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DRAMAS SEM FIM - As vítimas da Iguaçu

Suicídios, separações e brigas são consequências "escondidas" do golpe aplicado por construtora em consumidores de Londrina

Gina Mardones
No muro, compradores escreveram seus números de celular para que outros ex-futuros moradores possam entrar em contato
Londrina - Por trás de um golpe milionário, dramas sem fim. "É desesperador. Já temos casos de suicídios, separações, pais e filhos se desentendendo, mulher brigando com o marido, pessoas que dormem à base de medicamentos, outras com depressões profundas. Cada reunião que a gente faz a gente se abala de um modo, porque cada vez mais a gente vê que o tempo vai passando e isso tudo vai se agravando. Não estamos vendo com bons olhos a coisa andar", relata o corretor imobiliário Eduardo Tomasetti, um dos mais de 630 proprietários lesados pela Construtora Iguaçu do Brasil. A empresa vendeu 14 condomínios residenciais em Londrina e só entregou dois, ainda assim, com problemas de acabamento e ainda não totalmente legalizados. A estimativa dos prejuízos para as famílias e os trabalhadores nas obras passa dos R$ 100 milhões.

A FOLHA apurou que o primeiro caso de suicídio envolvendo um dos compradores ocorreu no ano passado. O proprietário, um senhor com mais de 60 anos, estaria em depressão quando deu um tiro na cabeça em junho do ano passado. A família não comenta o caso. Um outro relato feito por um comprador à reportagem é sobre um adquirente que deixou de frequentar as reuniões das famílias lesadas pelo estelionato depois que a esposa morreu ao consumir em excesso medicamentos antidepressivos.

"Temos mais de dez casos de separação", diz Tomasetti. Ele comprou uma das casas do condomínio de alto padrão Imperial Boulevard, cujo terreno, localizado próximo a outros empreendimentos de luxo na zona sul, já foi retomado pelo proprietário. "Comprei a casa para minha filha, que é professora de educação física e poderia dar aulas de tênis particulares lá no condomínio."

O representante comercial Guilherme Augusto Florêncio, de 32 anos, teve que ter jogo de cintura para evitar que o golpe atrapalhasse sua vida conjugal. De casamento marcado, ele vai ter que refazer os planos, já que as obras no Condomínio Iguaçu, no Jardim dos Alpes (zona norte), onde o casal havia comprado uma casa, foram embargadas pela Justiça. "Eu estou noivo já faz alguns anos e por causa desse problema adiei várias vezes o casamento. Não tem nenhuma data marcada porque não temos nenhuma condição de adquirir outro imóvel. Estamos procurando outras alternativas, talvez morar de aluguel, e outra forma de comprar a casa própria futuramente."

Florêncio diz que deu dois carros e uma soma em dinheiro para inteirar a entrada de R$ 180 mil. "Era para o condomínio ser entregue em dezembro de 2012, mas a partir de fevereiro, março de 2013, começamos a ver que o negócio não estava fluindo. Foi quando saiu a denúncia da investigação do golpe pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) e descobrimos todo o esquema fraudulento que estava envolvendo essa construtora", afirma o proprietário, que desde então passou a ter uma preocupação a mais: a depressão da mãe.

"Esse dinheiro foi basicamente dado pelos meus pais, mas eu iria financiar a casa. Quando foi descoberto esse golpe, minha mãe passou muito mal. Ela tem uma doença rara chamada lúpus, que se manifesta conforme o estresse e todos os problemas do dia a dia. Depois desse problema ela entrou numa depressão muito forte, pensou até em se matar", recorda. No terreno de cima, com frente para a Avenida Henrique Mansano, no lado oposto ao kartódromo, a construtora comercializou o Imperial Catuaí. Sem nenhuma obra realizada, a área, avaliada em R$ 20 milhões, também foi retomada pela proprietária.

TITANIC
No Jardim Santiago (zona oeste), esqueletos de poucas casas em início de construção indicam que ali deveria haver um condomínio residencial com 18 sobrados. Virou depósito de lixo, onde carcaças de compressores de ar, para-choques de carros, uma TV e até um sofá quebrados dividem o espaço com o mato. No muro de entrada, alguns compradores escreveram seus números de celular para que outros ex-futuros moradores possam entrar em contato. Um deles é o vigilante Laudesnei Felipe Brito, de 38 anos. Ele e a esposa, a professora e pedagoga Thais Brito, deram R$ 70 mil de entrada e chegaram a gastar mais R$ 10 mil em material de acabamento. A casa ainda estava em obras quando eles viram pela televisão, por volta das 6 horas de uma manhã no ano passado, que os donos da Iguaçu haviam sido presos na Operação Casa de Papel. Não estavam sonhando. "Desmoronou o nosso mundo. Foi terrível. É raiva misturada com ódio. Eu e minha mulher não brigamos, mas ficamos um tempo sem nos falar. Éramos eu, ela e dois filhos, e nenhum diálogo em casa", recorda Brito.

O pior momento, relata, foi quando as mais de 600 famílias se reuniram pela primeira vez para discutir a situação, num hotel da cidade. "Eu vi gente passando mal lá dentro. Parecia o Titanic afundando", compara. Ele e outros sete proprietários das casas no Jardim Santiago formaram uma associação em conjunto com a dona do terreno para construir o condomínio com recursos próprios. Só que Brito não quer saber de morar lá. No dia em que falou com a FOLHA, o vigilante estava prestes a se mudar para um sobrado próprio que ele havia adquirido no Jóquei Clube (zona oeste). "Eu não desisti do sonho de tirar minha família do apartamento. Assim que eu construir a casa no Santiago vou vender. Não quero morar mais lá não, não me traz boas lembranças", comenta.

FONTE - FOLHA DE LONDRINA
Diego Prazeres
Reportagem Local
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