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Nova soja vai exigir mais cuidados

O mau uso de herbicidas vai custar caro à cultura de soja no Brasil. Ao deixarem de lado as boas práticas, os agricultores selecionaram plantas daninhas resistentes, que se disseminaram pelas regiões produtoras. Elas "viajaram" nas máquinas agrícolas que não foram adequadamente limpas ao saírem de uma propriedade para outra. A indústria vem desenvolvendo novos produtos para combatê-las, mas, segundo a Embrapa Soja, o tempo das facilidades terminou. Num futuro próximo, a lavoura vai exigir mais trabalho e a deriva é uma preocupação crescente.

Já disponível nos Estados Unidos, a nova tecnologia desenvolvida pela Bayer/Monsanto, a Intacta 2 Xtend chega comercialmente ao Brasil em 2020 ou 2021. A novidade apresenta resistência não só ao glifosato, mas também ao dicamba, herbicida que mata as plantas daninhas de folhas largas. "Essa nova tecnologia vai dar mais trabalho e exigir um produtor mais informado", afirma o pesquisador da Emprapa Dionísio Gazziero.

Ele explica algumas diferenças entre os dois herbicidas. "O dicamba não pode ser aplicado com qualquer bico. Tem de ser um bico que faça gotas grossas. O glifosato que vai ser misturado ao dicamba não pode ser de amônia, mas de sal de potássio. Depois da aplicação, o pulverizador com o dicamba tem de ser lavado três vezes", diz Gazziero.




O novo produto não é mais tóxico que o anterior. O problema é que as cultivares desenvolvidas até hoje são muito sensíveis ao dicamba, assim como várias outras culturas, a exemplo dos hortifrúti. Se houver deriva, o prejuízo pode ser grande, afirma o pesquisador.

Outra medida que precisará ser tomada é o buffer ou bordadura, faixa de lavoura de 30 a 50 metros que não terá aplicação do herbicida. "Estamos saindo do tempo de facilidade para entrar no de dificuldade. Novas ferramentas são desenvolvidas, mas nenhuma traz a praticidade do glifosato", diz Grazziero.

Volatidade
O gerente de Lançamento da Plataforma Intacta 2 Xtend para a América do Sul, André Menezes, conta que o dicamba a ser introduzido no Brasil é o da terceira geração e sua volatilidade é muito menor que o da primeira. "Há 30 anos, o dicamba era muito mais volátil. Numa segunda geração, essa volatilidade foi reduzida em 90%. E, nesta terceira, sofreu nova redução de 99%", garante. Quanto menos volátil o produto, maior é a chance de ele acertar o alvo correto.

"A volatilidade, a gente corrige na formulação do produto. Quanto à deriva, ela está relacionada às práticas de aplicação. Se usarmos o produto de forma correta não teremos problemas", alega. Algumas condições climáticas devem ser respeitadas, de acordo com ele. "A velocidade do vento não pode ultrapassar dez quilômetros por hora. A temperatura deve ser menor que 30 graus e a umidade relativa do ar, acima de 60%", explica.

Menezes ressalta que há tempo suficiente para que os produtores sejam preparados para lidar com a nova tecnologia. E que a experiência dos Estados Unidos vai tornar a adaptação mais fácil no Brasil.

O professor da Esalq - escola de agricultura da USP -, Pedro Christoffoleti afirma que o ideal seria não haver deriva alguma, mas esse é um problema de todos os herbicidas. "O dicamba é um produto que necessita de mais atenção por parte do agricultor no momento da aplicação. Hoje, nem sempre o produtor presta muita atenção porque (a deriva) não chega a afetar a cultura vizinha. Mas, com o dicamba, se houver deriva, a plantação do vizinho será afetada e ele não vai ficar muito feliz."

Christoffoleti concorda que, se a aplicação for feita do jeito certo, não haverá problema. "Se fizer de forma racional, inteligente, o produtor vai se beneficiar da tecnologia sem prejudicar os vizinhos", garante.


Jhony Moller, analista e agrônomo da Gerência Técnica da Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná), diz que a assistência técnica "terá de trabalhar" com o agricultor antes da chegada da nova soja. "Quando a gente fala de tecnologia, é preciso que o agricultor seja bem assistido pelo profissional de agronomia. Ainda há tempo para ele se preparar."


Nelson Bortolin
Reportagem Local

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