Digitalização do campo



Autônomo, trator opera com precisão de até um centímetro


Passado o processo de mecanização, é chegada a era da digitalização do campo. A grande variedade de dados sobre o agronegócio, disponível de maneira fragmentada e desorganizada, gera oportunidade de negócios para o setor de tecnologia. Agregar estas informações e extrair delas importantes insights para a operação e para a gestão da agropecuária é o grande foco de empresas que vão das agritechs (startups focadas no setor agro) a gigantes como a IBM.

Uma das atrações da abertura oficial da ExpoLondrina 2017, na última sexta-feira (dia 31), foi um trator autônomo, ou seja, que opera sem a necessidade de um tratorista. O trator foi desenvolvido pela empresa especializada em automação de máquinas pesadas Agres, de Curitiba, com a tecnologia de computação cognitiva Watson, da IBM.

Ele se comunica com uma central via radiofrequência e realiza o trajeto programado por ela com precisão de até um centímetro. Na demonstração realizada pela Agres na abertura da ExpoLondrina, o trator autônomo realizou, sozinho, um trajeto marcado por estacas no gramado da pista central do Ney Braga. "Basicamente, na agricultura, uma máquina tem que seguir caminhos predeterminados de ida e volta para cobrir uma área. Quanto maior a precisão desse caminho para plantar uma semente, aplicar um defensivo, maior a economia gerada pela não necessidade de fazer uso excessivo do insumo", observa Jorge Leal, presidente fundador da Agres.

É possível programar a máquina para realizar um trajeto predeterminado de forma autônoma de duas maneiras diferentes: carregando no computador de bordo do trator um mapa da área com informações sobre o circuito a ser percorrido, ou dirigindo-o. O veículo guardará o trajeto na memória e poderá realizá-lo de forma autônoma.

Por radiofrequência, o trator também fornece à central informações de navegação, velocidade, aceleração, inclinação do terreno, tempo de corrida, etc. Esses dados são recebidos em tempo real pela central, equipada com tecnologia Watson, que gera dashboards, painéis de controle com gráficos que mostram o funcionamento da máquina. No futuro, o que se espera do Watson é que ele possa aplicar suas capacidades cognitivas aos dados que recebe a fim de proporcionar economia ao produtor. "A conexão com o Watson está sendo feita em caráter experimental para que ele possa analisar dados e aprender o comportamento da máquina para depois sugerir métodos novos de como fazer a mesma operação de forma a economizar", afirma Leal. Outro objetivo com a tecnologia é permitir que o trator aprenda a reagir a situações de risco, por exemplo, parando o motor.

Através de dados operacionais e de computação cognitiva, um trator pode gerar economia e aumentar a produtividade através da agricultura de precisão. O veículo, segundo Ulisses Mello, diretor do Laboratório de Pesquisa da IBM Brasil, é apenas uma das fontes que geram dados continuamente. "Hoje está havendo o que chamamos de digitalização do campo", pontua. "O trator está gerando dados continuamente, há estações meteorológicas gerando dados continuamente. Esse é o poder da internet das coisas. E todos esses dados, quando agregados, podem prover um tremendo valor de gestão, de tomada de decisão."

Plataforma agrega informações
Na ExpoLondrina, a IBM anunciou o lançamento de uma plataforma aberta que agrega dados, tecnologias e soluções para o agronegócio, batizada de AgriTech. O lançamento já tem parceria com a AgroTool, dona daquele que é considerado o maior banco de dados territorial do agronegócio tropical, mas a ideia é integrar à plataforma dados e soluções de outras empresas do setor. Em conjunto com soluções do IBM como computação cognitiva, internet das coisas, blockchain, dados meteorológicos da Weather Company (da IBM) e outros, o objetivo é prover uma ferramenta tecnológica voltada à tomada de decisões no agronegócio.

‘Dados valem ouro’
"A existência de dados de sensoreamento remoto, satélites de baixa órbita, drones, etc, cada vez mais aumenta os dados disponíveis. É muto importante lembrar que os dados que o produtor tem, de condutividade do solo, de propriedade que eles coletam no dia a dia não têm valor algum a não ser que eles circulem", comenta Fernando Martins, CEO da AgroTools.
Os dados no agronegócio têm valor quando extrapolam as porteiras. Prova disso é que, nos Estados Unidos, há provedores que até pagam produtores para usar seus dados. Isso é o que afirma Herlon Oliveira, diretor da AgrusData, agritech especializada na implantação de sistemas de Internet das Coisas (Internet of Things ou IoT) para o agronegócio. "Os dados valem ouro", diz ele, que também é presidente da Associação Brasileira de Internet das Coisas (Abinc).

Com alguns projetos pilotos em andamento em propriedades do Mato Grosso, a AgrusData instala sensores alimentados por energia solar nos silos e nas plantações - que coletam dados a cada cinco minutos. A esses e outros dados, como os de telemetria das máquinas, são aplicados algoritmos a fim de obter informações mais precisas para o agricultor melhorar a sua lucratividade. Mas para Oliveira, guardar dados sobre a propriedade não trata apenas de gerar valor financeiro, mas também de transmiti-los às futuras gerações. "Independentemente de estar recebendo dinheiro por eles (os dados) hoje, até para as futuras gerações você tem a obrigação de guardar esses dados para que seus descendentes os usem lá na frente."

A tecnologia da AgrusData usa o aprendizado de máquina (machine learning) para, com base em informações de ações já executadas, por exemplo, melhorar o procedimento de irrigação. Mais para frente, a ideia é usar a inteligência artificial para fazer da tecnologia uma espécie de um assistente para a tomada de decisões. "O futuro é a inteligencia artificial. Além do sistema aprender e melhorar a performance de lucratividade de uso de solo, de recursos, ele vai começar a questionar inclusive se aquela cultura é a melhor cultura."(M.F.C.)

De acordo com o diretor da IBM Brasil, Ulisses Mello, este é o primeiro passo na estratégia de negócios da companhia no setor de agro. "Estamos lançando (a plataforma na ExpoLondrina) porque essa é uma das maiores exposições do Brasil em agronegócio. É um momento icônico para a gente, porque decidimos que vamos investir na área de agricultura digital no País."

"Acreditamos que esse é o momento certo porque, com a digitalização do campo, vai haver uma explosão de dados. Isso é importante para o Brasil em termos de sustentabilidade, porque podemos aumentar produção sem expandir território de terra plantada", continua Mello, que compara a plataforma tecnológica a um "Bloomberg do agronegócio". "No meio financeiro, quando você quer saber de dados, vai para Bloomberg, porque eles coletaram, curaram e disponibilizaram os dados de forma a qualquer um ter acesso e tomar decisões. A plataforma (AgriTech) é aberta, disponível para todo mundo e eu acredito que vai ajudar tremendamente nosso setor a ganhar mais produtividade."

Ex-presidente da Intel no Brasil que hoje se dedica ao agronegócio digital, Fernando Martins, CEO da AgroTools, afirma que as principais demandas dos clientes em busca de insights nos dados do agronegócio estão relacionados ao compliance socioambiental e à eficiência da cadeia de suprimentos. "Tenho dois tipos de demandas, de compliance socioambiental - do ponto de vista de trabalho escravo, desmatamento... -, e de eficiência e supply chain - onde compro, onde vendo, que insumo compro e que crédito contrato."(M.F.C.)
Mie Francine Chiba
Reportagem Local/FOLHA DE LONDRINA
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