JATAÍZINHO - Cidade construída do barro



Fotos: Anderson Coelho
Fotos: Anderson Coelho
Atualmente, seis olarias continuam em atividade no município


Museu Histórico mantém em seu acervo exemplares de telhas e moldes de indústrias que pertenciam a famílias tradicionais


Jataizinho - Uma solitária chaminé, às margens da BR-369, remonta a uma época em que a produção de tijolos e telhas impulsionava a economia de Jataizinho (Região Metropolitana de Londrina). Um tempo de pujança e que corre o risco de ficar só na lembrança dos mais antigos. Assim como a chaminé da Cerâmica São José, fechada há mais de 25 anos, outras permanecem em pé, mas não soltam mais fumaça. Estão espalhadas nas duas margens do Rio Tibagi, que por muitas décadas forneceu barro para moldar a produção local.
A cidade de 159,1 km2 chegou a ter mais de 40 olarias. Hoje, são seis em atividade. Uma das mais recentes a fechar foi uma localizada nas margens da BR-369, em frente ao Posto da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Ela encerrou as atividades há dois anos e está em processo de desmonte.
"A família tinha duas cerâmicas. Quando o seu Guido (Contato) parou de mexer com isso, deixou uma cerâmica para cada um dos dois filhos", contou Maurício Correia Godinho, gerente da Cerâmica Planalto, que pertence a um dos filhos e é uma das seis indústrias ainda em atividade na cidade.
Jataizinho sempre teve uma relação íntima com o barro. A primeira olaria foi aberta por Frei Timóteo Castenuovo, responsável pela instalação do Aldeamento São João de Alcântara, em meados de 1860 ou 70 (não se sabe a data certa). "Tinha-se o costume de construir perto do rio por causa do barro. Era mais fácil de tirar a matéria-prima", explicou Alisson Meyer de Lima, historiador do Museu Histórico de Jataizinho.
A qualidade da argila do Rio Tibagi impulsionou a atividade. Já a proibição de extração, em meados da década de 1990, foi um dos responsáveis pelo declínio. "Agora, a argila vem de Sapopema (Norte)."
A atividade era tão importante para a economia da cidade, que está estampado no brasão do município. "Temos no brasão ramos de algodão e um muro de tijolo." A Cia Maxwell, que pertencia à Cia Norte do Paraná, foi responsável pelo pontapé da atividade lá no começo da década de 1930.
Alguns anos depois, a Olaria Maxwell foi arrendada e, logo em seguida, comprada pelo paulista Dionísio Striquer, que mudou o nome para Cerâmica Bela Vista. "Era a maior produtora brasileira de telha e manilha. O surgimento do PVC foi um dos motivos da falência da cerâmica", contou Lima.
O Museu Histórico mantém em seu acervo alguns exemplares de telhas e moldes da antiga Cia Maxwell e da Bela Vista, assim como de outras famílias tradicionais. "Há dificuldade para ampliar o acervo porque se perdeu muita coisa. Poucas pessoas guardaram objetos daquela época", lamentou o historiador.

BRINCADEIRA
As cerâmicas e as fazendas de algodão eram as principais geradoras de emprego da região. "É fácil encontrar alguém que trabalhou ou que tem parente que trabalhou nas olarias", disse Lima.
A zeladora Maria José de Lima, de 45 anos, a Zezé, é uma delas. Os avós vieram de Pernambuco para trabalhar em Jataizinho. O avô chegou a ser gerente da Bela Vista. A mãe trabalhou na cerâmica e o pai em uma fazenda de algodão. Zezé cresceu em meio aos tijolos. Ela e as crianças da vizinhança chegavam da escola e corriam para os galpões da empresa para limpar o espaço onde os tijolos ficariam armazenados para secar.
Zezé ficou na cerâmica até 14 ou 15 anos de idade, quando arrumou emprego de babá e tomou outro rumo, como muitos filhos de funcionários de olarias e cerâmicas que preferiram estudar e trabalhar em outras áreas. A mão de obra começou a ficar escassa.
Hoje, aos invés de empilhar tijolo, ela cuida do acervo de telhas e tijolos do museu. Mostra com a propriedade de quem entende do assunto as formas onde o tijolo e as telas eram moldadas e recorda com saudade dos tempos em que o barro fazia parte, não só das brincadeiras, mas era matéria-prima da economia local.
Aline Machado Parodi
Reportagem Local/FOLHA DE LONDRINA

Modernização garante sobrevida


Jataizinho - O processo de produção das cerâmicas foi se modernizando e hoje em nada lembra as antigas olarias das primeiras décadas do século passado. O sistema de queima é automatizado, inclusive de abastecimento dos fornos. A lenha também ficou de lado e deu espaço para o cavaco ou o cepilho (aparas de madeira). O trabalho de carregar e descarregar as telhas e tijolos é feito com auxílio de guinchos.
"A pessoa só precisa administrar o abastecimento de cavaco e verificar a temperatura. Os fornos também são móveis. Eu monto em determinado local e ele anda até as pilhas de tijolos", explicou Maurício Correia Godinho, gerente da Cerâmica Planalto, uma das mais tradicionais de Jataizinho. Está há quase 50 anos em operação e há oito anos iniciou o processo de modernização para garantir a sobrevivência do negócio. 
A automação representou um aumento da produtividade para a Planalto. A linha de produção conta com três fornos móveis que produzem em torno de 50 a 60 mil peças por dia. "Também ganhamos em qualidade e uniformidade", afirmou. 
Godinho contou que a cerâmica passou por crises, mas conseguiu superar porque soube se adequar às necessidades do mercado. (A.M.P.)
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