Êxodo indígena



A área que no final da década de 1990 recebeu o Centro Cultural Caingangue, que abrigava os índios da Reserva Apucaraninha enquanto estivessem em Londrina para vender artesanato, se tornou um reduto indígena permanente na zona urbana do município. Localizado às margens da avenida Dez de Dezembro, o local é um dos sinais da migração desses povos de suas aldeias para a cidade.

Atualmente, cerca de 40 famílias vivem no espaço, que foi declarado como de preservação ambiental e está em litígio. A estrutura é precária e os barracos, feitos com restos de madeiras e lonas, estão espalhados por toda extensão que margeia o Ribeirão Cambé. Os índios se banham no rio e as roupas e louças são lavadas com a ajuda de uma caixa d'água improvisada embaixo de uma árvore. Os fogões são a lenha.

"Falta muito aqui. Não temos energia e os alimentos, quando temos, não podem ser perecíveis, porque, do contrário, estraga rápido", relata Liversa Oliverio. Natural da reserva Mangueirinha, em Guarapuava (Centro-Sul), ela veio para Londrina no início de setembro junto com o esposo. "Não tínhamos onde ficar e viemos para cá onde temos alguns primos. Meu marido busca um trabalho, mas está difícil", conta.

A renda para manter-se na cidade vem do bolsa família e da comercialização de cestos, como a grande maioria do grupo. Poucos índios possuem outras ocupações. "Existe muito preconceito com o índio. As pessoas não querem dar emprego e o período que estamos também não ajuda", acredita Oliverio. A situação acaba fazendo com que fiquem nas ruas e sinaleiros vendendo artesanato ou pedindo esmolas. Isto acontece com mais frequência na região central.

Também morando na área, que recebeu o nome de aldeia Igapó, Genoeva Caetano pensa no futuro. Com uma filha de dois anos, ela espera viver em uma estrutura melhor em pouco tempo. "Não temos nada. Por isso, penso no meu amanhã e no da minha família. Onde estamos é nosso, mas falta apoio das autoridades", aponta. Os índios que vivem no local são caingangue e quase sua totalidade pertence a aldeia Água Branca, na Reserva Apucaraninha, em Tamarana (Região Metropolitana de Londrina).

TERRAS IMPRODUTIVAS
Responsável desde 1967 por proteger e promover os direitos destes povos, a Funai (Fundação Nacional do Índio) estima que mais de 100 índios estejam na zona urbana de Londrina. "Como a maioria não nos procura, esse número pode ser bem superior", reconhece Marcos Cesar Cavalheiro, chefe da coordenação da Funai em Londrina.

Principal reduto indígena no Norte do Paraná, a Reserva Apucaraninha abriga cerca de dois mil índios. Uma doação do governo estadual, de 1955, garantiu ao grupo uma área de 6.300 hectares. Porém, a maior parte é de terra improdutiva, o que acaba transformando-se em fator para que os caingangue procurem o município. "São áreas de preservação permanente e que eles não podem mexer. Isso dificulta a subsistência", justifica. A Funai calcula que, aproximadamente, 300 hectares sejam produtivos na reserva.

Segundo ele, o trabalho da fundação fica limitado àqueles que vão em busca de apoio. "Entre direitos e deveres, os índios, pela lei, são iguais a qualquer cidadão. Por isso, não temos a obrigação pela alimentação. A Funai tem uma conotação de órgão fiscalizador de outras entidades que trabalham com os indígenas", explicou. "O que sempre sugerimos é a volta para aldeia", completou.

Município disponibiliza casa temporária na zona sul
Desde 2015, o município oferece uma casa de passagem temporária aos índios. O local fica no jardim Cafezal, na zona sul de Londrina, e é constituído de algumas casas e barracão. O espaço oferece cama, banho e área para alimentação. A administração é feita em conjunto com os indígenas. Antropóloga e professores realizam trabalho de acompanhamento com os moradores.

O espaço tem capacidade para receber até oito família e a procura costuma ser constante, principalmente durante os períodos de fim de ano e férias escolares. De acordo com a Secretaria de Assistência Social, as famílias que procuram a casa costumam ficar cerca de 20 dias instalados. Os índios são em sua maioria de Tamarana e de outros municípios da região, como São Jerônimo da Serra e Laranjeiras, que também possuem aldeias.

Responsável pela pasta, Nádia Moura afirma que a política que vem sendo adotada pelo Governo Federal e Funai é de garantir que o índio permaneça em suas terras. "O Cras (Centro de Referência de Assistência Social) Rural faz o acompanhamento dessa população diretamente da reserva para garantir direitos como o bolsa família e também ver se estão cumprindo as condições para receber. Já se eles fazem a opção de viver na cidade, precisam atender os critérios dos demais para ter uma moradia na Cohab (Companhia de Habitação)", diz.

O principal foco de trabalho no município sem sendo realizado com as crianças indígenas. Uma comissão, formada por diversas entidades ligadas à faixa etária e setores sociais, tem se encontrado bimestralmente para discutir e propor soluções para a situação. "Acompanhamos se as crianças estão matriculadas na escola e se o tempo que passam na cidade está atrapalhando. Além disso, é uma forma de coibir que fiquem vendendo mercadorias", pontua.

Desde o final do ano passado, Londrina também conta com o Centro de Referência, Memória e Cultura Indígena. Localizado na Vila Brasil, na região central, o espaço tem como finalidade oferecer para a comunidade indígena um ponto de referência para exposição de trabalhos. (P.M.)

'A cultura nunca se perde, mas sempre se transforma'
Primeiros habitantes do Brasil, os índios perderam drasticamente sua população ao longo das décadas. Estima-se que no País habitem, atualmente, 300 etnias indígenas, contra 1.200 do início da colonização. A grande maioria teve a vida tirada ou foi escravizado. No século 21, marcado pela tecnologia e novos arranjos sociais, esses povos ainda guardam muito de sua cultura inicial, principalmente na forma de organização.

Segundo o antropólogo Giovanni Cirino, professor na UEL (Universidade Estadual de Londrina), a sensação de perda da cultura fica restrita ao senso comum. "A cultura nunca se perde, mas sempre se transforma", ressalta. "Temos uma série de percepções de como eles estão encontrando novos espaços. Não ficamos mais restritos ao território indígena a partir da área física, mas falamos de outras territorialidades que eles transitam, em especial o meio urbano e a universidade, que tradicionalmente foi negado", completa.

Cirino explica que o fato de os índios se comportarem de uma forma que se distancia da ideia de isolamento, faz com que o pensamento sobre a ausência de cultura seja reforçado. "Temos um pensamento de que índio tem que ficar paralisado no tempo. Porém, ele, como qualquer outra pessoa, tem o direito de se vestir e transitar em qualquer lugar. Um exemplo é ter um celular e dirigir."

Para o professor, é necessário que o poder público direcione políticas e atitudes afirmativas para estes povos, como forma de valorização histórica. "Quando falamos em perder, quem mais perde somos nós, pois eles têm uma série de especificidades que deixamos de conhecer quando inviabilizamos essas pessoas. Atualmente, as diversas etnias estão às margens de rodovias e outros espaços, que é para onde acabaram sendo 'empurradas' ao longo do tempo", afirma Cirino, que é doutor em antropologia social. (P.M.)
Pedro Marconi
Reportagem Local/FOLHA DE LONDRINA
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