Londrina tem o primeiro caso de doença transmitida pelo carrapato



"É importante que a população tenha consciência de que a doença existe e tome os cuidados necessários", alerta o infectologista André Bortoliero


O carrapato estrela (Amblyomma cajennense), o mesmo que transmite a febre maculosa, também é vetor da bactéria Borrelia burgdorferi (B.burgdorferi), que causa a Síndrome de Baggio-Yoshinari (SBY), uma doença infecciosa que foi registrada pela primeira vez na região de Londrina. Popularmente, ela é chamada de Doença de Lyme brasileira.

A vítima é uma moradora de Cambé (Região Metropolitana de Londrina) que deu entrada no início do mês no Hospital do Coração, com um quadro grave de saúde. Até a transferência, ela vinha recebendo um tratamento para meningoencefalite.

Profissionais da instituição trabalham com outros dois casos suspeitos em pacientes internados. "São pessoas que têm contato com os animais e carrapatos. Uma delas é veterinária e outro tinha um cachorro em tratamento de outra doença transmitida por carrapato. Vamos aguardar os resultados dos exames", aponta o neurologista Leonardo Valente de Camargo.

O especialista prestou atendimento à paciente de Cambé e conta que enquanto os exames não confirmavam o diagnóstico de SBY, foram ministrados medicamentos de amplo espectro para tratar diversos vírus, bactérias e fungos. "Depois de duas semanas, veio o diagnóstico da doença. A paciente estava evoluindo para um quadro grave, chegando à insuficiência respiratória", comenta.

De acordo como médico, a mulher deixou o hospital com algumas pequenas sequelas na parte motora, que deverão ter uma melhora completa com o trabalho de reabilitação. Ela já está em casa e passa bem.

O contato da equipe médica com o caso despertou a necessidade de alertar toda a população em relação à doença. Segundo Camargo, ela é subdiagnosticada no Brasil por ter sintomas inespecíficos. Não há dados oficiais sobre o número de ocorrências. "Como a doença tem um espectro muito amplo, há aqueles que podem não ter sintomas, enquanto outros podem ter a doença instalada gravemente, provocando alterações neurológicas e cardíacas. Por isso, o primeiro passo é conhecer a enfermidade", diz.

Os sintomas iniciais podem variar desde a presença na pele de uma mancha vermelha que se assemelha a um alvo, com o miolo mais claro e a borda mais escura. Pode haver febre, dores de cabeça, no corpo e articulares. "Os sinais são parecidos com os de outras síndromes infecciosas, como a gripe, mas sem as manifestações respiratórias", repercute.

Em relação ao diagnóstico, é fundamental considerar o histórico do paciente quanto ao contato com animais, carrapatos e regiões de mata, além de exames sorológicos e de imagem.

A primeira descrição da doença no País foi no final da década de 80. Alguns focos já foram detectados em outros períodos, em São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Norte.



TRATAMENTO
O infectologista André Bortoliero, que também tratou a paciente de Cambé, explica que o antibiótico utilizado para as meningites em geral também é efetivo para a bactéria B. Burgdorferi, no tratamento inicial. "É importante que a população tenha consciência de que a doença existe e tome os cuidados necessários, pois hoje em dia temos uma forte convivência com animais. Os médicos também devem ficar atentos, pois o tratamento nesse caso deve ser mais prolongado do que em um doença bacteriana comum", ressalta.

Segundo Bortoliero, já foi descrito que pessoas com a SBY podem ter predisposição para desenvolver uma resposta autoimune, o que reforça ainda mais a importância da adequação do tratamento. "Nesse contexto, a principal complicação a longo prazo são os reumatismos", acrescenta.

DENOMINAÇÕES
Vale lembrar que a SBY tem diferentes denominações. A princípio, ela é chamada de Doença de Lyme (DL), mas há a suspeita de que a bactéria B.burgdorferi presente no País seja diferente da que se apresenta, por exemplo, na América do Norte e Europa. "Até agora, no Brasil, não foi possível isolar a bactéria", completa o neurologista.

Apesar de a síndrome mimetizar sintomas de DL, ela revela algumas particularidades que levaram então à denominação mais aceitável de Síndrome de Baggio-Yoshinari ou Borreliose Humana Brasileira, apesar de haver publicações que a descrevem como Doença de Lyme (DL) brasileira.

Atenção redobrada com o carrapato estrela
A médica veterinária e professora da Unifil (Centro Universitário Filadélfia), Cristiane Caroline Abade, explica que a bactéria B. burgdorferi pode ser transmitida por carrapatos das espécies Amblyomma e Rhipicephalus. "Eles são como reservatórios, isto é, não vão desenvolver a sintomatologia clínica da bactéria, mas podem transmitir para outros animais do meio urbano ou rural", diz.

Cavalos, capivaras, roedores em geral, pássaros, gatos e cachorros podem ser hospedeiros desses carrapatos e, por isso, ela orienta a população em relação a alguns cuidados de prevenção. "Usar repelentes e roupas compridas em regiões de mata ou durante passeios em parques; observar sempre o corpo das crianças após esse tipo de exposição; fazer o controle sanitários dos ambientes e animais", indica a veterinária.

Se a pessoa for picada pelo carrapato, deve-se retirá-lo com uma pinça e colocá-lo em uma solução de álcool. "Não se deve esmagá-lo, pois no caso de fêmeas, pode haver ovos", completa.

Na semana passada, no Pará, uma criança de dois anos morreu após ser picada no rosto por um carrapato. A Secretaria de Estado de Saúde enviou amostras de sangue para análise a fim de confirmar a causa da morte. A hipótese é de que a criança tenha sido vítima da febre maculosa, transmitida pelo carrapato estrela. (M.O.)
Micaela Orikasa
Reportagem Local/FOLHA DE LONDRINA
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