Superação - A vida por trás da reciclagem
Histórias de quem ganha o sustento
separando e reciclando os dejetos descartados pelas famílias
londrinenses rendem indicação ao Prêmio Betinho – Atitude Cidadã





Mãe de sete filhos
biológicos e sete adotivos, a catadora Maria do Prado, de 50 anos,
trabalha nas mesas de separação de resíduos e dali tira roupas para a
família, louças para a cozinha e enfeites.

Por saber o valor do lixo
reciclável, Maria do Prado chora ao contar sobre o incêndio recente que
consumiu o barracão onde trabalhava: "Era pouca coisa, mas era nosso"

A caixa do leite que o
londrinense tomou no café da manhã e em seguida depositou no saco do
lixo reciclável não passa despercebida por Maria do Prado. Tampouco a
embalagem do arroz do almoço, a garrafa vazia de óleo ou mesmo o
recipiente de marmitex descartado ainda com restos de comida. Pelas mãos
dela, um carrinho de plástico sem rodinhas fica novo aproveitando-se as
peças de outro brinquedo jogado no lixo. E aquela jaqueta que algum
desconhecido morador de Londrina colocou no saco verde porque não queria
mais foi muito útil para proteger a volta para casa num dia de chuva.
Maria do Prado, de 50 anos, é uma trabalhadora da reciclagem. Ou "catadora", como ela mesma prefere ser definida. Mãe de sete filhos biológicos e de outros sete adotivos, ela tira do material que as outras famílias jogam fora o sustento da própria família. Guerreira, superou o abandono, o racismo, o marido machista e o analfabetismo para se tornar uma referência no trabalho de dar a correta destinação aos materiais recicláveis que as pessoas não querem mais. Por essa trajetória, é uma das indicadas do Paraná ao Premio Betinho – Atitude Cidadã, que visa valorizar e dar visibilidade a iniciativas sociais e reconhecer o trabalho de pessoas que, em seu dia a dia, se dedicam à promoção da cidadania. De Londrina, também foram indicados Zaqueo Vieira, presidente da Cooper-Região, e Nilsa de Brito, à frente da Cooper-Oeste.
Abandono e
solidariedade
A catadora Maria do Prado nasceu em Bela Vista do Paraíso e foi abandonada ainda no hospital. Criada por pais adotivos, sempre sentiu "um buraco no peito" por não saber quem era a mãe biológica, que tentou procurar quando ainda morava na cidade natal, mas nunca conseguiu encontrar. Na tentativa de preencher este vazio, ela encheu o coração de solidariedade. Ainda muito jovem, aos 18 anos, se casou com o homem que viria a ser o pai dos sete filhos biológicos. Lembra com detalhes do nascimento de cada um: Dagmar, de 33, Lucimara, de 27, Sônia, de 26, Silvana, de 24, Erivelton, de 22, Erielton, de 18 e Silmara, de 17. Com detalhes, também, recorda as circunstâncias da "adoção" de Bruna, Cláudio, Fábio, Rosângela, Jaqueline, Zezinho e Angelita, que durante boa parte da vida foram criados e sustentados pela mãe adotiva. "Nunca fiz distinção entre os filhos. Trouxe as crianças para minha casa porque sei o quanto dói passar fome. Comigo, eles teriam pelo menos alguma coisa para comer", conta.
As duas filhas mais velhas vieram ao mundo em Londrina, quando Do Prado "ainda não sabia cuidar da própria vida e deixava tudo por conta do marido", um alcoólatra que muitas vezes gastava o dinheiro que ela ganhava em bebidas. Quando nasceu Sônia, o casal tinha ido tentar a vida em São Paulo. "Antes, eu era uma ‘Amélia’. Foi em São Paulo que aprendi a viver", garante ela, que na capital paulista assumiu a responsabilidade de administrar o próprio – e escasso – dinheiro, além de tomar decisões sobre as filhas. "Foi uma vizinha minha que me aconselhou a nunca deixar meus filhos fora da escola, porque um dia eles iriam me ajudar", diz.
Insatisfeita com os maus-tratos sofridos em casa, ela praticamente "fugiu" de São Paulo e voltou a morar com a mãe adotiva em Londrina. O marido logo veio atrás e ela admite que caiu nas promessas de mudança, retomando o casamento na primeira "casa própria": um barraco na invasão conhecida como Piocó (Zona Leste). "Para mim era o paraíso, pois lá eu sabia que meus filhos tinham onde por a cabeça para dormir", revela.
Lembranças
da fome
Antes do nascimento dos filhos mais novos, há 22 anos Do Prado mudou-se para o bairro Santa Fé (Zona Leste), onde orgulha-se de ter sido a quarta moradora e ainda reside. "Foi bom, porque lá tinha água e luz. Hoje, é um bairro urbanizado", conta. Desse tempo, a pior lembrança é a fome, uma necessidade que, de certa forma, acabou levando Do Prado para o trabalho na reciclagem.
Foi por desespero que ela começou a pedir comida pelas ruas da cidade. "Eu fazia bicos, mas o dinheiro não dava para comprar toda a comida necessária. Meu marido gastava tudo em bebida. Comecei a procurar o que comer até mesmo no lixo", revela, acrescentando que "as padarias e açougues são sempre abençoados pelos catadores, porque não têm medo de doar o que não vão vender".
Quando ofereceram uma oportunidade para garimpar materiais recicláveis no antigo Lixão, ela não hesitou. "Foi quando me separei de vez, porque meu marido achou que era vergonhoso", conta. Do Prado, que até então dormia com fome, aprendeu no Lixão a "comer bem" graças aos pacotes ainda fechados de alimentos que encontrava. Foi no Lixão, também, que aprendeu a substituir a autopiedade pela solidariedade. "Conheci o sofrimento dos outros e aprendi a repartir", revela a catadora, que não teve dúvidas quando se deparou com os dois primeiros filhos adotivos passando necessidades no antigo aterro e os levou para casa. Foi com essa motivação, também, que acolheu as outras crianças.
O sustento que
vem do lixo
Com a implantação dos primeiros programas de reciclagem em Londrina, Do Prado deixou o Lixão – não sem muita preocupação – e passou a trabalhar nos grupos que deram origem às atuais cooperativas. Hoje, atua nas mesas de separação de resíduos e, dos sacos abertos sobre a bancada, continua tirando as roupas que usa, as louças para a cozinha e os enfeites para a casa. "Olha aqui essa galinha, não é bonita?", pergunta, após mostrar à repórter o objeto de decoração tirado de um saco. Por saber o valor do lixo reciclável, ela chorou ao contar sobre o incêndio que consumiu o barracão onde trabalhavam poucas semanas atrás. "Era pouca coisa, mas era nosso", lamenta.
Do Prado quase não consome. Os cerca de R$ 500 que ganha mensalmente são utilizados para comprar a cesta básica e pagar as despesas com a casa, onde mora com quatro filhos e dois netos. Curiosamente, ganha a vida graças ao consumo de outras famílias que, sem saber, ao depositarem resíduos nos sacos de reciclagem, estão ajudando a catadora a exercitar a solidariedade.
Ela foi uma das primeiras voluntárias do projeto Galera de Deus. Por muito tempo, cozinhou na própria casa a sopa que era distribuída aos moradores do Morro do Carrapato (Zona Leste). Atualmente, sua maior preocupação são as famílias indígenas que moram nas proximidades do Santa Fé. "Estou sempre de olho nas crianças, pergunto se comeram, chamo na minha casa e ofereço alimentos."
Sonhos, ela viu alguns serem realizados. Aprendeu a escrever com os próprios filhos e assiste com orgulho a filha Sônia cursar a faculdade de pedagogia. Graças ao recolhimento do INSS pela cooperativa, pensa em aposentadoria. Queria muito se mudar para o Jardim Interlagos, onde contou com a solidariedade dos moradores nos tempos difíceis. E, aos domingos, sonha preparar com mais frequência o prato preferido: maionese e macarronada.
folha de londrinaMaria do Prado, de 50 anos, é uma trabalhadora da reciclagem. Ou "catadora", como ela mesma prefere ser definida. Mãe de sete filhos biológicos e de outros sete adotivos, ela tira do material que as outras famílias jogam fora o sustento da própria família. Guerreira, superou o abandono, o racismo, o marido machista e o analfabetismo para se tornar uma referência no trabalho de dar a correta destinação aos materiais recicláveis que as pessoas não querem mais. Por essa trajetória, é uma das indicadas do Paraná ao Premio Betinho – Atitude Cidadã, que visa valorizar e dar visibilidade a iniciativas sociais e reconhecer o trabalho de pessoas que, em seu dia a dia, se dedicam à promoção da cidadania. De Londrina, também foram indicados Zaqueo Vieira, presidente da Cooper-Região, e Nilsa de Brito, à frente da Cooper-Oeste.
Abandono e
solidariedade
A catadora Maria do Prado nasceu em Bela Vista do Paraíso e foi abandonada ainda no hospital. Criada por pais adotivos, sempre sentiu "um buraco no peito" por não saber quem era a mãe biológica, que tentou procurar quando ainda morava na cidade natal, mas nunca conseguiu encontrar. Na tentativa de preencher este vazio, ela encheu o coração de solidariedade. Ainda muito jovem, aos 18 anos, se casou com o homem que viria a ser o pai dos sete filhos biológicos. Lembra com detalhes do nascimento de cada um: Dagmar, de 33, Lucimara, de 27, Sônia, de 26, Silvana, de 24, Erivelton, de 22, Erielton, de 18 e Silmara, de 17. Com detalhes, também, recorda as circunstâncias da "adoção" de Bruna, Cláudio, Fábio, Rosângela, Jaqueline, Zezinho e Angelita, que durante boa parte da vida foram criados e sustentados pela mãe adotiva. "Nunca fiz distinção entre os filhos. Trouxe as crianças para minha casa porque sei o quanto dói passar fome. Comigo, eles teriam pelo menos alguma coisa para comer", conta.
As duas filhas mais velhas vieram ao mundo em Londrina, quando Do Prado "ainda não sabia cuidar da própria vida e deixava tudo por conta do marido", um alcoólatra que muitas vezes gastava o dinheiro que ela ganhava em bebidas. Quando nasceu Sônia, o casal tinha ido tentar a vida em São Paulo. "Antes, eu era uma ‘Amélia’. Foi em São Paulo que aprendi a viver", garante ela, que na capital paulista assumiu a responsabilidade de administrar o próprio – e escasso – dinheiro, além de tomar decisões sobre as filhas. "Foi uma vizinha minha que me aconselhou a nunca deixar meus filhos fora da escola, porque um dia eles iriam me ajudar", diz.
Insatisfeita com os maus-tratos sofridos em casa, ela praticamente "fugiu" de São Paulo e voltou a morar com a mãe adotiva em Londrina. O marido logo veio atrás e ela admite que caiu nas promessas de mudança, retomando o casamento na primeira "casa própria": um barraco na invasão conhecida como Piocó (Zona Leste). "Para mim era o paraíso, pois lá eu sabia que meus filhos tinham onde por a cabeça para dormir", revela.
Lembranças
da fome
Antes do nascimento dos filhos mais novos, há 22 anos Do Prado mudou-se para o bairro Santa Fé (Zona Leste), onde orgulha-se de ter sido a quarta moradora e ainda reside. "Foi bom, porque lá tinha água e luz. Hoje, é um bairro urbanizado", conta. Desse tempo, a pior lembrança é a fome, uma necessidade que, de certa forma, acabou levando Do Prado para o trabalho na reciclagem.
Foi por desespero que ela começou a pedir comida pelas ruas da cidade. "Eu fazia bicos, mas o dinheiro não dava para comprar toda a comida necessária. Meu marido gastava tudo em bebida. Comecei a procurar o que comer até mesmo no lixo", revela, acrescentando que "as padarias e açougues são sempre abençoados pelos catadores, porque não têm medo de doar o que não vão vender".
Quando ofereceram uma oportunidade para garimpar materiais recicláveis no antigo Lixão, ela não hesitou. "Foi quando me separei de vez, porque meu marido achou que era vergonhoso", conta. Do Prado, que até então dormia com fome, aprendeu no Lixão a "comer bem" graças aos pacotes ainda fechados de alimentos que encontrava. Foi no Lixão, também, que aprendeu a substituir a autopiedade pela solidariedade. "Conheci o sofrimento dos outros e aprendi a repartir", revela a catadora, que não teve dúvidas quando se deparou com os dois primeiros filhos adotivos passando necessidades no antigo aterro e os levou para casa. Foi com essa motivação, também, que acolheu as outras crianças.
O sustento que
vem do lixo
Com a implantação dos primeiros programas de reciclagem em Londrina, Do Prado deixou o Lixão – não sem muita preocupação – e passou a trabalhar nos grupos que deram origem às atuais cooperativas. Hoje, atua nas mesas de separação de resíduos e, dos sacos abertos sobre a bancada, continua tirando as roupas que usa, as louças para a cozinha e os enfeites para a casa. "Olha aqui essa galinha, não é bonita?", pergunta, após mostrar à repórter o objeto de decoração tirado de um saco. Por saber o valor do lixo reciclável, ela chorou ao contar sobre o incêndio que consumiu o barracão onde trabalhavam poucas semanas atrás. "Era pouca coisa, mas era nosso", lamenta.
Do Prado quase não consome. Os cerca de R$ 500 que ganha mensalmente são utilizados para comprar a cesta básica e pagar as despesas com a casa, onde mora com quatro filhos e dois netos. Curiosamente, ganha a vida graças ao consumo de outras famílias que, sem saber, ao depositarem resíduos nos sacos de reciclagem, estão ajudando a catadora a exercitar a solidariedade.
Ela foi uma das primeiras voluntárias do projeto Galera de Deus. Por muito tempo, cozinhou na própria casa a sopa que era distribuída aos moradores do Morro do Carrapato (Zona Leste). Atualmente, sua maior preocupação são as famílias indígenas que moram nas proximidades do Santa Fé. "Estou sempre de olho nas crianças, pergunto se comeram, chamo na minha casa e ofereço alimentos."
Sonhos, ela viu alguns serem realizados. Aprendeu a escrever com os próprios filhos e assiste com orgulho a filha Sônia cursar a faculdade de pedagogia. Graças ao recolhimento do INSS pela cooperativa, pensa em aposentadoria. Queria muito se mudar para o Jardim Interlagos, onde contou com a solidariedade dos moradores nos tempos difíceis. E, aos domingos, sonha preparar com mais frequência o prato preferido: maionese e macarronada.

