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Recado do Cheida - Começa hoje a Semana de Proteção à Fauna.


Luiz Eduardo Cheida é médico, Deputado Estadual e Secretário do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná. Premiado pela ONU por seus projetos ambientais é membro titular do CONAMA ( Conselho Nacional do Meio Ambiente) e do Conselho Nacional de Recursos Hídricos. Foi prefeito de Londrina e presidente da Comissão de Ecologia da Assembleia Legislativa do Paraná.
Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos
Rua Desembargador Motta, 3384 - 80430-200 - Curitiba - PR
Fone (41) 3304-7700.
Quando um traficante de animais silvestres quebra o osso do peito de um passarinho para que ele, trespassado por tamanha dor, não pie, não se mexa, não se mova, a fim de não denunciar o criminoso, vê-se o grau de barbárie à que está exposto o mundo natural.
Quando um outro, com o cigarro aceso, perfura os olhos de uma ave para que, pela manhã, pensando que ainda é noite, ela não cante saudando o sol, denunciando-o, vê-se que a insanidade destes animais traficantes deve ser tratada com a mesma severidade com que eles tratam os traficados.
Até porque, o trágico tráfico silvestre não deita raízes apenas no que é da selva. Nos dias atuais, ele tem conexões com o tráfico de drogas, com a prostituição infantil, com o tráfico de armas, com a pirataria em todos os seus matizes, com a escravização sexual de mulheres e com tantos outros delitos que deixariam de cabelo em pé qualquer monge tibetano. Tivesse ele cabelos.
O tráfico de animais é o terceiro mais lucrativo do mundo. Movimenta 20 bilhões de dólares ao ano. Só perde para o tráfico de drogas e o de armas.
O Brasil, que entra com 10% desta fatia, abastece esse mercado com 38 milhões de animais ao ano. 40% deles são para o tráfico internacional que, altamente sofisticado, inclui táticas de fraudes, subornos, falsificação de documentos, pesquisadores e cientistas.
A população pobre, das regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste, é quem mais apreende estes animais. E os vendem em feiras-livres e ao longo das rodovias. Os receptadores estão nos estados do Sul e Sudeste.
E, para quê?
Vendê-los em pet-shops, como bichos de estimação; fornecê-los à indústria farmacêutica para a pesquisa biológica e produção de medicamentos, para colecionadores, zoológicos ilegais; matéria prima para artesanato, para elixires, cremes, poções e afins; e fins bem menos nobres que as vidas que acabam por retirar.
Uma vez mais, quem valida tal rapinagem é o douto consumidor...
Louro canário belga, agrilhoado à parede,
pelo crime de ser canoro e passional!...
E, degredado embora, é tão alegre!... Vede:
são de ouro as penas, de ouro a voz – ouro em geral...
Lê-se-lhe a alma, através do flébil canto, lede
bem, o seu coração apaixonado e leal!
O homem pensa que, por matar-lhe a fome e a sede,
pode prendê-lo assim, desfazer-lhe o casal...
É um crime engaiolar os poetas espontâneos
cuja organização aparente é indefesa
à curiosa ambição da espécie racional!
É contra a integridade espiritual dos crânios
prender-se uma criatura a quem a natureza
confiou um corpo de ouro e uma alma de cristal!...
Embora, no começo do século passado fosse obrigação social ter passarinho na gaiola, os versos do sergipano Hermes Fontes desbaratam a tendência desumana de manter cativo qualquer espécime vivo. Seu poema chama-se O Canário. Mas, poderia chamar-se o quati, o sabiá, a tartaruga, o macaco-prego-do-peito-amarelo, o bem-te-vi, o muriqui-do-norte, a ararinha azul, o mico-leão-da-cara-preta, seu primo mico-leão-dourado e as milhares de espécies de vertebrados que, por não termos dado ouvidos ao seu poema, são as vitimas deste século que já foi vindouro.
Através delas, o tráfico reinventou-se. Hoje, torna também cativas mulheres e crianças, nas barras douradas de seu mundo fugaz.
O canário canta na gaiola enquanto você deixar.
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