Furto de gado assusta produtores do Paraná
Pecuaristas do Paraná têm questionado a insegurança no campo.
Fazendas desde a região norte e central do Estado passaram por furto de
gado e o prejuízo, que varia de R$ 60 mil a R$ 100 mil, é o golpe fatal
aos pequenos produtores.
É um furto complexo. Com um caminhão boiadeiro, os ladrões entram nas propriedades e são até arbitrários em alguns casos: chegam a agredir e amarrar funcionários para fugir com o gado. Esse tipo de furto tem sido frequente desde 2017 e até hoje os roubos de gado afligem produtores paranaenses.
Algumas propriedades foram invadidas mais de uma vez. Há casos no noroeste do Estado como em Ângulo, Cidade Gaúcha, Mariluz e Cafezal do Sul, e na região central, como em Nova Tebas. Marcos Paulo dos Santos, proprietário rural de Mariluz, chegou a oferecer R$ 10 mil de recompensa para quem levasse informações sobre o furto de 23 cabeças de gado de sua propriedade em janeiro deste ano.
Suas vacas de corte Nelore e cinco bezerros foram levados na noite de um domingo. Santos avalia um prejuízo em torno de R$ 60 mil. “O pessoal fechou o gado durante o dia, veio à noite com um caminhão e carregou o gado”.
O pecuarista fez o Boletim de Ocorrência e manteve contato com a Polícia Civil, mas a investigação não foi para frente. “O próprio agente da Polícia Civil disse que não tem muita autonomia para investigar e também não tem muita tecnologia”.
O produtor alega que, mesmo sabendo o número do celular de um dos bandidos que furtou o gado, a polícia não pode quebrar o sigilo telefônico, descobrir em nome de quem está o celular e tampouco tem acesso às escutas. “Fica muito dependente de um juiz para quebrar o sigilo. A promotoria tem que entrar com pedido e é muito demorado, às vezes o juiz nega. Há pouco recurso para investigar”, lamenta.
Segundo Santos, o policial que o atendeu disse que o efetivo não tem condições ou tempo para sair a campo para investigar. “Tem que esperar o bandido cair sozinho para poder pegar. Tem câmera no trevo da cidade que pegou só a imagem, dá para saber as características do caminhão mas não tem a placa”. A suspeita do pecuarista é de que se trata de uma quadrilha na região. Mais de cinco pecuaristas foram roubados somente em Mariluz.
“A Patrulha Rural não resolveria. A área é muito grande para cobrir. Tem várias estradas, tem estrada que tem 30 quilômetros”, argumenta. O pecuarista acrescenta que o revés não é só paranaense, ocorre em todo o País. “Tem quadrilha roubando gado no Brasil inteiro à vontade. O problema é a lei federal.
Tem que modificar na instrução e dar mais poder para a Polícia Civil investigar”, opina. A reportagem procurou a Polícia Civil de Cruzeiro do Oeste, responsável pelo caso, mas não obteve retorno.
O criador Rogério Ranger foi furtado duas vezes, em fevereiro e maio do ano passado. “É uma chácara pequena, longe de onde mora meu caseiro. Cortaram o cadeado e abriram o portão. Rodei o Paraná todo atrás disso e não achei nada”, conta. Ranger lembra que a polícia chegou a prender alguns suspeitos perto de Tapejara (Noroeste). “Fui lá para ver, tinha bastante gado adulterado com marcações diferentes, tinha de um pessoal de Rondon (Noroeste), mas a minha marca não tinha”.
No primeiro furto, o criador perdeu cerca de R$ 40 mil e no segundo R$ 30 mil. “Banquei tudo sozinho”. O contratempo é na parte noturna, em que os policiais não costumam fazer ronda, segundo o pecuarista. “É esporádico ser abordado nas estradas à noite”.
Contudo, também há a probabilidade que mais de uma quadrilha esteja na região. Segundo o pecuarista, no mesmo dia que policiais abordaram suspeitos em Tapejara, uma outra fazenda foi furtada em Nova Olímpia.
Ranger criticou a falta de fiscalização. “Na noite saem três caminhões, um atrás do outro, e ninguém vê nada. Em janeiro também roubaram 20 vacas de um amigo meu. Fecharam todo o gado, o homem ficou com um caminhão parado no posto de Mariluz das 21h até as 22h30, desceu e carregou o gado. De 10 meses para cá, devem ter sido furtadas umas 300 cabeças”, conta.
Para o criador, os furtos estão relacionados com o preço do gado. “Trezentas cabeças de gado valem uns R$ 900 mil”, comenta.
Em Nova Tebas, na região central, quatro suspeitos de integrar uma quadrilha de furto de gado foram presos em fevereiro. Eles teriam roubado seis cabeças de gado por meio do caseiro de uma fazenda vizinha. Segundo a PM (Polícia Militar), a quadrilha ainda tinha cem cabeças de gado de procedência duvidosa. Eles também estariam envolvidos em outros furtos, como um roubo em junho de 2017, de acordo com a PM. Em julho do mesmo ano, os quatro suspeitos teriam tocado uma boiada para uma propriedade de um vizinho de um suspeito, sem conhecimento do dono do sítio. À época, o gado foi recuperado e entregue na Polícia Civil de Ivaiporã e, em seguida, liberado ao dono.
Antônio Sampaio, presidente da SRP (Sociedade Rural do Paraná), lembra que muitas vezes o proprietário é assaltado e fica desanimado para acionar a Justiça quando o furto é pequeno. Por conta disso, a SRP desenvolveu um sistema para catalogar as ocorrências, mas ele ainda não foi implantado.
“O que fazemos é pedir apoio para nossos sócios. Acredito que ainda esse ano conseguimos fazer o sistema funcionar. Às vezes você vai a uma autoridade fazer uma reclamação e não tem números para trazer uma informação mais consistente, quantos roubaram, quantos foram encontrados”, disse.
Segundo Sampaio, na região de Londrina, a SRP ultimamente não tem tido tanta reclamação dos pecuaristas, mas em Centenário do Sul (Norte), Guaraci (Centro-Norte) e Santa Fé (Centro-Norte) “é um desastre”.
A situação é mais danosa para o pequeno proprietário, que, após o furto, tem seu negócio inviabilizado. “Se você rouba 10 cabeças de gado em uma propriedade grande é um prejuízo enorme, mas ele continua trabalhando. Se você rouba 20 cabeças de um sitiante que tem 40, ele quebra. Não tem como se reerguer mais”.
Esse é um cenário comum, segundo o presidente. Ele lembra de um sitiante de Santa Fé, vítima de um furto de 40 cabeças de gado. “Acabou o negócio dele. Isso é o mais cruel que a gente tem assistido aqui. O grande produtor ainda consegue tocar a vida dele”.
Para Sampaio, investir em tecnologia e inteligência é certeza da segurança do gado. “Nesses últimos tempos, como todos viajam com nota, com GTA (Guia de Trânsito Animal), é mais controlado do que antigamente. Não há como fazer segurança sem dinheiro”.
A SRP sugeriu às autoridades que as estradas sejam equipadas com câmeras, para que, ao visualizar um veículo suspeito, já seja possível acionar a polícia. As forças de segurança já iriam dispor do mapa da propriedade, por meio do georreferenciamento. “Fizemos algumas reuniões para sugerir isso, fizemosestudos, mas não evoluiu, infelizmente”.
Outra sugestão para minar os furtos é a instalação de um rastreador em caminhões boiadeiros. Há várias soluções pela tecnologia: botão de emergência e chip no gado, como exemplifica Sampaio. “Precisamos detalhar isso para a Secretaria de Segurança, tem que fazer, gente para resolver tem”.
Arnoldo Bulle, coordenador da comissão de segurança da SRP, acrescenta que inclusive sócios e ex-presidentes da Rural já foram vítimas desse tipo de furto.
Mas, segundo o coordenador, a equipe da polícia tem dado atenção aos proprietários rurais. “A Polícia Civil se interessou muito pelo programa da Rural, nem o Estado tem esse sistema de levantamento ocorrências”, acrescentou.
A comissão foi instituída há dois anos. Bulle lembra que a SRP já busca fazer a integração das polícias militar e civil no registro das ocorrências. “Se tivermos êxito nesse trabalho que estamos desenvolvendo caberá às instituições a cobrança de respostas enquanto sociedade civil organizada”.
FONTE - FOLHA DE LONDRINA
É um furto complexo. Com um caminhão boiadeiro, os ladrões entram nas propriedades e são até arbitrários em alguns casos: chegam a agredir e amarrar funcionários para fugir com o gado. Esse tipo de furto tem sido frequente desde 2017 e até hoje os roubos de gado afligem produtores paranaenses.
Algumas propriedades foram invadidas mais de uma vez. Há casos no noroeste do Estado como em Ângulo, Cidade Gaúcha, Mariluz e Cafezal do Sul, e na região central, como em Nova Tebas. Marcos Paulo dos Santos, proprietário rural de Mariluz, chegou a oferecer R$ 10 mil de recompensa para quem levasse informações sobre o furto de 23 cabeças de gado de sua propriedade em janeiro deste ano.
Suas vacas de corte Nelore e cinco bezerros foram levados na noite de um domingo. Santos avalia um prejuízo em torno de R$ 60 mil. “O pessoal fechou o gado durante o dia, veio à noite com um caminhão e carregou o gado”.
O pecuarista fez o Boletim de Ocorrência e manteve contato com a Polícia Civil, mas a investigação não foi para frente. “O próprio agente da Polícia Civil disse que não tem muita autonomia para investigar e também não tem muita tecnologia”.
O produtor alega que, mesmo sabendo o número do celular de um dos bandidos que furtou o gado, a polícia não pode quebrar o sigilo telefônico, descobrir em nome de quem está o celular e tampouco tem acesso às escutas. “Fica muito dependente de um juiz para quebrar o sigilo. A promotoria tem que entrar com pedido e é muito demorado, às vezes o juiz nega. Há pouco recurso para investigar”, lamenta.
Segundo Santos, o policial que o atendeu disse que o efetivo não tem condições ou tempo para sair a campo para investigar. “Tem que esperar o bandido cair sozinho para poder pegar. Tem câmera no trevo da cidade que pegou só a imagem, dá para saber as características do caminhão mas não tem a placa”. A suspeita do pecuarista é de que se trata de uma quadrilha na região. Mais de cinco pecuaristas foram roubados somente em Mariluz.
“A Patrulha Rural não resolveria. A área é muito grande para cobrir. Tem várias estradas, tem estrada que tem 30 quilômetros”, argumenta. O pecuarista acrescenta que o revés não é só paranaense, ocorre em todo o País. “Tem quadrilha roubando gado no Brasil inteiro à vontade. O problema é a lei federal.
Tem que modificar na instrução e dar mais poder para a Polícia Civil investigar”, opina. A reportagem procurou a Polícia Civil de Cruzeiro do Oeste, responsável pelo caso, mas não obteve retorno.
O criador Rogério Ranger foi furtado duas vezes, em fevereiro e maio do ano passado. “É uma chácara pequena, longe de onde mora meu caseiro. Cortaram o cadeado e abriram o portão. Rodei o Paraná todo atrás disso e não achei nada”, conta. Ranger lembra que a polícia chegou a prender alguns suspeitos perto de Tapejara (Noroeste). “Fui lá para ver, tinha bastante gado adulterado com marcações diferentes, tinha de um pessoal de Rondon (Noroeste), mas a minha marca não tinha”.
No primeiro furto, o criador perdeu cerca de R$ 40 mil e no segundo R$ 30 mil. “Banquei tudo sozinho”. O contratempo é na parte noturna, em que os policiais não costumam fazer ronda, segundo o pecuarista. “É esporádico ser abordado nas estradas à noite”.
Contudo, também há a probabilidade que mais de uma quadrilha esteja na região. Segundo o pecuarista, no mesmo dia que policiais abordaram suspeitos em Tapejara, uma outra fazenda foi furtada em Nova Olímpia.
Ranger criticou a falta de fiscalização. “Na noite saem três caminhões, um atrás do outro, e ninguém vê nada. Em janeiro também roubaram 20 vacas de um amigo meu. Fecharam todo o gado, o homem ficou com um caminhão parado no posto de Mariluz das 21h até as 22h30, desceu e carregou o gado. De 10 meses para cá, devem ter sido furtadas umas 300 cabeças”, conta.
Para o criador, os furtos estão relacionados com o preço do gado. “Trezentas cabeças de gado valem uns R$ 900 mil”, comenta.
Em Nova Tebas, na região central, quatro suspeitos de integrar uma quadrilha de furto de gado foram presos em fevereiro. Eles teriam roubado seis cabeças de gado por meio do caseiro de uma fazenda vizinha. Segundo a PM (Polícia Militar), a quadrilha ainda tinha cem cabeças de gado de procedência duvidosa. Eles também estariam envolvidos em outros furtos, como um roubo em junho de 2017, de acordo com a PM. Em julho do mesmo ano, os quatro suspeitos teriam tocado uma boiada para uma propriedade de um vizinho de um suspeito, sem conhecimento do dono do sítio. À época, o gado foi recuperado e entregue na Polícia Civil de Ivaiporã e, em seguida, liberado ao dono.
Antônio Sampaio, presidente da SRP (Sociedade Rural do Paraná), lembra que muitas vezes o proprietário é assaltado e fica desanimado para acionar a Justiça quando o furto é pequeno. Por conta disso, a SRP desenvolveu um sistema para catalogar as ocorrências, mas ele ainda não foi implantado.
“O que fazemos é pedir apoio para nossos sócios. Acredito que ainda esse ano conseguimos fazer o sistema funcionar. Às vezes você vai a uma autoridade fazer uma reclamação e não tem números para trazer uma informação mais consistente, quantos roubaram, quantos foram encontrados”, disse.
Segundo Sampaio, na região de Londrina, a SRP ultimamente não tem tido tanta reclamação dos pecuaristas, mas em Centenário do Sul (Norte), Guaraci (Centro-Norte) e Santa Fé (Centro-Norte) “é um desastre”.
A situação é mais danosa para o pequeno proprietário, que, após o furto, tem seu negócio inviabilizado. “Se você rouba 10 cabeças de gado em uma propriedade grande é um prejuízo enorme, mas ele continua trabalhando. Se você rouba 20 cabeças de um sitiante que tem 40, ele quebra. Não tem como se reerguer mais”.
Esse é um cenário comum, segundo o presidente. Ele lembra de um sitiante de Santa Fé, vítima de um furto de 40 cabeças de gado. “Acabou o negócio dele. Isso é o mais cruel que a gente tem assistido aqui. O grande produtor ainda consegue tocar a vida dele”.
Para Sampaio, investir em tecnologia e inteligência é certeza da segurança do gado. “Nesses últimos tempos, como todos viajam com nota, com GTA (Guia de Trânsito Animal), é mais controlado do que antigamente. Não há como fazer segurança sem dinheiro”.
A SRP sugeriu às autoridades que as estradas sejam equipadas com câmeras, para que, ao visualizar um veículo suspeito, já seja possível acionar a polícia. As forças de segurança já iriam dispor do mapa da propriedade, por meio do georreferenciamento. “Fizemos algumas reuniões para sugerir isso, fizemosestudos, mas não evoluiu, infelizmente”.
Outra sugestão para minar os furtos é a instalação de um rastreador em caminhões boiadeiros. Há várias soluções pela tecnologia: botão de emergência e chip no gado, como exemplifica Sampaio. “Precisamos detalhar isso para a Secretaria de Segurança, tem que fazer, gente para resolver tem”.
Arnoldo Bulle, coordenador da comissão de segurança da SRP, acrescenta que inclusive sócios e ex-presidentes da Rural já foram vítimas desse tipo de furto.
Mas, segundo o coordenador, a equipe da polícia tem dado atenção aos proprietários rurais. “A Polícia Civil se interessou muito pelo programa da Rural, nem o Estado tem esse sistema de levantamento ocorrências”, acrescentou.
A comissão foi instituída há dois anos. Bulle lembra que a SRP já busca fazer a integração das polícias militar e civil no registro das ocorrências. “Se tivermos êxito nesse trabalho que estamos desenvolvendo caberá às instituições a cobrança de respostas enquanto sociedade civil organizada”.
FONTE - FOLHA DE LONDRINA


