Protagonismo das pessoas com deficiência



Vera Lúcia Vick dos Santos entrou na Apae como aluna e hoje trabalha como telefonista na instituição. "A cada dia eu aprendo mais"


Direitos, necessidades e realizações completam o tema "Protagonismo das Pessoas com Deficiência", do 45º Congresso Estadual das Apaes (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) do Paraná. O evento teve início nesta quinta (21), no Parque de Exposições Governador Ney Braga e reúne aproximadamente 700 pessoas entre palestrantes, convidados e equipe. O trabalho da Associação é discutido, buscando retorno às 336 escolas e 13 coirmãs, que atendem mais de 46 mil alunos de todo o Estado.

Neuza Soares de Sá, presidente da Federação das Apaes do Paraná, explica a importância do evento. "Nós temos 62 anos de caminhada e infelizmente ainda temos dificuldades em algumas áreas, é o momento de refletir sobre as questões. As discussões são necessárias, o congresso existe para isso", afirma. O intuito é compartilhar métodos e conhecimentos, teóricos e práticos, entre os participantes e confraternizar entre a comunidade apaeana. "É um retorno para as Apaes, o professor pode se aperfeiçoar, beneficiando seu crescimento e formação para atender melhor os alunos e famílias", acrescenta.

O foco é o protagonismo da pessoa com deficiência, ilustrado muito bem pela ex-aluna e funcionária da Apae Londrina, Vera Lúcia Vick dos Santos, 34. A telefonista conquistou a autonomia sobre sua rotina, protagonizando uma história de superação. Casada e com um filho de 15 anos, Santos cresceu no lar para crianças, sem pai, nem mãe. "Eu cheguei aqui quando criança, agora trabalho na secretaria. Sou funcionária desde os 22 anos e a cada dia eu aprendo mais", afirma.

Santos conta que ainda tem algumas dificuldades por conta da deficiência intelectual, mas reconhece a importância da escola para seu desenvolvimento. "Eu percebo que meu comportamento mudou bastante, eu era muito bagunceira, falava alto", brinca. Considerada funcionária exemplar, revela que é bastante atenta com seus compromissos. "Eu nunca falto ou chego atrasada, nem pego atestado à toa. Em casa eu também limpo, lavo, cozinho, vou ao mercado, tudo isso eu aprendi na escola", orgulha-se.

É um trabalho com resultados visíveis. "Os efeitos são perceptíveis a longo prazo, e nós vamos atingindo as superações pessoais de cada um. Vimos cadeirantes que chegaram aqui e não falavam, hoje andam, falam e cantam", orgulha-se Elisângela Dias de Toledo, coordenadora pedagógica da instituição.

Há 53 anos, a Apae de Londrina mantém serviço especializado às pessoas com deficiência intelectual e múltipla, atualmente, atende 312 alunos. Como sede do evento, busca fortalecer o trabalho de união entre as associações do Estado. "Nós temos várias discussões importantes, como o envelhecimento dos alunos, pois as necessidades desse público são específicas. Além disso, alguns direitos adquiridos precisam de fortalecimento para que sejam executados. Esses são apenas alguns poucos exemplos do que vem a ser debatido. E destacar também sobre as realizações, as conquistas, como metodologias atuais focadas no autismo", enumera a coordenadora.

Gabriel Teixeira Chiquitano está na Apae há 16 anos.
Gabriel Teixeira Chiquitano está na Apae há 16 anos. "Eu sou um dos mais velhos daqui, mas eu gosto, eu participo"


A experiência de quem precisa
Entre os objetivos das Apaes está o processo de desenvolvimento e alcance da autonomia dos alunos para a inserção no mercado de trabalho. No entanto, não é um trabalho individual, é preciso ter o apoio dos pais, por isso a instituição se compromete a fazer o acompanhamento dos alunos e das famílias. "Os pais são os grandes participantes e a escola dá orientação, os caminhos e suportes para que se alcance a melhoria da atuação dos responsáveis para uma melhor convívio familiar", informa a coordenadora pedagógica Elisângela Dias de Toledo.

Saulo Ohara
Saulo Ohara - Gabriel Teixeira Chiquitano está na Apae há 16 anos.
Gabriel Teixeira Chiquitano está na Apae há 16 anos. "Eu sou um dos mais velhos daqui, mas eu gosto, eu participo"

O processo não é rápido, mas os atendidos não reclamam, gostam da convivência na Apae. André Luiz Gelamo Rua, 21, entrou na escola aos 15 e é portador de deficiência múltipla. Tímido, passa pelos corredores da escola em sua cadeira de rodas. "Na minha sala tem mais quatro cadeirantes", conta. "Gosto de vir para cá, me ensinam a escrever, a estudar. Faço tapete no tear com a ajuda do Léo", menciona o amigo.

Gabriel Teixeira Chiquitano, 36, diferente de Rua, chega animado. "Cheguei!", canta no ritmo antes de entrar na sala. Gosta de se sentir prestativo, por isso oferece ajuda a qualquer pessoa da escola. "Quando precisar de mim é só me chamar", exclama. Chiquitano chegou entrou na instituição em 2001 e sua última dificuldade foi lidar com a morte da mãe e a mudança de residência para morar com o pai. "Foi bem difícil, a psicóloga (da instituição) ajudou bastante", relata também que perdeu peso no processo.

Saulo Ohara
Saulo Ohara -
"Gosto de vir para cá, me ensinam a escrever, a estudar", afirma André Luiz Gelamo Rua


"Eu sou um dos mais velhos daqui, mas eu gosto, eu participo. Fiz amigos e tenho uma namorada", revela Chiquitano. Suas atividades são diárias, inicia às 7h30 e sai às 13h, quando a van vem buscar. Com dificuldade motora, anda com o auxílio de uma muleta, o que não o faz desistir de participar das atividades. "Eu não falto, venho todos os dias. Agora vou fazer tapete, eu escrevo, converso com os amigos, a professora é legal", afirma.

Entre desafios e conquistas, a Apae de Londrina continua trabalhando na busca de melhoras do atendimento. Atualmente, possui quatro fases de educação: estimulação, de 0 a 3 anos; educação infantil, de 4 a 5 anos; ensino fundamental, de 6 a 15 anos; e a EJA (Educação de Jovens e Adultos), para alunos que estão acima dos 16 anos. A instituição é filantrópica e possui lista de espera, mas pretende ampliar a estrutura para aumentar o número de pessoas atendidas. (L.T.)
Lais Taine
Reportagem Local/FOLHA DE LONDRINA
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