Polícia desocupa invasão na zona norte de Londrina



Operação contou com a participação de integrantes da PM, Ministério Público, assistência social, Cohab-Ld e Conselho Tutelar, entre outros órgãos públicos


Moradores de uma ocupação irregular no Jardim Santa Mônica (zona norte de Londrina) foram surpreendidos nesta terça-feira (10) pela presença de cem policiais militares que realizaram a reintegração de posse do terreno localizado no fundo de vale onde viviam 16 famílias. De acordo com o major Nelson Villa, comandante da 4ª Companhia da PM (Polícia Militar), responsável pela operação, não houve conflitos graves, mas logo no início da manhã os ânimos teriam ficado exaltados. "Alguns moradores ficaram emocionados", relatou.

Toda a área foi isolada e a imprensa não teve acesso ao local. Conforme Villa, uma força-tarefa entre polícia, Ministério Público, assistência social, Cohab-Ld (Companhia de Habitação de Londrina), Conselho Tutelar, Guarda Municipal, Centro de Zoonoses e Corpo de Bombeiros foi formada para retirar os moradores e seus pertences em segurança. Casas e barracos foram derrubados por uma retroescavadeira. "A intenção é evitar novas invasões no local", disse. A mudança dos moradores seria transportada para locais apontados por eles. "Quem não tem para onde ir ficará temporariamente em abrigos, com os pertences guardados em caminhões-baú", esclareceu.

Villa adiantou que a mesma estrutura será usada para reintegração de outras ocupações irregulares, inclusive no empreendimento inacabado do programa Minha Casa, Minha Vida, conhecido como Flores do Campo (zona norte). Neste caso, porém, por se tratar de terreno da Caixa Econômica Federal, a ação será comandada pela Polícia Federal.

João Luiz Martins Esteves, procurador-geral do município, informou que o processo de reintegração cumprido nesta terça-feira é de 2015, mas foi adiado ou suspenso várias vezes. "Agora a administração municipal decidiu efetivamente cumprir a ordem judicial, pois se trata de área de preservação ambiental", disse.

Esteves garantiu que os moradores foram avisados com antecedência e estavam cientes de que teriam prazo para saírem. "Depois que venceu o prazo, a reintegração poderia ocorrer a qualquer momento. Tudo está sendo feito conforme a lei", reforçou. O local, segundo ele, será limpo e em seguida recuperado, inclusive com plantio de árvores. "As pessoas estão sendo encaminhadas pela assistência social, com orientação de se cadastrarem na Cohab."

Esteves adiantou que outras reintegrações serão realizadas. Segundo ele, há 40 processos de reintegração ajuizados e um terço deles é referente a ocupações irregulares para moradia. "Orientamos que as pessoas não saiam das casas onde moram para invadir novos terrenos, pois serão desocupados", informou.

VIDA CIGANA
O fundo de vale do Santa Mônica foi ocupado pela primeira vez em 1989 e, desde então, foram feitas muitas tentativas de reintegração. Uma dona de casa de 26 anos que não quis se identificar contou que mudou para a invasão com a família quando tinha cinco anos e morou no local até 2011, quando se mudou para o Vista Bela com o marido e o filho.

O pai dela, que tem problemas de saúde, continuou no local. "Agora vou ter que levá-lo para minha casa. Ele era jardineiro, mas caiu de uma árvore e não consegue mais trabalhar. Vive com a ajuda dos filhos", contou.

Muito nervoso por ver a própria casa prestes a ser destruída, um rapaz que também não se identificou disse que não tem expectativa de conseguir nova casa. "Não vou para abrigo nenhum, não quero ficar separado da minha família", disse ele, que já estava à procura de outra invasão para se estabelecer. "Minha vida é assim, mudando de favela em favela."

Aos 18 anos e grávida de nove meses do segundo filho, outra moça contou que ela e o marido retiraram a mudança dias antes pois sabiam que a reintegração ocorreria. "Agora estou morando com minha mãe até arrumar outro lugar. A gente vive igual cigano, lamentou ela, que afirmou estar muito triste por não ter segurança para esperar o nascimento do filho. "Meu maior sonho é ter uma casa própria para minha família", disse.

A cabeleireira Cristiane da Silva Geraldo, na ocupação há 25 anos, estava preocupada em conseguir um lugar para levar os quatro filhos de 5,10,15 e 18 anos. "A gente sai daqui sem ter escola para eles, até conseguir transferência eles ficam sem aula. Cadê o direito à educação e à moradia?", questionou.

Ela liderou um grupo de moradores que se reuniu com o prefeito Marcelo Belinati para pedir mais prazo para se mudarem. "Me preocupo com a comunidade, aqui tem crianças, idosos e pessoas acamadas. Muita gente não tem para onde ir."

DEFICIT 
Reportagem publicada pela FOLHA no dia 30 de setembro aponta que cerca de 3.600 famílias vivem em ocupações irregulares em Londrina. De acordo com levantamento da Cohab-Ld, há 43 áreas ocupadas na cidade.

Apesar de a zona leste liderar em número de ocupações, com 18 ocorrências, a zona norte, com 12 pontos, é a que tem o maior número de famílias, pois abriga quatro das maiores ocupações: Aparecidinha, com 560 famílias, São Jorge (520), Córrego Sem Dúvida (500) e Flores do Campo (400). A zona sul também aparece em destaque nas estatísticas por conta dos bairros Jardim União da Vitória 5 e 6, que ainda não foram regularizados. A zona oeste tem três áreas ocupadas e, a área central, apenas uma, na Vila Marizia.

O presidente da Cohab-Ld, Marcelo Cortez, afirmou à reportagem que, entre 2013 e 2016, a quantidade de famílias em áreas irregulares mais que triplicou, passando de 915 para 3.368. Um dos casos mais representativos é o da ocupação do fundo de vale do Córrego Sem Dúvida, nos fundos dos bairros Maria Cecília e Aquiles Stenghel. Em janeiro de 2014, eram 11 famílias. Hoje, são cerca de 500. O que era mata com alguns barracos de madeira se tornou um bairro, com pequenos comércios, mercearias e até igrejas.
Carolina Avansini
Reportagem Local/FOLHA DE LONDRINA
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