ITAMBARACÁ - Família contesta versão da PM sobre morte de vendedor



Parentes e amigos da vítima estão promovendo passeatas pedindo por justiça; a última mobilização ocorreu no sábado, no local da ação policial


Parentes e amigos do vendedor autônomo David Vinicius Carrascal, 22 anos, morto por um policial militar durante uma blitz de trânsito no centro de Itambaracá, no dia 28 de maio, contestam a versão apresentada pela corporação de que ele teria desobedecido a uma ordem de parada durante a suposta fiscalização. Para a família, Carrascal se envolveu em um acidente que acabou resultando no atropelamento do militar e foi executado com um tiro na cabeça ao tentar prestar atendimento ao policial.

De acordo com o construtor João Ricardo de Almeida, primo de Carrascal, há controvérsias entre os próprios policiais militares nas explicações sobre o fato. "Quando o corpo ainda aguardava o recolhimento pelo IML, os PMs diziam no local que o David havia atropelado o policial e o arrastado por mais de 15 metros, e que para contê-lo seu parceiro efetuou dois disparos em direção ao David. Já em entrevista a uma rádio de Bandeirantes, a versão foi outra. Um oficial disse que o PM atropelado foi socorrido imediatamente após o atropelamento por uma ambulância em consequência de graves lesões, o que não é verdade, pois as imagens mostram o policial sentado na calçada, aparentemente sem ferimentos graves, enquanto outros militares isolavam o local", diz Almeida.

Ainda de acordo com o parente, Carrascal estava com um amigo e seu irmão seguia ao lado deles em outra motocicleta, também com um passageiro. As testemunhas, segundo Almeida, apresentam uma versão completamente diferente da narrada pela Polícia Militar. "Eles contam que seguiam até um depósito para comprar bebidas, quando o policial entrou de repente na frente da motocicleta do David, que não conseguiu desviar e acabou o atingindo. O David então levantou e foi em direção ao PM para prestar socorro, mas acabou atingido por um tiro na testa", conta Almeida. "Segundo os meninos (testemunhas), não havia nada no local que indicasse uma blitz de trânsito como cones, faixas ou um número maior de policiais como normalmente existem em operações desta natureza", complementa. "Por que o PM não efetuou um disparo de contenção ao invés de atirar na cabeça do David?", questiona.

João Ricardo Almeida também chama a atenção para supostas alterações na cena do crime que podem comprometer as investigações. "A PM disse que o David estava com o capacete quando se levantou após a queda da motocicleta e correu em direção ao policial atropelado, mas fotos registradas por populares mostram ele sem o acessório. Segundo as testemunhas, quando foi baleado o David calçava os dois tênis, mas nas imagens ele aparece vestindo apenas um dos pés", observa o primo. "Diferentemente do que afirma a PM, houve mais de dois disparos e as capsulas foram recolhidas pelos próprios policias militares, tarefa que seria da Polícia Civil. E, misteriosamente, as imagens nas gravações que poderiam ajudar no esclarecimento do caso parecem ter desaparecido", acusa o construtor.

Procurado pela reportagem, o delegado responsável pelas investigações, Janderson Janini Afonso, titular da Delegacia Andirá, informou que o inquérito deve ser concluído em 15 dias. Segundo ele, a Polícia Civil continua com as oitivas de testemunhas e aguarda pelo resultado da necropsia para afirmar quantos tiros atingiram David Carrascal.

Em relação às imagens captadas por câmeras de segurança que mostram a ação policial, o delegado informou que em uma análise preliminar, apesar de o conteúdo ser de baixa qualidade, não há indícios de edição no material, que será enviado para perícia no Instituto de Criminalística (IC).

Afonso disse que Carrascal não registrava passagens pela polícia, e que as identidades dos policiais envolvidos no caso permanecerão em sigilo até a conclusão do inquérito policial para não atrapalhar as investigações.

MOBILIZAÇÃO
A morte de David Carrascal provocou grande comoção em Bandeirantes e Itambaracá. Parentes e amigos estão promovendo passeatas pedindo por Justiça. A última mobilização ocorreu no início da tarde de sábado, no local onde ocorreu a ação policial que tirou a vida do vendedor autônomo.

A família da vítima procurou apoio junto ao Movimento Nacional de Direitos Humanos. Na tarde de segunda-feira (5), o coordenador estadual da entidade, Carlos Enrique Santana, informou que o caso está sendo acompanhado por comissões do Conselho Permanente de Direitos Humanos do Paraná (Coped) e do Centro de Apoio Operacional do Ministério Público (Caop). "A morte do David está tendo muita repercussão. Há denúncia sobre uma tentativa de impedir que o Ministério Público investigue o caso, e diante das suspeitas estamos auxiliando a família passo a passo para que tudo seja esclarecido", pondera Santana.

INQUÉRITO POLICIAL MILITAR
De acordo com nota enviada por whatsapp pela tenente Karine Bitencourt da Silva, oficial do Setor de Comunicação Social do 18º Batalhão de Cornélio Procópio, "o oficial comandante do Policiamento da Unidade (CPU) compareceu ao local da ocorrência e acompanhou o trabalho das equipes de criminalística. Os fatos foram registrados e repassados ao comandante do Batalhão, tenente-coronel Luiz Roberto da Costa, que determinou a instauração de um Inquérito Policial Militar (IPM) para apuração do caso". Conforme a oficial, o procedimento foi iniciado e nele serão ouvidas as partes envolvidas.
Luiz Guilherme Bannwart
Especial para a FOLHA DE LONDRINA
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