Mapa do Crack aponta 93 cidades em situação de alerta no PR



Usuários de crack se queixam da dificuldade de acesso a serviços de saúde, assistência social e segurança


Dos 5.570 municípios brasileiros, 1.154 apresentam situação de alerta para problemas relacionados ao crack, seja nos setores de segurança pública, saúde e assistência social. Os dados são do Observatório do Crack ligado a CNM (Confederação Nacional de Municípios). No chamado Mapa do Crack, disponível no site da confederação, 93 municípios do Paraná apresentam alto nível de problemas relacionados ao consumo da droga. Entre eles estão: Foz do Iguaçu, Cascavel, Toledo, Paranavaí, Maringá, Rolândia, Castro e Paranaguá.
O mapa considera todos os 399 municípios do Estado. Destes, 16 declararam não ter problemas relacionados ao consumo de crack e 37, incluindo Curitiba, não encaminharam resposta à CNM. A maioria dos municípios (164) foi classificada com nível médio de comprometimento. É o caso de Londrina.
Para o homem de 32 anos, viciado há 17, não é possível vencer o crack. Ele é mais uma das sete pessoas que vivem nos escombros de um posto de combustíveis desativado, localizado na avenida Dez de Dezembro, próximo ao Terminal Rodoviário. Vivendo em Londrina há nove anos, afirma que nunca recebeu qualquer tratamento público que pudesse o ajudar a deixar o vício.
Há quase quatro anos, o município foi integrado ao programa federal Crack, é possível vencer, coordenado pelo Ministério da Justiça, que visa fortalecer serviços nas áreas de saúde, assistência social e segurança pública, voltados ao tratamento de usuários de crack e ao enfrentamento do tráfico de drogas.
Porém, o homem conta que apenas grupos religiosos, de Londrina e cidades da região, se aproximam dos usuários com a intenção de prestar apoio. "Eles nos dão alimentos, roupas, cobertores. Até internação em clínicas de reabilitação para dependentes. Eu mesmo já fiquei internado por mais de um ano, mas deixei a clínica para voltar a usar crack", comenta ele.
Natural do Norte Pioneiro, relata que deixou a família, inclusive uma filha pequena, e se mudou para Londrina em busca de emprego e condições financeiras para bancar o próprio vício. "Sou pedreiro e tinha o sonho de viver do meu trabalho. Mas conheci o crack e tudo mudou. Hoje vivo da ajuda da vizinhança e das moedas que os motoristas dão no semáforo", disse o homem, que não acredita mais na própria recuperação. "Já está tarde para isso. Até penso em voltar para a minha cidade, Itambaracá (150 km de Londrina), mas sei que já está tarde demais. Não consigo largar a droga", diz o homem.
A desempregada Rosângela dos Santos, 33 anos, também frequenta o posto. Ela conta que está viciada no crack há oito meses. Diferentemente do pedreiro, diz que acredita na própria reabilitação. Ela espera um dia voltar a viver com as três filhas, que moram com os avós na cidade de Jataizinho (33 km de Londrina). "Passo de três a cinco dias dormindo e usando crack aqui. Volto para a minha casa, em Jataizinho, pelo menos uma vez por semana", revela ela.
Sobre os serviços nas áreas de saúde, assistência social e segurança pública voltados ao tratamento de usuários de crack, Rosângela explica que também nunca recebeu a visita de agentes públicos oferecendo apoio. Mesmo assim ressalta que já pediu ajuda no Centro POP (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua), localizado na avenida Celso Garcia Cid, a 800 metros do posto desativado. "Só vou ao Centro POP pedir passagens de ônibus, quando preciso voltar para Jataizinho", admite. No local, a população de rua recebe atendimento social, psicológico e pedagógico, e pode contar com um espaço para higienização e lavagem de roupas. O Centro POP não é um abrigo, mas sim um espaço para atender tecnicamente a população que vive em situação de rua e auxiliá-la a sair dessa situação.

AÇÕES
De acordo com a presidente do Conselho Municipal de Políticas Públicas de Álcool e Outras Drogas, Marilena Jordão, neste ano ainda não houve reunião do grupo de gestores do programa Crack, é possível vencer. Porém, as equipes da Prefeitura de Londrina mantêm as ações educativas de prevenção e orientação e as abordagens aos usuários para o encaminhamento para abrigos ou instituições que promovem o tratamento. "Está sendo feito um trabalho bom no município. É um trabalho integrado entre a assistência social, a saúde, as comunidades terapêuticas, as instituições ambulatoriais, o Ministério Público e vários envolvidos", destacou a assistente social.
O secretário municipal de Defesa Social, Evaristo Kuceki, informou que guardas municipais circulam em pontos estratégicos da cidade e realizam o cadastro dos usuários de crack. As ações contam com o apoio dos veículos fornecidos pelo Ministério da Justiça por meio do programa do governo federal de combate ao crack. "Temos dois ônibus: um equipado e outro entregue sem equipamentos, mas faltam quatro câmeras de monitoramento em cada um. Essas câmeras ficariam em pontos fixos da cidade", apontou. Os dois veículos, segundo ele, chegaram no ano passado. Quase 500 usuários foram cadastrados nos quatro primeiros meses de atividades.

MAPEAMENTO
O Mapa do Crack foi criado em 2012 e é atualizado a partir das informações preenchidas pelos próprios gestores municipais. A classificação é feita de acordo com os relatos de prefeitos e secretários. Segundo o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, "o consumo de drogas está nacionalizado". "Esse é um problema de toda a sociedade. Gera insegurança, afeta família e amigos e as secretarias de saúde são muito procuradas. A situação vem piorando cada vez mais e não há combate. Em todos os municípios existe uma cracolândia, em maior ou menor grau", afirmou.
Ao elaborar o mapa, a CNM produziu um questionário para desvendar as ações de enfrentamento em relação a esta e outras drogas. Gestores municipais têm acesso ao sistema para efetuar o cadastro de dados online. No entanto, a frequência de atualização das informações depende da disponibilidade dos responsáveis em cada cidade. O mapa passou por algumas reformulações e já embasou pesquisas desenvolvidas pela entidade.
A principal crítica do presidente da CNM é quanto a falta de fiscalização dos 580 municípios nas regiões de fronteira do Brasil por onde entra a pasta base de cocaína. "Ela ingressa e é processada no Brasil. Isso é a base de outras drogas pesadas como o crack. Não há fiscalização nas fronteiras e depois falta fiscalização interna. O que resta na ponta, nos municípios, é o possível acolhimento desses usuários, mas faltam locais de internação", destacou.
A assessoria do Ministério da Justiça foi procurada para repassar informações relacionadas ao programa de combate ao crack desenvolvido em todo o País, mas não houve retorno.

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Paulo Monteiro e Viviani Costa
Reportagem Local/folha de londrina
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