Compra compulsiva pode ter tratamento psiquiátrico
Cinco por cento da população sofrem da síndrome
Devedores anônimos fazem reuniões semanais no salão paroquial da Catedral Metropolitana de Londrina
Londrina - Rosa (nome fictício), de 57 anos, trabalhou anos e anos em uma indústria antes de se aposentar. Gastava boa parte do salário com produtos que, segundo ela mesma, nem sempre lhe faziam falta. "Via uma oferta e comprava só para o outro não comprar", revela. O problema se agravou quando as dívidas foram se acumulando. "Minha filha de 13 anos falava que eu comprava coisa que nem usava." Há um ano e meio ela resolveu buscar ajuda no grupo dos Devedores Anônimos de Londrina (D.A.). Aprendeu a pôr no papel a relação de tudo o que comprava para controlar os gastos. "Antes, eu ficava danada se não comprasse alguma coisa que eu via, não podia nem ver oferta. Hoje, a oferta não me atrai, a não ser que eu precise daquilo", garante. Para Rosa, a saída do fundo do poço começa pela força de vontade. "Você sabe que não tem controle, mas falta responsabilidade para assumir seu problema e procurar ajuda", afirma.
A síndrome da compra compulsiva (CC) já é avaliada por psicólogos e psiquiatras como uma patologia associada a transtornos do impulso. E, portanto, exige tratamento. O Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPqHCFMUSP) é pioneiro no atendimento ambulatorial gratuito, via SUS, a pessoas diagnosticadas com a oneomania. A doença do consumo é uma das patologias associadas ao transtorno do controle do impulso (TCI).
Em sua dissertação de mestrado defendida na FMUSP, "O comprar compulsivo e suas relações com transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno afetivo bipolar", a psicóloga Tatiana Zambrano Filomensky afirma que a prevalência da compra compulsiva é estimada em cerca de 5% da população geral, e identificada com maior frequência no gênero feminino.
O estudo se propõe a investigar qual classificação de transtorno pode ser mais adequada para a compra compulsiva (CC), se o TCI, uma subsíndrome do transtorno afetivo bipolar (TAB) ou uma variante do famoso transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), semelhante ao armazenamento compulsivo. "O comportamento repetitivo e crônico do comportamento de gastar descontroladamente gera consequências negativas ao indivíduo, além dos elevados índices de comorbidades com transtorno de humor, ansiedade e outros transtornos do controle de impulso, o que contribui para manter a divergência existente sobre a classificação da compra compulsiva (CC)", escreve a psicóloga.
Em uma análise feita com 80 pacientes, Tatiana Filomensky avalia que os diagnosticados com a síndrome da compra compulsiva revelaram ter aquisição impulsiva, o que se assemelha ao transtorno do controle do impulso em vez do TOC ou do transtorno afetivo bipolar. A FOLHA tentou vários contatos com a psicóloga, mas não obteve retorno.
O vice-presidente da Associação Paranaense de Psiquiatria (APPSIQ), Alexandre Karam, afirma em entrevista por e-mail que o ato de comprar exageradamente e se endividar não é necessariamente considerado uma doença psiquiátrica. "Há situações em que essa atitude pode advir de falta de organização e planejamento financeiros adequados, infelizmente muito comuns. Contudo, podemos ter o excesso de gastos como parte de alguns quadros psiquiátricos", pondera.
"O mais importante de se pensar em primeiro lugar, devido à hierarquia de diagnósticos em psiquiatria, seria que esta atitude seja parte de um quadro maníaco, que pode ocorrer devido ao transtorno bipolar", explica. Nessa condição, acrescenta o psiquiatra, o paciente pode apresentar aumento de energia, euforia, pensamento acelerado e grandiosidade, o que poderia levá-lo a gastar de forma exagerada. "E aí o tratamento psiquiátrico é imprescindível, para proteger o paciente das consequências negativas de seus atos", recomenda Alexandre Karam. O vice-presidente da APPSIQ diz que desconhece haver no Paraná qualquer serviço semelhante ao prestado pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da USP. "Normalmente a abordagem recomendada seria uma avaliação psiquiátrica e psicológica para descartar os principais diagnósticos que poderiam cursar com tal comportamento", pontua.
A síndrome da compra compulsiva (CC) já é avaliada por psicólogos e psiquiatras como uma patologia associada a transtornos do impulso. E, portanto, exige tratamento. O Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPqHCFMUSP) é pioneiro no atendimento ambulatorial gratuito, via SUS, a pessoas diagnosticadas com a oneomania. A doença do consumo é uma das patologias associadas ao transtorno do controle do impulso (TCI).
CONSEQUÊNCIAS
Em sua dissertação de mestrado defendida na FMUSP, "O comprar compulsivo e suas relações com transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno afetivo bipolar", a psicóloga Tatiana Zambrano Filomensky afirma que a prevalência da compra compulsiva é estimada em cerca de 5% da população geral, e identificada com maior frequência no gênero feminino.
O estudo se propõe a investigar qual classificação de transtorno pode ser mais adequada para a compra compulsiva (CC), se o TCI, uma subsíndrome do transtorno afetivo bipolar (TAB) ou uma variante do famoso transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), semelhante ao armazenamento compulsivo. "O comportamento repetitivo e crônico do comportamento de gastar descontroladamente gera consequências negativas ao indivíduo, além dos elevados índices de comorbidades com transtorno de humor, ansiedade e outros transtornos do controle de impulso, o que contribui para manter a divergência existente sobre a classificação da compra compulsiva (CC)", escreve a psicóloga.
Em uma análise feita com 80 pacientes, Tatiana Filomensky avalia que os diagnosticados com a síndrome da compra compulsiva revelaram ter aquisição impulsiva, o que se assemelha ao transtorno do controle do impulso em vez do TOC ou do transtorno afetivo bipolar. A FOLHA tentou vários contatos com a psicóloga, mas não obteve retorno.
O vice-presidente da Associação Paranaense de Psiquiatria (APPSIQ), Alexandre Karam, afirma em entrevista por e-mail que o ato de comprar exageradamente e se endividar não é necessariamente considerado uma doença psiquiátrica. "Há situações em que essa atitude pode advir de falta de organização e planejamento financeiros adequados, infelizmente muito comuns. Contudo, podemos ter o excesso de gastos como parte de alguns quadros psiquiátricos", pondera.
"O mais importante de se pensar em primeiro lugar, devido à hierarquia de diagnósticos em psiquiatria, seria que esta atitude seja parte de um quadro maníaco, que pode ocorrer devido ao transtorno bipolar", explica. Nessa condição, acrescenta o psiquiatra, o paciente pode apresentar aumento de energia, euforia, pensamento acelerado e grandiosidade, o que poderia levá-lo a gastar de forma exagerada. "E aí o tratamento psiquiátrico é imprescindível, para proteger o paciente das consequências negativas de seus atos", recomenda Alexandre Karam. O vice-presidente da APPSIQ diz que desconhece haver no Paraná qualquer serviço semelhante ao prestado pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da USP. "Normalmente a abordagem recomendada seria uma avaliação psiquiátrica e psicológica para descartar os principais diagnósticos que poderiam cursar com tal comportamento", pontua.
"Minha filha de 13 anos falava
que eu comprava coisa
que nem usava."
que eu comprava coisa
que nem usava."
"Tratamento psiquiátrico
é imprescindível para
proteger o paciente"
é imprescindível para
proteger o paciente"
Diego Prazeres
Reportagem Local-FOLHA DE LONDRINA
Reportagem Local-FOLHA DE LONDRINA

