OCUPAÇÕES URBANAS - Invasões influenciam história da política habitacional
As práticas de regularizar áreas ocupadas e contemplar assentados em novos conjuntos difundiram a ideia de que a invasão é o caminho mais curto para se chegar à casa própria em Londrina
O casal Jeremias Pereira e Márcia da Silva vive em um fundo de vale na zona norte enquanto a filha Raissa Luana, de um mês, fica abrigada na casa da avó
"Se a gente não fizer isso, acabamos não sendo lembrados pela Cohab", diz Elisângela Caetano, que divide um barraco na zona norte com o marido Gilberto Ferreira e o filho Ian Gabriel, de um mês
A cena faz parte da história de 80 anos de Londrina. Em poucos dias, um vazio urbano – normalmente um fundo de vale protegido por legislação ambiental - é tomado por barracos feitos de pedaços de madeira, lona e qualquer material que faça às vezes de uma alvenaria, coberto por restos de telha ou um encerado surrado.
Somente este ano, foram mais quatro ocorrências (contra apenas duas no ano passado), todas na zona norte de Londrina, que reuniram, dependendo da estimativa, entre 500 e 1.000 famílias. A reportagem da FOLHA percorreu todas as novas áreas que abrigam gente à procura de um teto mais digno, de uma vida nova, na qual o aluguel não corroa o pouco que eles ganham.
A cultura da invasão permeia as ocupações urbanas irregulares na cidade há décadas, apontam os relatos, confirmados por estudos e pelos dados oficiais. É um fenômeno que atravessa gerações e que molda o comportamento tanto da população de baixa renda quanto do próprio município em relação à política habitacional. O histórico de investimentos da Companhia Municipal de Habitação de Londrina (Cohab-Ld) mostra que a construção das casas e a destinação delas estão diretamente relacionadas às ações dos sem-teto.
De acordo com levantamento feito pela atual administração da companhia municipal, foram regularizadas 21 ocupações, que resultaram em 1.635 escrituras. Outras 1.230 escrituras devem ser emitidas nos próximos meses, legalizando a situação de outros 16 bairros que surgiram a partir de invasões.
A ideia disseminada entre as famílias acampadas é que a melhor maneira de obter a casa mais rapidamente do que da forma legal é integrar um núcleo de invasão.
A eficiência do "método" é praticamente uma unanimidade nas novas áreas invadidas, a despeito de uma revisão na postura da Cohab, que reconhece a existência da cultura da invasão ao mesmo tempo que promete endurecer os critérios e banir os invasores do cadastro. Quem ouve os invasores sente ainda que o sonho da casa própria não se resume a questões financeiras. Os assentamentos miseráveis guardam histórias de londrinenses que querem mais privacidade para viver um novo amor ou para constituir sua própria família.
O auxiliar de serviços gerais Jeremias Antônio Pereira, de 31 anos, e sua companheira, Márcia Karina Ferreira da Silva, de 16, toparam o desafio de viver sem água e luz em uma precária construção entre a rua Ana Caputo Piacentini (Conjunto Maria Cecília) e o Córrego Sem Dúvida, na faixa de proteção de manancial, para ficar mais perto de um imóvel de verdade. Também livraram-se do constrangimento de viver "de favor" na casa da mãe de Márcia, aonde aportaram quando já não tinham mais dinheiro para pagar o aluguel. Raissa Luana, de um mês, única filha do casal, está abrigada na casa da avó materna, enquanto o casal tenta passar pela provação. "Não importa o local. Queremos uma casa nossa", avisa Pereira.
O repositor Gilberto Ferreira Neto, de 21, e a dona de casa Elisângela Caetano, de 16, decidiram se instalar em um barraco na invasão batizada de Bom Jesus, em terreno particular ao lado do Jardim São Jorge, porque querem sair dos fundos da casa da sogra. Eles também são pais de um bebê de um mês – Ian Gabriel - mas, diferentemente de Jeremias e Márcia, Gilberto e Elisângela decidiram levar o filho para viver no barraco. "Aqui um ajuda o outro, as coisas vão se ajeitar. O importante é que vejam nossa situação. Se a gente não fizer isso, acabamos não sendo lembrados pela Cohab", conta Elisângela, cujos familiares já viveram na mesma área, no antigo assentamento, à época chamado de Nossa Senhora Aparecida, e conseguiram uma casa regular no Jardim Horizonte II.
Somente este ano, foram mais quatro ocorrências (contra apenas duas no ano passado), todas na zona norte de Londrina, que reuniram, dependendo da estimativa, entre 500 e 1.000 famílias. A reportagem da FOLHA percorreu todas as novas áreas que abrigam gente à procura de um teto mais digno, de uma vida nova, na qual o aluguel não corroa o pouco que eles ganham.
A cultura da invasão permeia as ocupações urbanas irregulares na cidade há décadas, apontam os relatos, confirmados por estudos e pelos dados oficiais. É um fenômeno que atravessa gerações e que molda o comportamento tanto da população de baixa renda quanto do próprio município em relação à política habitacional. O histórico de investimentos da Companhia Municipal de Habitação de Londrina (Cohab-Ld) mostra que a construção das casas e a destinação delas estão diretamente relacionadas às ações dos sem-teto.
De acordo com levantamento feito pela atual administração da companhia municipal, foram regularizadas 21 ocupações, que resultaram em 1.635 escrituras. Outras 1.230 escrituras devem ser emitidas nos próximos meses, legalizando a situação de outros 16 bairros que surgiram a partir de invasões.
A ideia disseminada entre as famílias acampadas é que a melhor maneira de obter a casa mais rapidamente do que da forma legal é integrar um núcleo de invasão.
A eficiência do "método" é praticamente uma unanimidade nas novas áreas invadidas, a despeito de uma revisão na postura da Cohab, que reconhece a existência da cultura da invasão ao mesmo tempo que promete endurecer os critérios e banir os invasores do cadastro. Quem ouve os invasores sente ainda que o sonho da casa própria não se resume a questões financeiras. Os assentamentos miseráveis guardam histórias de londrinenses que querem mais privacidade para viver um novo amor ou para constituir sua própria família.
O auxiliar de serviços gerais Jeremias Antônio Pereira, de 31 anos, e sua companheira, Márcia Karina Ferreira da Silva, de 16, toparam o desafio de viver sem água e luz em uma precária construção entre a rua Ana Caputo Piacentini (Conjunto Maria Cecília) e o Córrego Sem Dúvida, na faixa de proteção de manancial, para ficar mais perto de um imóvel de verdade. Também livraram-se do constrangimento de viver "de favor" na casa da mãe de Márcia, aonde aportaram quando já não tinham mais dinheiro para pagar o aluguel. Raissa Luana, de um mês, única filha do casal, está abrigada na casa da avó materna, enquanto o casal tenta passar pela provação. "Não importa o local. Queremos uma casa nossa", avisa Pereira.
O repositor Gilberto Ferreira Neto, de 21, e a dona de casa Elisângela Caetano, de 16, decidiram se instalar em um barraco na invasão batizada de Bom Jesus, em terreno particular ao lado do Jardim São Jorge, porque querem sair dos fundos da casa da sogra. Eles também são pais de um bebê de um mês – Ian Gabriel - mas, diferentemente de Jeremias e Márcia, Gilberto e Elisângela decidiram levar o filho para viver no barraco. "Aqui um ajuda o outro, as coisas vão se ajeitar. O importante é que vejam nossa situação. Se a gente não fizer isso, acabamos não sendo lembrados pela Cohab", conta Elisângela, cujos familiares já viveram na mesma área, no antigo assentamento, à época chamado de Nossa Senhora Aparecida, e conseguiram uma casa regular no Jardim Horizonte II.
Carolina Avansini e Lúcio Flávio Moura
Reportagem Local-FOLHA DE LONDRINA
Reportagem Local-FOLHA DE LONDRINA

