Senador do PT e banqueiro são presos na Lava Jato
Delcídio Amaral, líder do governo no Senado, e André Esteves são acusados de tentar impedir que ex-diretor da Petrobras fechasse acordo de delação
O petista Delcídio do Amaral tornou-se o primeiro senador preso no exercício do cargo e foi abandonado à própria sorte pelo partido
Brasília - O senador Delcídio Amaral (PT-MS), líder do governo na Casa, foi preso na manhã de ontem pela Polícia Federal em operação autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) depois que o Ministério Público Federal apresentou evidências de que ele tentava conturbar as investigações da Operação Lava Jato. Também foi preso o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, que estaria envolvido nas irregularidades, e o advogado Edson Ribeiro, que atuou para o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró. O STF também autorizou a prisão do chefe de gabinete do senador e buscas na casa do petista em Mato Grosso do Sul.
Delcídio havia sido citado por Cerveró, que o acusou de participar de um esquema de desvio de recursos envolvendo a compra da refinaria de Pasadena, nos EUA.
O senador teria até mesmo oferecido possibilidade de fuga a Cerveró em troca de ele não aderir ao acordo de colaboração com a Justiça, revelando as irregularidades da operação. A conversa foi gravada por um filho de Cerveró.
É a primeira vez que um senador é preso no exercício do cargo, já que a Constituição Federal só permite a prisão de parlamentar em crime flagrante. Nesse tipo de ação, de obstrução de investigação, a conduta é considerada crime permanente. É um dos poucos motivos que leva a corte a aceitar prisão preventiva de réu ainda sem julgamento.
Em votação na noite de ontem, o Senado decidiu pela manutenção da prisão de Delcídio. Foram 59 votos favoráveis contra 13 contrários e uma abstenção.
COSTA
O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa apontou, em depoimento prestado em acordo de delação premiada, que Delcídio indicou a diretoria internacional da Petrobras. Segundo Costa, apesar de ser do PT, "ele também prestava contas ao PMDB".
O senador foi diretor de gás e energia da Petrobras entre 1999 e 2001, no segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso -ele foi indicado ao cargo na petroleira pelo então senador Jader Barbalho (PMDB-PA). Nesse período, Cerveró foi seu principal assessor. Costa também trabalhou na Petrobras com o senador: era gerente de logística.
Em março, quando o ministro Teori Zavascki, relator dos processos relativos à Operação Lava Jato, divulgou a lista com os políticos investigados pela Lava Jato, ele havia acatado o pedido de Janot de arquivamento de investigação contra Delcídio.
A decisão de Teori atende a pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. O ministro pediu que fosse convocada para a manhã de ontem a realização de uma sessão extra da segunda turma do tribunal, que é responsável pelos casos que envolvem o esquema de corrupção da Petrobras.
DEFESA
A defesa do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) afirmou, em nota, que "manifesta inconformismo" em relação à sua prisão e pede respeito à Constituição, por impedir, à exceção de flagrante, a prisão de parlamentar. A nota, assinada pelo advogado Maurício Silva Leite, desqualifica ainda o ex-diretor Nestor Cerveró, chamando-o de "delator já condenado".
ABANDONADO
O PT abandonou rapidamente Delcídio do Amaral à própria sorte. Poucas horas após a prisão dele sob suspeita de atrapalhar as investigações da Lava Jato, o presidente da legenda, Rui Falcão, divulgou uma nota para dizer que o partido "não se julga obrigado a qualquer gesto de solidariedade" ao senador. O tratamento destoa do conferido pelo partido a outros filiados que foram parar na cadeia por corrupção no mensalão e na Lava Jato, como José Dirceu (preso em ambos escândalos) ou os ex-tesoureiros Delúbio Soares e João Vaccari Neto.
Delcídio sempre foi visto com reservas pelo establishment petista, que o via como um cristão-novo.
Mônica Bergamo, Márcio Falcão, Aguirre Talento e Bela Megale-FOLHA DE LONDRINA


