Anvisa recomenda suspensão de vacina a quem nunca teve dengue



Mateus Bueno Rodrigues tomou a vacina e nunca teve dengue: "Quando a gente toma vacina, espera proteção e não o contrário"


A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) divulgou nesta quinta-feira (30) uma informação preocupante que pode colocar em xeque a eficiência de campanhas de vacinação contra a dengue: segundo a agência governamental, o laboratório Sanofi-Aventis, fabricante da vacina contra a dengue, apresentou informações que sugerem que pessoas que nunca tiveram contato com o vírus da doença podem desenvolver formas mais graves da enfermidade caso tomem a vacina. A vacina, chamada de dengvaxia, foi aprovada no Brasil em 28 de dezembro de 2015 e não é oferecida pelo PNI (Programa Nacional de Imunizações). No Paraná, a Sesa (Secretaria Estadual de Saúde) informou que irá continuar campanhas de vacinação contra a dengue.

A suspeita do laboratório, apresentada nesta semana, ainda não é conclusiva, mas, diante do problema, a recomendação da Anvisa é que a vacina não seja ministrada a pessoas que nunca tiveram dengue. Apesar de esclarecer que a vacina por si só não é capaz de desencadear um quadro grave da doença nem induzir ao aparecimento espontâneo da dengue - para isso, é preciso ser picado por um mosquito infectado -, existe a possibilidade de que pessoas soronegativas desenvolvam um quadro mais agudo de dengue caso sejam infectadas após terem recebido o medicamento.

A bula da vacina será atualizada enquanto a Anvisa avalia os dados completos dos estudos, que ainda serão apresentados pelo fabricante. A vacina da Sanofi é a única aprovada no Brasil. O produto é indicado para imunização contra os quatro subtipos do vírus. Para as pessoas que já tiveram dengue, a Anvisa mantém a recomendação de imunização.

Por meio de um comunicado, a Anvisa esclareceu que "este risco não havia sido identificado nos estudos apresentados para o registro da vacina". A agência informou que, antes do registro, os efeitos da imunização foram estudados em mais de 40 mil pessoas em todo o mundo, e que as pesquisas seguiram os padrões estabelecidos por guias internacionais da OMS (Organização Mundial da Saúde).

O autônomo Mateus Bueno Rodrigues, 20 anos, ficou sabendo pela reportagem da FOLHA sobre as informações prestadas pela Anvisa. "Ainda não li nada sobre o assunto. Não tive dengue antes de tomar a vacina e essa notícia preocupa a gente. Se disponibilizaram a vacina antes deveriam ter certeza de sua eficiência. Isso é perigoso. Quando a gente toma a vacina, espera proteção e não contrário", afirmou. Para ele, novos testes deveriam ser realizados o mais breve possível.

Um adolescente de 16 anos, que tomou duas doses da vacina, também foi surpreendido pela notícia. "Agora estou me sentindo desprotegido. Eu e meus primos recebemos a vacina. Agora é passar repelente e tentar evitar ao máximo o contágio", destacou. (Com Agência Brasil)

Paraná vai manter campanha em 30 municípios

A despeito da recomendação da Anvisa, a Sesa (Secretaria Estadual de Saúde do Paraná) vai manter a oferta da vacina nos 30 municípios onde a campanha de vacinação contra dengue foi lançada em 2016.

O Paraná foi pioneiro na oferta de vacinas contra a dengue no Brasil. A campanha de vacinação no Estado começou em julho do ano passado. Desde então nenhuma morte decorrente da dengue foi registrada no Paraná. Naquela época havia 55.260 casos confirmados da doença, com 61 mortes. Só em Paranaguá, uma das cidades onde a campanha foi intensificada, foram 29 mortes naquele ciclo.

A médica Júlia Cordellini, superintendente de Vigilância em Saúde da Sesa, informou que a estratégia inicial será mantida e os pacientes vacinados serão monitorados. "A nota da Anvisa reforça que a estratégia de oferecer a vacina aos 30 municípios de maior carga de doenças, óbitos e doenças graves é correta. Sabemos que 80% dos casos são assintomáticos e o indivíduo pode ter sido exposto ao vírus, mas pode ter sido um caso assintomático", afirmou.

Cordellini disse que a secretaria adquiriu 500 mil doses e 300 mil pessoas foram imunizadas contra a dengue. Houve perda vacinal, estimada entre 10% a 20% das doses. "Não tivemos reações graves ou moderadas", constatou. Segundo ela, o risco de pessoas soronegativas desenvolverem um quadro mais agudo de dengue caso sejam infectadas após terem recebido o medicamento é de 0,5% dos casos. "Temos uma última etapa dessa vacinação em março e abril do ano que vem e não é prudente interromper. Estamos aguardando estudos complementares e vamos mudar estratégias somente se o risco for confirmado", argumentou.

A superintendente informou, ainda, que há previsão de aquisição de outras 720 mil doses da vacina, quantidade que pode ser adequada conforme os relatórios apresentados por cada uma das regionais de saúde do Estado.

Questionada se houve precipitação na adoção da vacinação, a médica lembrou que o medicamento foi liberado pela Anvisa. "A decisão do Paraná foi a partir da liberação e do registro do medicamento pela Anvisa. O Paraná não libera a vacina. Foram os dados epidemiológicos que direcionaram a decisão de gestão de cada Estado", apontou.

Em Londrina foram aplicadas 32.016 doses na primeira etapa da vacinação (52,42% da meta), 15.219 doses na segunda etapa (43%) e 16.787 doses na terceira etapa (65,2%). Segundo a assessoria da Secretaria Municipal de Saúde, não houve movimentação nas unidades básicas de saúde em função da divulgação da notícia.

CLÍNICAS PARTICULARES
A Unimed de Londrina informou que diante da nota da Anvisa, a partir de agora a vacina será aplicada somente em quem informar que teve dengue e assinar um termo de responsabilidade por esta informação. "Se ele falar que teve dengue e se recusar a assinar o termo de responsabilidade, o médico poderá se recusar a aplicar a vacina", afirmou a gestora de negócios da Unimed, Zenaide Macedo Leão

Segundo ela, a cooperativa médica adquiriu um lote de mil doses de vacinas divididos em frascos de cinco doses, o que obrigava a realizar a vacinação de cinco em cinco pessoas, para evitar perdas, e as doses foram aplicadas conforme a orientação de bula. "A vacina estava indicada a pessoas de nove a 45 anos independentemente de terem tido ou não dengue. Mas os estudos anteriores já falavam que a vacinação é mais eficaz a pacientes que já tinham contraído a doença." (V.O.)
Vítor Ogawa
Reportagem Local/FOLHA DE LONDRINA
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