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Cinco mil brasileiros morrem ao ano à espera de radioterapia, diz estudo

"Desde quando eu descobri o câncer, o atendimento foi muito rápido. Em menos de uma semana eu consegui uma consulta aqui no hospital", relembra Michelle Garcia.

As linhas vermelhas desenhadas sobre a pele indicam que Michelle Escorcin Garcia está em tratamento radioterápico. A assistente administrativa trata um câncer de mama descoberto no ano passado e a radioterapia é o último passo da terapia, depois da quimioterapia e da cirurgia para remoção do tumor.  


Desde o diagnóstico de câncer, Garcia fez a quimioterapia neoadjuvante - que auxilia na redução do tumor - por seis meses, até março. No início de maio passou pela cirurgia e desde o dia 25 de junho se submete a sessões diárias de radioterapia. Serão 30 sessões ao todo. Ela mora em Joaquim Távora (Norte Pioneiro) e todo o tratamento é feito no Hospital do Câncer de Londrina.

"Todas as etapas estão sendo feitas dentro do prazo. O atendimento é ótimo e os funcionários são maravilhosos. Sempre me tratei pelo SUS (Sistema Único de Saúde), mas aqui não parece SUS. Ninguém é diferenciado por classe social. Desde quando eu descobri o câncer, o atendimento foi muito rápido. Em menos de uma semana eu consegui uma consulta aqui no hospital", relembra Garcia.

Nem todos os brasileiros com câncer atendidos pelo SUS, no entanto, têm acesso ao mesmo tipo de tratamento que Garcia. A realidade da maioria deles é bem diferente. Um estudo científico divulgado nesta semana pela SBRT (Sociedade Brasileira de Radioterapia) apontou que o Brasil tem 5.000 mortes por ano decorrentes da falta de aparelhos de radioterapia e que a rede pública dispõe apenas de metade das máquinas necessárias para garantir assistência a todos os doentes.

O SUS tem hoje 270 aparelhos funcionando quando precisaria ter entre 500 e 540, de acordo com a SBRT. A distribuição dessas máquinas pelas unidades de saúde do País também não é homogênea no território nacional. Mais da metade delas está na Região Sudeste, 6% no Norte e nos Estados do Acre, Amapá e Roraima não há um aparelho sequer.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) preconiza uma máquina para cada 300 mil habitantes. Com a quantidade de aparelhos em funcionamento no País, a disponibilidade, hoje, é de um para cada 750 mil brasileiros.

SEM ASSISTÊNCIA

A radioterapia, muitas vezes, não cura o câncer, mas é utilizada para aliviar os sintomas da doença. A cada cem pessoas com câncer, 60 passam ou deveriam passar pela radioterapia. Os pacientes desassistidos pela terapia e que não têm condições de buscar tratamento em outras cidades ou Estados sofrem sem necessidade ou morrem sem ter a chance de lutar contra a doença. "Existe um deficit de aparelhos e isso é inquestionável", reforçou Eduardo Weltman, que é coautor da pesquisa, ex-presidente da SBRT, professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e coordenador médico do serviço de radioterapia do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

Segundo Weltman, em 2016 foram registrados 596 mil novos casos de câncer no Brasil. Desse total, 75% são tratados pelo SUS e 111.432 pacientes precisariam de radioterapia e não receberam esse tratamento por falta de aparelho. "Os números devem ser maiores pela subnotificação e pelo subdiagnóstico", comenta o presidente da SBRT, Arthur Rosa.

O tratamento radioterápico é indicado para vários tipos de câncer, mas para alguns deles é mais frequentemente prescrito. Entre as mulheres, o câncer de mama, colorretal e colo uterino. Para os homens, colorretal, pulmão e próstata.

EXPANSÃO

Em 2012, o governo federal lançou o Plano de Expansão da Radioterapia no SUS, que previa a compra de 80 novos aparelhos em 23 Estados. Os primeiros começariam a operar em 2014 e todos deveriam estar funcionando até 2020. Seis anos depois, apenas oito foram instalados, segundo a SBRT. No Paraná, sete instituições de saúde foram incluídas no plano: duas em Curitiba, além de Londrina, Campo Mourão, Arapongas, Guarapuava e Campina Grande do Sul, com uma máquina em cada cidade.

"Não é um bom plano de expansão. Pouquíssimas unidades foram entregues por vários problemas e um dos problemas muito sérios é que o SUS não paga pelos tratamentos a metade do que eles valeriam se tivesse um serviço sustentável", aponta Weltman. Ele ressalta que o plano previa a troca de peças e a manutenção gratuita por três anos, mas depois os valores repassados pelo SUS para pagamento dos procedimentos não cobririam os custos de manutenção dos aparelhos. "Ninguém vai querer um aparelho que é uma bomba-relógio e não vai conseguir fazer a manutenção", decreta.

O presidente da SBRT vê com preocupação as falhas do tratamento radioterápico no Brasil porque as iniciativas do Ministério da Saúde, aponta, não têm o objetivo de solucionar o problema. "O plano de expansão de 2012 é uma releitura de outro plano de 2002 para reequipar o País", observa. A forma como o governo federal conduz a questão, afirma Arthur Rosa, gera desassistência. "É um problema crônico e a sociedade está vivendo em cima de promessas."

Algumas soluções para o problema, diz Weltman, seriam aumentar a remuneração pelo serviço de radioterapia, repassar o pagamento diretamente aos hospitais, sem passar pelas prefeituras, para que as instituições recebam o valor integral dos procedimentos, e estabelecer uma verba "carimbada". "É preciso pagar diretamente para o serviço que foi produzido."

QUESTIONAMENTOS

Em nota, o Ministério da Saúde questiona a pesquisa divulgada pela SBRT e diz que o método descrito para o desenvolvimento do estudo é baseado em estimativas de número de novos casos e não em números de doentes efetivamente tratados.

A pasta ressalta ainda que as estimativas resultam em cálculos que incluem os casos de câncer de pele, que representam menos de 25% do total dos casos de câncer estimados no Brasil e que são tratados com cirurgia e não com procedimentos radioterápicos.

O governo federal apresenta ainda números diferentes dos apontados pelos pesquisadores. Segundo o Ministério da Saúde, o País possui 300 hospitais habilitados em oncologia e o SUS mantém 286 aparelhos de radioterapia, sendo 237 aceleradores lineares e 49 bombas de cobalto.

Em relação ao plano de expansão, a pasta contabiliza 21 aceleradores lineares entregues desde 2016 e diz que outros 24 serão disponibilizados até o final de 2018, 60 serão entregues em 2019 e o restante, em 2020, totalizando 142 aparelhos.



Simoni Saris
Reportagem Local/FOLHA DE LONDRINA

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