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A vida recomeça aos 60

Expectativa de vida no Brasil aumentou, mas preparar a sociedade para respeitar o idoso é desafio

Anderson Coelho
Aos 66 anos, Milton Xavier está no último ano de Letras na UEL e planeja fazer pós-graduação em 2015
Londrina – "A vida só vale a pena se for vivida com intensidade", garante o universitário Milton Xavier. Aos 66 anos, seo Milton é aluno do último ano do curso de Letras da Universidade Estadual de Londrina. O aposentado decidiu fazer vestibular aos 62 e confessa que nem estudou para a prova. "Alguns jovens não passaram. Na hora, o que me veio a cabeça é que eu tinha tirado o lugar de alguém. Foi estranho, mas fiquei feliz pelo meu resultado", confessa.

Seo Milton faz parte da geração de idosos que encara a terceira idade como um recomeço. Eles estudam, trabalham, viajam, criam oportunidades e utilizam a experiência ao longo dos anos para embarcar em novas aventuras. No entanto, a geração que cresce a cada ano se vê obrigada a encarar obstáculos como a falta de planejamento na área da saúde e falhas na infraestrutura nos grandes centros urbanos. O desrespeito e o preconceito também fazem parte dessa lista.

Nos últimos 33 anos, a expectativa de vida no Brasil saltou de 62,7 anos para 73,9 anos. O aumento registrado entre 1980 e 2013 foi constatado no Relatório de Desenvolvimento Humano 2014, elaborado por meio Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Porém a doutora em Serviço Social, Débora Braga Zagabria, lembra que o crescimento dos indicadores não resultou em um planejamento a longo prazo para recepcionar a nova terceira idade.

"Os países desenvolvidos já se prepararam há muito mais tempo para receber essa população idosa. O Brasil, por ser considerado um país de jovens, está atrasado nesse preparo. O fato é que o envelhecimento humano é uma realidade e os países em desenvolvimento precisam se organizar para que todos possam conviver em harmonia", destaca.

A pesquisadora na área de envelhecimento humano e de formação de cuidadores aponta que o novo público tem conquistado espaço com novas exigências no mercado. "Surgiram serviços particulares voltados para as pessoas acima dos 60 anos. Hoje você percebe que já existe venda de refeições menores com serviço de entrega nas casas, por exemplo; de pacotes de viagens com cursos de inglês no exterior específico para idosos e muitos outros serviços. Aqueles que envelheceram com saúde estão aproveitando para fazer tudo aquilo que não puderam fazer anteriormente por conta do trabalho e da família", afirma Débora.

A aceitação no mercado de trabalho também tem aumentado gradativamente, segundo ela. No entanto, preparar a sociedade para respeitar e lidar com o idoso ainda é o principal desafio. "A gente precisa de programas voltados para essa população e para o aprimoramento dos cuidadores. A gente precisa, acima de tudo, ter consciência e respeito com essa população que está envelhecendo", ressalta a pesquisadora.

PLANOS
Mesmo com dificuldades para andar, seo Milton enfrenta as calçadas esburacadas na cidade para ir todos os dias ao campus da UEL. Às vezes, uma bengala ajuda durante o percurso. O aposentado conta que o silêncio se torna aliado na tentativa de evitar o preconceito. "No primeiro dia de aula, eu cheguei mais quieto e com muita humildade para não correr o risco de abrir a boca e falar alguma coisa ultrapassada", admite.

Ele afirma que a recepção dos colegas superou as expectativas. A alegria de estar na etapa final do curso já o leva a fazer novos planos para o futuro. "Não tem limite de idade para o estudo. Quanto mais tarde for, mais aproveitado vai ser o curso. Pode não ganhar tanto dinheiro, mas vai valer muito mais que dinheiro", garante, com a intenção de ingressar na pós-graduação de Psicopedagogia ou de Teologia no ano que vem.
Viviani Costa
Reportagem Local-FOLHA DE LONDRINA
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