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Minhocas no capricho - UM HOMEM QUE CONSTRUIU CASA COM VENDA DE MINHOCAS EM LONDRINA

Pedro da Silva, de 57 anos, criou dois filhos e construiu casa própria com a venda de minhocas na Vila Marízia

Anderson Coelho
Para vencer a concorrência, Pedro tem uma campanha de marketing rudimentar: placa em frente à casa anuncia a qualidade do produto
Londrina - Pedro da Silva tem 57 anos e há quase quatro décadas tira seu sustento da terra com o suor do rosto. No entanto, contrariando a vocação familiar, nunca plantou um pé de qualquer coisa que seja: trauma em ver o pai perder tudo com a geada negra de 1975. A fatídica cena da imensidão de cafezais queimados fez com que ele rejeitasse o ditado popular baseado na Carta de Pero Vaz de Caminha: "Nessa terra, em se plantando, tudo dá".

Antes do sol romper o dia, ele sai de casa com uma enxada e um balde debaixo do braço. Caminha devagar por 300 metros até a beirada do Ribeirão Quati. Pedro revolve o solo e tem alvo certo: as famosas minhocas da Vila Marízia, no limite da área central com a zona norte de Londrina. "Minhoca não tem geada que mate". Em uma análise rápida da vida, vê que a aposta inusitada deu certo. Com o dinheiro da venda das minhocas, criou dois filhos e construiu a casa própria. "Já ganhei bastante dinheiro, hoje está mais difícil", compara.

Quando chegou ao bairro, só havia um vendedor de minhocas na margem da BR-369. "Era o seu João Vermelho. A turma apelidou ele assim porque era polaco e ficava o dia inteiro debaixo do sol. Parecia um camarão", brinca. Como surgiam minhocas de todo o canto, o alemão sugeriu que os vizinhos se juntassem a ele. "Foi então que comecei, mas ia vender uns dois quilômetros acima da estrada pra não atrapalhar o ponto dele".

Com o negócio indo bem, a concorrência seria inevitável. O dinheiro brotava da terra e cada metro quadrado era disputado como em um garimpo. Nos anos seguintes, começou a corrida pelas minhocas. O serviço era tocado geralmente por mulheres e crianças, para complementar a renda doméstica. A Vila Marízia chegou a abrigar 30 famílias que se dedicavam à venda de minhocas na beira da rodovia. Com o passar dos anos, o vendedor conta que as minhocas foram rareando. "Hoje não passam de dez famílias na lida", enumera.

Como diferencial, Pedro lançou mão de uma campanha de marketing rudimentar. A placa rústica em frente à casa anuncia: "Minhoca no capricho". A estratégia é simples, mas funciona. Por R$ 10, o cliente leva uma porção bem servida dos anelídeos em meio à terra vermelha. A medida é o fundo de uma garrafa pet, que depois é transportada para uma embalagem de leite longa vida. "Aqui a gente aproveita tudo. Isso ajuda a não poluir a natureza", dá o exemplo. Em dias de bom movimento, ele vende até cinco potes de minhoca.

Se exagerar no tamanho do peixe é uma das características dos pescadores, seu Pedro não fica para trás. "Aqui tem minhoca de todo tamanho. Conforme eles aumentam o tamanho do peixe, eu aumento o da minhoca", ironiza. O vendedor conta que ainda tem freguesia fixa, mas o movimento caiu bastante. "Além de diminuir o número de pescadores, hoje em dia existem vários tipos de iscas: macarrãozinho, massinha. Antes era só minhoca", lembra.

Apesar das dificuldades, Pedro não desiste. "De tanto mexer com minhoca, a gente aprende um pouco. A cada golpe da vida, temos que lutar e voltar a crescer". A capacidade de regeneração do bicho é uma das principais curiosidades das crianças do bairro. Paciente, Pedro explica que, partida ao meio, a minhoca não vira duas. "A parte que tem a boca vive, a outra morre de fome", simplifica. Depois que orienta, não admite malvadeza da meninada.

Pedro não sonha com riqueza ou aposentadoria. "Gosto dessa vida. Quando a minhoca está em baixa, vendo latinhas ou faço outro serviço qualquer. Não suporto ficar parado". Ele comemora os avanços conquistados pelos moradores da Vila Marízia e Jardim Kase, mas sabe que ainda há muito o que evoluir. "Considero aqui um bom lugar para se viver. É pertinho do centro. Problemas existem em todo lugar, mas é claro que precisamos de infraestrutura melhor, mais segurança. Um dia a gente chega lá", espera.
Celso Felizardo
Reportagem Local-FOLHA DE LONDRINA
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