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Indígenas rejeitam abrigo provisório

Antigo barracão da CMTU, na zona sul de Londrina, foi adaptado para ser utilizado pelos índios como uma espécie de alojamento

Fotos: Celso Pacheco
Famílias que vivem na ocupação irregular da Avenida Dez de Dezembro não aprovaram o novo espaço
O barracão adaptado é só um espaço vazio sem janelas ou portas; salas administrativas possuem água encanada e energia elétrica
"A gente vive da venda do artesanato. Lá ninguém vai comprar e não dá para a gente viver", disse Renato Kriri, da aldeia Água Branca
Londrina – As famílias de indígenas que vivem próximo ao Centro Cultural Kaingang, na Avenida Dez de Dezembro, não pretendem deixar a área ocupada de forma irregular para se hospedar no abrigo provisório entregue pela prefeitura. O município fez pequenos reparos na estrutura já existente para disponibilizar um barracão e alguns cômodos aos índios que passam por Londrina.

O alojamento funciona na antiga Central de Moagem de Entulhos da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), próximo à Chácara São Miguel, na zona sul de Londrina. No entanto, o barracão adaptado é apenas um espaço vazio sem janelas ou portas. Já as salas administrativas possuem água encanada e energia elétrica, mas estrutura reduzida.

A área foi entregue na última quinta-feira. Na manhã desta segunda, nenhum indígena permanecia no local. Também não havia objetos ou itens deixados pelas famílias. Já na ocupação irregular próximo a Avenida Dez de Dezembro, as 27 famílias vindas da aldeia Água Branca, na Reserva Apucaraninha, permanecem nos barracos construídos com madeira e lona. Conforme um dos representantes da aldeia Água Branca, Renato Kriri, o grupo rejeitou o abrigo provisório e já avisou que não pretende se mudar para o novo espaço. "Lá é muito longe. A gente vive da venda do artesanato. Lá ninguém vai comprar e não dá para a gente viver", argumentou.

Na ocupação irregular não há energia elétrica e as famílias utilizam a água do Ribeirão Cambé para atender as necessidades básicas. Os índios afirmam que a terra do local guarda a herança cultural dos grupos que vivem há mais de 14 anos próximo ao Centro Cultural Kaingang. "Eu cresci aqui. Isso é um desrespeito à nossa cultura. A gente só quer melhorar esse espaço, viver aqui e manter a nossa tradição. Não queremos ser vistos como favelados. Nós trabalhamos e vendemos artesanato para sustentar o grupo. Nós queremos que os direitos dos povos indígenas sejam respeitados", explicou Kriri, segurando um livro sobre a Constituição Federal.

De acordo com a secretária municipal de Assistência Social, Télcia Lamônica de Oliveira, outros grupos de indígenas da Reserva Apucaraninha já aprovaram o abrigo provisório. "Esse local estava disponível para o uso dos indígenas desde o início do ano, mas, em um primeiro momento, eles nos fizeram algumas solicitações. Conseguimos atender alguns dos pedidos. Fizemos melhorias na estrada que dá acesso ao abrigo provisório, fizemos a ligação da energia elétrica no local, a pintura do espaço e alterações nos horários dos ônibus", destacou a secretária. A intenção é abrigar 20 famílias por um período máximo de 20 dias. Após esse prazo, novos indígenas ocupariam as vagas.

Já a construção da Casa de Passagem depende do repasse de recursos da Fundação Nacional do Índio (Funai). O custo estimado da obra é de até R$ 700 mil. O projeto arquitetônico elaborado pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul) prevê a construção de oito blocos com duas casas em cada para abrigar as famílias. A Casa de Passagem seria construída no mesmo local onde já funciona o abrigo provisório.

A prefeitura pretende negociar a saída do grupo indígena que vive às margens da Avenida Dez de Dezembro. "Vamos retomar o diálogo com eles. Os índios não perderão o espaço e a memória cultural. A intenção da prefeitura é revitalizar a área e criar uma espécie de memorial", destacou Télcia. O Centro Cultural Kaingang implantado no ano 2000 para promoção, divulgação e valorização da cultura indígena se tornou apenas um espaço administrativo para a concessão de passes de ônibus e de outros itens fornecidos aos indígenas.
Viviani Costa
Reportagem Local-FOLHA DE LONDRINA
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