Falta de mantimentos deixa 1500 alunos sem refeição



Prateleiras vazias na despensa do Colégio Luiz Setti confirmam a dificuldade da instituição em fornecer as refeições aos alunos


Cerca de 1.500 alunos do Colégio Estadual Rui Barbosa, em Jacarezinho, estão desde esta terça-feira (9) sem refeição por conta do atraso do governo estadual no fornecimento da merenda e acordo com produtores do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) da agricultura familiar. O problema foi informado aos estudantes na segunda-feira (8) por meio de um comunicado emitido pela direção do estabelecimento de ensino e, segundo apurou a reportagem, também afeta outros colégios da cidade, como o Luiz Setti, por exemplo, que ainda possui alguns mantimentos para oferecer de forma improvisada duas ou três refeições aos alunos até o fim desta semana.

Na tarde de ontem, a FOLHA tentou ouvir o diretor do Colégio Rui Barbosa, Cristiano José da Silva, mas ele não foi localizado no estabelecimento de ensino e seu celular estava desligado.

O diretor do Colégio Luiz Setti, Ronaldo Terra, disse que o problema é antigo e chegou ao extremo. "Cada colégio recebe quatro lotes de merenda por ano do governo estadual, e a distribuição de frutas, legumes e verduras é feita por produtores do município cadastrados no programa da agricultura familiar. No entanto, o problema com a falta de merenda já ocorre há dois anos", revela. "Recebemos parte dos alimentos e março, e nada mais. Os agricultores também interromperam o fornecimento dos produtos por problemas no acordo firmado com Estado", explica Terra.

Na despensa da cantina do Colégio Luiz Setti, o que ainda resta são apenas alguns pacotes de açúcar e arroz, e no congelador um pacote com aproximadamente 14 quilos de salsicha. "É de cortar o coração saber que não há mais o que oferecer a essas crianças, pois a maioria delas mora na periferia e tem no alimento fornecido pela a escola a refeição mais importante do dia. Muitas vezes bancamos do próprio bolso os alimentos para complementar a merenda, mas agora acabou tudo. Conseguimos comprar um pouco de farinha para preparar um fubá que será servido com a salsicha nesta quarta-feira, e até o fim da semana o cardápio será arroz doce. Aí é torcer para chegar os alimentos do Estado", diz o diretor.

OUTRO LADO
Em nota, o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Educacional (Fundepar), órgão da Secretaria de Estado da Educação (Seed) responsável pela alimentação escolar informa que consta no sistema merenda escolar, consultado segunda-feira (8), que o Colégio Estadual Rui Barbosa possui 1,8 tonelada de alimentos, sendo 40 quilos de carne bovina, e que o Colégio Estadual Luiz Setti tem em estoque 1,1 tonelada de alimentos, com 16 quilos de carne bovina.

De acordo com o documento, a inserção e atualização de tais dados constantes no sistema é de inteira responsabilidade das escolas, mediante a entrada em estoque e o consumo de gêneros alimentícios. A nota diz ainda que as informações são utilizadas para o planejamento das entregas de cada remessa, possibilitando a priorização para aquelas que possuem estoque reduzido.

Nos dois casos em questão, a Fundepar informa que não houve priorização devido às informações fornecidas via sistema pelas escolas e que elas receberiam a nova remessa de alimentos durante o mês de maio conforme o cronograma de distribuição, porém, para prevenir a falta de merenda os estabelecimentos de ensino irão receber um remanejamento de alimentos em caráter emergencial. Entretanto, o diretor do Colégio Luiz Setti, Ronaldo Terra, disse que o consumo da merenda escolar é informado frequentemente à Fundepar conforme orientação do próprio instituto, e que o problema foi comunicado ao Núcleo Regional de Educação. Procurada pela reportagem, a chefe do órgão em Jacarezinho, Magda Cristina Souza Nogueira, não quis comentar o assunto.

Ainda de acordo com a Fundepar, a entrega de carnes programada para março foi interrompida pelo Estado por precaução em consequência da Operação Carne Fraca. Em abril, porém, a situação começou a ser normalizada e as 2,1 mil escolas da rede estadual de ensino receberam 75 toneladas de carne bovina, e até o final de maio as escolas estaduais receberão uma nova entrega contendo peito de frango. O novo processo de aquisição de itens da agricultura familiar encontra-se em fase final, e estará regularizado nas próximas semanas para que ocorra a retomada na distribuição.

ALIMENTOS
A lista de alimentos entregues anualmente às escolas contempla mais de 150 itens, divididos em três grupos: produtos não perecíveis, entregues entre quatro e cinco vezes por ano; alimentos congelados (carnes e peixes), entregues a cada 15 dias; alimentos da agricultura familiar, que são encaminhados semanalmente às escolas, por serem perecíveis; além de ovos, cuja entrega é contínua ao longo do ano letivo.
Luiz Guilherme Bannwart
Especial para a FOLHA DE LONDRINA
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