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Cultivando a terra e a alma

Horta comunitária mudou a paisagem do Ouro Verde e a vida dos moradores

Fotos: Rei Santos
Juliano Guilherme de Jesus é o ‘síndico’ da horta: "Todos ajudam a cuidar, aqui ninguém pega nada"
Londrina – A transformação de uma área degradada, onde se acumulava lixo de toda ordem, em uma vistosa horta comunitária não mudou apenas a paisagem do Parque Ouro Verde, mas a vida de muitos dos seus moradores. O terreno de 2,5 mil metros quadrados localizado à margem do Ribeirão Lindóia, na zona norte de Londrina, produz muitas hortaliças, verduras, além de histórias de amizade e comprova que quando a sociedade se une os objetivos são alcançados.

A horta, que fica em um fundo de vale, é umas das mais bem sucedidas de um projeto criado pela Secretaria Municipal de Agricultura em 2011. Impossível contar os feitos conquistados pela comunidade sem mencionar o "síndico" da horta: Juliano Guilherme de Jesus, de 60 anos. "Aqui todo mundo só me conhece por Julião." Ele é também o presidente da Associação de Moradores.

O destino colocou o seu Julião para morar ao lado do terreno que envergonhava o bairro e desde abril de 2012, quando a horta começou a produzir, é o orgulho da sua gente. "Cheguei em Londrina em 1975 e sempre morei na mesma Rua Mauritânia. Aqui só tinha mato, bicho morto e sujeira para todo lado", conta o paulista de Rancharia, cujos pais, sergipanos, se mudaram para o Paraná em 1956 e se instalaram em Prado Ferreira (Região Metropolitana de Londrina). A limpeza do espaço levou dois dias e ocupou 72 caminhões de entulho.

A horta é cultivada e administrada por 35 famílias. Cada uma possui apenas um canteiro e se produz de tudo: alface roxa e americana, couve, almeirão, rúcula, salsinha, cebolinha, mandioca. Tudo orgânico. E barato. "Nem ureia a gente usa e o esterco também é orgânico." Três enormes pés de alface custam R$ 2.

Como bom síndico, seu Julião cumpre "expediente" pela manhã e a tarde e fiscaliza o cumprimento das regras definidas pela comunidade. "Ninguém pode entrar sem camisa, com bebida alcoólica e se ficar 30 dias sem cuidar perde o canteiro, que é repassado para outra pessoa", revela.

Cada família arca com as despesas do seu canteiro e fica com o lucro do excedente. A água, pura, como faz questão de ressaltar Julião, vem de uma mina no Lindóia. A poucos quilômetros dali, o ribeirão vai formar os lagos Norte e Cabrinha. "Cada um paga R$ 1 por mês, que é o custo da energia usada na bomba para ‘puxar’ a água", conta.

Julião chegou a duvidar no início que o projeto fosse para frente, em virtude de ser um terreno aberto e sem segurança. Mas, a comunidade abraçou a ideia e se sentiu comprometida e parte integrante do processo. "Todos ajudam a cuidar, aqui ninguém pega nada. Cada um cuida do seu e os vizinhos ajudam a cuidar. Nunca tivemos problemas", garante Julião.

ALEGRIA
A chegada da horta ao bairro ajudou a saciar a fome de muitas famílias e moradores da região, mas trouxe também alegria para a alma deste povo. "Ficou uma maravilha. Vem gente só para visitar e comprovar a mudança do local. Representou muito para o bairro, mudou da água para o vinho", afirma Gilvan dos Santos, 48 anos, um dos primeiros produtores da horta.

A mudança colocada em prática no Ouro Verde traz a reflexão sobre os mais de 300 pontos de acúmulo de lixo espalhados pela cidade. Terra vermelha, rica e cobiçada. Desperdício de um tesouro, usado apenas como depósito de entulhos provocado pela falta de educação e consciência.

Trabalhar com satisfação e com o coração é a resposta para que o projeto vá em frente. "Passo o dia aqui, gosto muito, se você não gostar não dá certo. Eu gosto e dá certo. Me sinto muito bem aqui", revela o presidente da associação.
Lucio Flávio Cruz
Reportagem Local-folha de londrina
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