno dos peixes com espinhas dorsais produzem dor imediata e lancinante. A dor mais forte que já senti, por exemplo, foi produzida pelo veneno de arraia voadora", disse um dos autores do estudo, Bryan Fry, da Universidade de Queensland (Austrália).

Apesar do veneno potente, o Meiacanthus é um popular peixe ornamental. Com menos de 10 centímetros de comprimento, ele se alimenta basicamente de plâncton e algas. Mas graças aos dois caninos de seu maxilar inferior, que são ligados a glândulas onde fica armazenado o veneno, o pequeno peixe enfrenta agressivamente predadores muito maiores que ele. Segundo o cientista, com a queda súbita da pressão sanguínea, o inimigo fica desorientado e incapaz de caçar.

"Ao desacelerar os potenciais predadores, os blênios dentes-de-sabre têm a chance de escapar. Embora o veneno não produza dor, os opioides produzem uma sensação extremamente desagradável de náusea e tontura", explicou Fry.

Depois de extrair o veneno do Meiacanthus, os cientistas o submeteram a uma análise proteômica, que é o estudo em larga escala do conjunto de proteínas ali existentes. Segundo Fry, foram encontrados três componentes venenosos. Um deles é um neuropeptídeo que também ocorre no veneno mortal do caracol-de-cone. O segundo é uma lipase semelhante à que é encontrada no veneno do escorpião. O terceiro é um peptídeo opióide, semelhante aos que existem nos mais potentes analgésicos, como a morfina.

TRABALHOSO

A extração do veneno do pequeno peixe, no entanto, não foi tarefa fácil, segundo os pesquisadores. Quando ataca, o Meiacanthus injeta uma minúscula quantidade do veneno, tornando extremamente difícil sua coleta para a análise proteômica.

O método encontrado pelos cientistas para a extração do veneno foi trabalhoso. Eles tiravam os peixes de seus tanques e o provocavam com um cotonete até que eles mordessem a extremidade de algodão. O peixe então era introduzido de volta no tanque e o cotonete era colocado em uma solução que extraía pequena quantidade do veneno. O processo então era repetido à exaustão.

Também participaram do estudo cientistas da Escola de Medicina Tropical de Liverpool (Reino Unido) e da Universidade de Leiden (Holanda).
Fábio de Castro Agência Estado/VIA FOLHA DE LONDRINA
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