A VIDA CONTINUA...
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| minha mãe, dna Marieta, Padre Roberto e Seu Tobias. |
Meu pai foi um homem simples e pobre. Estudou somente as primeiras letras e morreu em 2010, antes de completar 85 anos. Trabalhou na roça, no eito. Era agricultor durante os dias da semana e nos dias de feira, lá no interior, vendia bugigangas, para ajudar no orçamento da casa e quando viu que no nordeste não tinha mais jeito pra ele, pegou o primeiro “Pau de Arara” e veio para o Sul do Brasil. Foi agricultor no interior de São Paulo, onde nasceu seu filho caçula, depois ainda voltou ao nordeste, e teve que retornar para São Paulo, aí, já na capital paulista, fez de tudo um pouco e conseguiu sua casinha, que era seu sonho na vida. Criou três filhos e quando morreu deixou a todos encaminhados na vida. Dos três , todos concluíram o segundo grau e não se formaram porque não quiseram. Se dependesse do meu pai, não ficaria um sem anel no dedo e diploma pendurado na parede.Meu pai era um homem simples, sem luxo. Para ele importava a panela cheia, as barrigas fartas, a meninada feliz pelo excesso de comida. O luxo era dispensável. Importava apenas a mesa repleta de pratos e panelas cheirando a comida, e a escola. Dessas duas coisas não abria mão.
Seu Tobias , meu pai, nem terminou o curso primário. As circunstâncias não permitiram. Por isso investiu nos filhos. Deu-lhes educação suficiente para saber que era preciso ser honesto, que a virtude era a principal riqueza e que o dinheiro sagrado, era aquele que se ganha com o suor do rosto.
Papai era um homem forte, acostumado a derrubar uma roça de jurema preta na foice sem derramar muito suor. Por isso todos nós achávamos que ele seria eterno.
Sua morte pegou todos nós de surpresa e por isso doeu muito. Ele viajou pra São Paulo, capital, depois de estar morando comigo, no Paraná, para visitar seus netos e filha e adoeceu, vindo a falecer depois de alguns dias internado em um hospital de Guarulhos-SP. Foi num mês de novembro, antes do Natal e por isso que todos os anos, nesses tempos de festa, meu querido velho me vem na lembrança.
Comecei a lembrar-me do velho, seu Tobias Balbino de Araujo, depois que meu filho caçula, sorriu ao verificar que eu não escutara direito um recado seu. A audição começa a falhar. Daqui a pouco falhará a articulação entre uma passada e outra. Dia virá em que começarei a caminhar ajudado pela bengala ou pela mão amiga de algum filho devotado. É o retorno à origem.
Por isso, em vez de comemorar a véspera de natal nesta segunda, sugiro aos meus colegas de paternidade fazerem uma homenagem aos que nos proporcionaram a chance de estar aqui na terra contando a história. Principalmente aos que ainda têm a ventura de ter o pai, mesmo velhinho, caindo pelas paredes, ao seu lado. Triste é a realidade de quem se conforta pela lembrança.
E ao filho que hoje abraça o pai num gesto mecânico de cumprir uma obrigação natalina, peço: se o seu velho fraqueja, sem força para andar, dê o seu braço como ajuda, pois ele fez a mesma coisa quando você ensaiava os primeiros passos. Não ligue para a falta de audição do seu pai, pois ele escutou seu choro nas madrugadas e lhe deu consolo. O seu pai, não se esqueça, é retrato do seu futuro. Amanhã você estará sentado na mesma cadeira, esperando o mesmo carinho do filho que você acaba de botar no mundo.E, o mais importante: não deixe para lembrar do seu pai com saudade, dando-lhe a importância merecida quando já for tarde demais. Somente depois de perder é que a gente descobre o seu real valor.
E se for o caso, coma o peru, abra o presente, dê presente também. A vida continua.
Chagas Balbino


