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Corpo ou mente são?

Garantir qualidade de vida no processo de envelhecimento depende do "movimento" do corpo e da mente; segundo geriatra, um traz consequência para outro
Fotos: Celso Pacheco
"A atividade física faz toda a diferença na minha vida", afirma Olinda Gonçalves da Silva Neves, de 90 anos, que tem aulas de caratê três vezes por semana
Maria Napolitana Gonçalves, de 78 anos, lê e faz palavras-cruzadas diariamente: "Tento estimular minha memória o tempo todo; ela é minha referência"
Londrina - Aos 90 anos, dona Olinda Gonçalves da Silva Neves faz aulas de caratê, três vezes por semana. Por incentivo do neto, começou a praticar a arte marcial há dois anos e hoje confessa ser um dos seus maiores prazeres. "Melhorou tudo. Eu me sinto outra pessoa, sem dor e com muita saúde. Antes das aulas, eu caía ao andar pela rua, mas agora sinto muito mais segurança ao caminhar. Para todo mundo digo que a atividade física faz toda a diferença na minha vida aos 90 anos. Anima o corpo", comenta. 

No contraponto, dona Maria Napolitana Gonçalves, de 78 anos, também se ocupa com atividades ao longo da semana, porém, todas intelectuais. "Leio todos os dias. Meu dia começa e termina sempre com um livro e o jornal. Também faço palavras-cruzadas e ainda participo de uma oficina de memorização. Tudo isso me relaxa, distrai, me mantém atualizada e com a cabeça funcionando, o que é fundamental", salienta. 

Esses dois exemplos ilustram uma recente realidade brasileira. Os idosos estão vivendo muito mais e, o que é melhor, preocupados em envelhecer com qualidade de vida. Quem pode afirmar isso é o geriatra Fábio Garani, de Londrina. Ele diz que há 10 anos atendia muitos pacientes com alguma incapacidade ou processo de demência já iniciado. "Hoje não. Aumentou muito a demanda de pacientes por prevenção. Inclusive muitos filhos acompanham os pais em busca de orientações", observa. 

Portanto, muito mais que a procura por tratamento, os idosos têm revelado o desejo de seguir a receita da longevidade. "Eu sempre digo que são cinco pontos importantes para um envelhecimento saudável. Um trabalho que dê um rendimento aceitável, alimentação adequada, atividade física, vínculo familiar e social (rede de apoio) e, o mais importante, Deus, não importa a religião. A espiritualidade faz parte", aponta. 

Ainda de acordo com Garani, o conjunto de todos esses fatores alimenta o essencial: a nossa mente. "Tudo que fazemos é um exercício para a mente. Desde um planejamento para sair de casa ou em qualquer atividade cotidiana. É por isso que não tem como separar o exercício físico do mental, pois trabalhando o corpo a mente também é beneficiada", afirma. 

Quem sabe muito bem disso é dona Olinda, ao revelar que se sente mais disposta com as aulas de caratê, ao mesmo tempo que tem a certeza de estar fazendo "bem para a cabeça". O professor da turma da Terceira Idade da Associação Londrinense de Nihon Karatê Kyodai, Luiz da Silveira, explica que, ao contrário do que muitos pensam, o caratê não é uma modalidade de alto impacto. 

"Todos os exercícios têm uma série de benefícios. Por exemplo, os movimentos sincronizados estimulam a memória, a coordenação motora e o equilíbrio. Além disso, o trabalho muscular abdominal é muito importante para dar força às pernas. Isso evita as quedas", diz. 

Autoestima 

O médico explica que não existe nenhuma contraindicação de atividades para idosos, a não ser as radicais, mas reforça a importância do alongamento, que deve ser no mínimo de 5 a 10 minutos. "Na parte física, os ganhos com exercícios são principalmente na articulação, força muscular, alongamento, flexibilidade e peso. Mas o ganho maior eu considero na autoestima. A socialização é extremamente importante e isso também favorece a memória. Não que você vá melhorá-la, mas vai deixar de perdê-la, o que é um grande avanço", reforça. 

Nesse ponto, quem dá o exemplo é dona Maria, que mesmo sabendo a importância de aliar atividade física com o exercício mental, defende muito os estímulos à memória. "Às vezes converso com pessoas mais novas que têm dificuldade para lembrar de fatos e datas. Para mim, é falta de exercício e é por isso que eu tento estimular minha memória o tempo todo. Ela é minha referência", diz. 

Além da leitura diária, a professora aposentada confessa não levar lista de compras ao mercado. "Eu tento memorizá-la justamente para exercitar e tem funcionado", completa, aos risos. 

Para a assistente social e diretora de Direitos e Defesa da Pessoa Idosa da Secretaria Municipal do Idoso, Genilda Pozzetti Stabile, "é preciso estimular o saber a todo momento, mas para isso a pessoa deve se manter ativa, inclusive com atividade física. Uma questão é consequência da outra", declara. 

Na observação do geriatra, um ponto a ser sublinhado é a preocupação dos idosos em relação ao Alzheimer. Ele diz que estudos ainda não revelam nenhum fator de risco, mas sabe-se que a doença está totalmente relacionada à idade. "Com 60 anos, a gente tem de 4% a 5% de idosos com um início de demência, que vai aumentando aos 70 anos para 8% e aos 80 chega até 25% de indivíduos acometidos pela doença", detalha. 

Ele ainda comenta que a demência não está ligada ao estilo de vida e sim aos anos de estudo. "Imagine uma dona de casa, com todo respeito, que não estudou. Que ganho cognitivo que essa mulher teve? Muito pouco. Agora, o exemplo de dona Maria, que trabalhou, estudou e teve um ganho cognitivo maior. Esse estímulo todo é um fator protetor da doença", completa Garani, lembrando que o fator genético deve ser considerado. 

"Quanto mais atividade, seja física ou mental, melhor. Tudo na vida é treino e a memória é uma habilidade. Ela tem que ser o tempo todo estimulada. Qualquer atividade de exercício da memória é boa desde que seja prazerosa para o indivíduo. Então, em primeiro lugar é preciso saber que é fundamental se movimentar para não deixar a mente parada", conclui. 

SERVIÇO 

■ As aulas de caratê para 
idosos são gratuitas e têm vagas abertas. Mais informações pelo fone (43) 3325-4605. A Associação Londrinense de Karatê fica na Rua Argentina, 685, na Vila Brasil.
Micaela Orikasa
Reportagem Local
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