Cuidar de quem cuida: o caminho para uma sociedade mais humana e segura
um artigo da professora-doutora Elaine Michele, que é psicóloga e atua na Saúde Mental. Inclusive, está disponível para entrevistas sobre esse e outros temas ligados à Psicologia e Saúde Mental e Emocional.
Gratidão!!!
Elaine Michele
Psicóloga e doutora em Educação
O Brasil e o mundo enfrentam uma forte crise de saúde mental, impulsionada sobretudo por ansiedade, depressão e esgotamento profissional. Tanto que a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem orientado os países-membros a adotarem as medidas necessárias para conter o que está sendo chamado de “Epidemia da Saúde Mental”.
Dados recentes mostram recordes sucessivos de afastamentos do trabalho em todo o planeta e uma grande preocupação da população com o bem-estar emocional. No Brasil, o panorama não é diferente e os dados são alarmantes.
Foram registradas mais de 546 mil licenças médicas por transtornos mentais, batendo recorde histórico pelo segundo ano consecutivo, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Ansiedade e depressão respondem por quase 90% dos casos de afastamento concedidos pelo INSS.
O relatório global Ipsos Health Service Report, divulgado no final de 2025, aponta que a saúde mental se tornou a maior preocupação dos brasileiros, superando temas como o câncer e o estresse financeiro genérico, segundo a Forbes Brasil.
Os principais fatores de risco e causas são bem conhecidos, tanto por trabalhadores quanto por empregadores: pressão no trabalho, por conta de metas excessivas, jornadas longas, assédio e a cultura tóxica de alta produtividade que elevam os casos de burnout; impactos pós-pandemia, devido ao luto acumulado, o medo, o isolamento prolongado e a instabilidade econômica, que deixaram marcas duradouras na população; e a incerteza financeira, com a alta no custo de vida e a precariedade de formatos de contratação, que geram um estado de alerta constante.
Existe um fio invisível que sustenta a sociedade, mas que raramente recebe o devido valor no debate público e é um dos que podem contribuir para a melhoria desses índices, por meio do trabalho de quem dedica a vida a cuidar dos outros. São os professores, psicólogos, equipes que acolhem vidas em comunidades terapêuticas, famílias que amparam idosos e socorristas que chegam primeiro nos momentos de tragédia. Quando esse fio se rompe por exaustão ou omissão do Estado, toda a comunidade adoece.
Não podemos continuar tratando a saúde mental, o esgotamento profissional e o isolamento social como problemas individuais. A crise emocional que estamos enfrentando exige respostas institucionais corajosas, integradas e com segurança jurídica.
Na educação privada, os professores enfrentam uma jornada invisível e massacrante. Com o avanço das tecnologias digitais, a sala de aula invadiu o ambiente doméstico. Regulamentar o Direito à Desconexão e garantir o pagamento justo de horas-atividade não é um privilégio corporativo; é uma condição básica de dignidade humana e de preservação da saúde psíquica de quem forma as futuras gerações.
Na saúde, a valorização dos psicólogos — com o piso salarial nacional e a jornada de 30 horas — precisa deixar de ser uma promessa engavetada. A escuta analítica exige preparo e saúde de quem a pratica e os psicólogos estão sendo deixados de lado, num momento crucial para a saúde emocional e mental das pessoas, independentemente da idade, sexo, religião ou condição social.
Da mesma forma, os profissionais que atuam em comunidades terapêuticas sem fins lucrativos. Essas instituições fazem um trabalho humanitário essencial onde o Estado muitas vezes não chega. Não é justo que entidades filantrópicas paguem tarifas comerciais de água e luz ou fiquem sufocadas por tributos enquanto salvam vidas da dependência química. A instituição de tarifas sociais e isenções fiscais é um ato de justiça com quem restaura famílias.
Por fim, olhar para o futuro exige honrar o passado. O Estado Brasileiro precisa cuidar da sua população idosa. Precisamos superar a lógica de apenas remediar doenças na terceira idade e focar na autonomia e no combate à solidão. É necessária uma defesa da expansão dos Centros-Dia e no atendimento geriátrico preventivo, para garantir que o envelhecer seja sinônimo de respeito, saúde mental e convivência comunitária.
Valorizar os educadores, proteger os profissionais de saúde mental, dar suporte às entidades sociais e garantir dignidade aos idosos não são propostas isoladas. São os pilares de um projeto de sociedade que escolhe a empatia, o respeito e a responsabilidade. É hora de fazer o Estado cumprir o seu papel: cuidar, de verdade, de quem cuida de todos nós.
FONTE Psicóloga Elaine Michele
Psicóloga Elaine Michele
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@psicologa.elainemiche

