Índios ocupam fazenda em Tamarana



Crianças, jovens, adultos e idosos utilizam dois galpões da propriedade, pátio e área de lazer


Tamarana - Cerca de 300 índios da tribo caingangue ocuparam uma fazenda ao lado da Reserva Apucaraninha, em Tamarana (Região Metropolitana de Londrina), no final da manhã desta terça-feira (12). A tomada do espaço ocorreu de forma pacífica. Os indígenas defendem que mais da metade da área de, aproximadamente, 900 hectares faz parte da reserva e o proprietário está no local de forma irregular. 

O grupo usa como argumento um documento de 1955, em que o Estado repassou para a tribo um campo de 6,3 mil hectares, que incluiria a propriedade ocupada. Segundo Lucilene de Melo, porta-voz dos índios, o ato é uma reintegração de posse. "Queremos entrar em um acordo legal. Nosso desejo é sentar com a pessoa que se diz proprietária e descobrir quem foi o prejudicado na história. Nós ou ele", afirmou.

Com grande quantidade de alimentos estocados, crianças, jovens, adultos e idosos utilizam dois galpões da propriedade, pátio e área de lazer. Eles garantiram que não irão danificar máquinas ou estruturas. "Não temos data prevista para sair daqui. Vamos ficar até esta questão ser resolvida. Além disso, estamos em constantes reuniões entre nós para decidirmos os próximos passos", explicou.

Outro documento que o grupo usa como motivação para a ocupação é um questionamento feito na Justiça de Londrina, em abril, sobre a demarcação de terras da tribo. Indagada sobre o intervalo de tempo entre o pedido e a ocupação, Melo diz que o grupo estava resolvendo outros problemas. "Começamos a preparar a tomada da fazenda na segunda-feira (11) e ainda avisamos o suposto dono. Estamos esperando outros documentos, vindos de Brasília, que comprovam que isso é nosso. Será mais uma maneira de dar embasamento no ato, que é legítimo", disse.

Dois funcionários da fazenda, com suas respectivas famílias, permaneceram no local sem nenhuma divergência com os índios. A área ocupada é produtiva, recentemente houve colheita de soja e aveia.


"Nosso desejo é sentar com a pessoa que se diz proprietária e descobrir quem foi o prejudicado na história. Nós ou ele", afirmou Lucilene de Melo


CONFLITO ANTIGO
Proprietário da Fazenda Tamarana, Euller Alcântara Ferreira disse que a ocupação aconteceu em razão do corte de energia de outra terra que os índios estavam, e que também é de sua propriedade. "Eles estavam, desde 2007, em outra área minha e de outro produtor. Evitamos ao máximo o conflito e esperamos desde então a reintegração. Porém, como há 20 dias houve o corte do 'gato' que estavam fazendo, se revoltaram e foram invadir outra fazenda", justificou. Os índios negaram que as motivações tenham sido essas.

Ferreira contou que o conflito na área é antigo. De acordo com ele, um compromisso foi firmado há dez anos entre 32 produtores de áreas do entorno da Reserva do Apucaraninha e os índios, com a intervenção do MPF (Ministério Público Federal) e da Funai (Fundação Nacional do Índio). No encontro ficou acertado que os índios não ocupariam mais sítios e fazendas da região, o que estava acontecendo com frequência.

Em posse de documentos que mostram que toda a área não pertenceria à demarcação da tribo, ele criticou a ausência do poder público na busca por um solução para a situação. "O Estado tinha que resolver tudo isso, porque quem sofre são os produtores", avaliou. "Não somos latifundiários, só queremos trabalhar", completou Ferreira que é proprietário da área há, aproximadamente, 20 anos.

O advogado do proprietário da Fazenda Tamarana, Sebastião Ferreira, destacou que entrou em contato com as polícias Federal, Civil e Militar. "A resposta que nós obtivemos é que eles estão conversando com a Funai, mas nós já colocamos o risco que existe de um confronto no local. As autoridades devem tomar providências para a segurança das famílias dos funcionários que moram lá", afirmou ele, que também atua como diretor jurídico na Sociedade Rural do Paraná

FUNAI
O chefe da coordenação da Funai em Londrina, Marcos Cesar Cavalheiro, explicou que há indefinições quanto à delimitação da área. "A terra indígena no registro do cartório consta como 6.300 hectares. Na demarcação, estão 5.574 hectares na Reserva Apucaraninha. Sobre esse assunto, já houve algumas tratativas inclusive com a participação do governo do Estado, mas ficaram algumas dúvidas quanto à área em si. Passado o tempo, não veio resposta definitiva e a comunidade acabou pressionando os caciques para tomar uma atitude", argumentou.

A intenção da Funai é identificar onde está o erro na demarcação. "A gente quer saber efetivamente onde está essa área que está faltando. É um total de 724 hectares. Só depois vamos poder fazer alguma coisa", explicou. Uma reunião com a Polícia Militar deve ser realizada nesta quarta-feira (13).

COPEL
O corte de energia elétrica que teria gerado descontentamento de indígenas que já ocupavam a área menor ocorreu apenas por uma questão técnica, segundo informou a assessoria de imprensa da Copel. Conforme a assessoria, o corte no fornecimento foi ocasionado por um problema técnico de oscilação da tensão. Após o problema, funcionários da companhia detectaram que a ligação no local continha irregularidades.
Pedro Marconi e Viviani Costa
Reportagem Local/FOLHA DE LONDRINA
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