Professor fica menos em escola mais pobre



As escolas com alunos mais pobres do País têm mais rotatividade no quadro de professores, menos alunos interessados nas vagas existentes e diretores menos experientes, com menor salário em relação a outros colégios. É o que aponta um estudo inédito produzido pela Fundação Lemann, com base em respostas dadas pelos diretores aos questionários da Prova Brasil de 2015, avaliação nacional mais recente que mede o desempenho dos colégios brasileiros.

Em 80% das escolas de nível socioeconômico (NSE) muito baixo sobram vagas de alunos depois do processo de matrícula. Do lado oposto, nas de NSE muito alto, só 13% têm sobra de vagas, segundo os diretores. O NSE é calculado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão vinculado ao Ministério da Educação, com base nas informações fornecidas pelos estudantes em questionários. É dividido em sete níveis: muito baixo, baixo, médio baixo, médio, médio alto, alto e muito alto, determinados conforme a escolaridade dos pais e bens disponíveis em casa, como televisão.

O estudo aponta ainda que, entre os professores, falta estabilidade: das escolas de nível muito baixo 30%, no máximo, tem 1/4 do quadro docente estável, ou seja, contratado por meio de concurso. No nível baixo, 21% das escolas têm o problema, que cai para 2% nas de nível alto ou muito alto.

DIRETORES
Mesmo os diretores enfrentam a desigualdade da rede. A maioria (56%) desses profissionais que atendem as escolas mais pobres tem no máximo sete anos de formado, enquanto que nas escolas de NSE alto este porcentual é de 10%. Com relação aos salários, 49% dos diretores de escolas mais pobres recebem até R$ 2.364, ante só 7% com essa remuneração máxima no NSE alto. Outro problema apontado pelos diretores é a falta de pessoal de apoio pedagógico: 21% dos diretores das escolas mais pobres destacaram a situação, ante 8% nas mais ricas.

ESPECIALISTAS 
A pesquisa indica que os problemas apontados no estudo também podem contribuir para a manutenção da desigualdade nas comunidades escolares mais carentes. Especialistas da área de educação corroboram a avaliação. "Esses dados mostram que quanto menor o nível socioeconômico da escola, mais há um processo de ‘evitação’ das escolas pelos educadores", diz o coordenador de desenvolvimento e pesquisa do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), Antonio Augusto Gomes Batista. Para ele, não se trata de preconceito. "Há muitas dificuldades nessas escolas. Elas ficam em regiões vulneráveis, mais afastadas do centro, em lugares que não têm equipamentos públicos falta saúde, segurança, cultura."

Outro problema, aponta, é a grande quantidade de alunos de nível socioeconômico mais baixo, diferentemente de outras escolas que têm mais heterogeneidade no perfil de alunos. "Há um efeito de pares. Um conjunto de pessoas parecidas em um grupo acaba influenciando o conjunto e fica mais difícil para a escola transmitir os seus valores."

Para o pesquisador e gerente de projetos da Fundação Lemann, Ernesto Faria, é necessário pensar em políticas que redirecionem mais recursos para essas escolas de baixa renda. "O que existe hoje são programas que garantem o mínimo, mas não um recurso e apoio a mais do que outras escolas", diz ele. "Muitas vezes essas escolas que atendem o aluno de baixa renda não conseguem articular nem as demandas mais básicas." Faria aponta ainda a necessidade de políticas de estímulo para que professores com melhor formação escolham escolas com maiores dificuldades, como acontece na Bélgica e na Finlândia.
Isabela Palhares e Luiz Fernando Toledo
Agência Estado/FOLHA DE LONDRINA
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