EXPLORAÇÃO SEXUAL - As consequências do abandono
Desestrutura familiar, violência e falta de perspectiva para a vida levam adolescentes a ter relações sexuais com adultos em troca de dinheiro. No Paraná, denúncias ao Disque 100 aumentaram 272% em três anos
Natália, de 22 anos: "Ele disse que seria meu pai, cuidaria de mim e mandou uma passagem. Viajei naquele dia"
Muito antes de completar 18 anos, Natália e Fernanda (nomes fictícios), duas jovens moradoras de Londrina, experimentaram histórias de abandono, abuso e violência que as tornaram vítimas da chamada exploração sexual comercial. Pouco tempo após saírem da infância, as duas moças foram levadas a ter relações sexuais com adultos em troca de dinheiro, em uma prática considerada por profissionais que lidam com estas vítimas como "o mais degradante tipo de trabalho infantil".
A história das vítimas que concordaram em contar a sua trajetória para a FOLHA não é única. Operação do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), deflagrada no início do ano em Londrina, já identificou como vítimas de exploração sexual pelo menos 50 meninas de 13 a 18 anos que faziam programas com homens adultos – muitos deles com projeção social – a troco de dinheiro e presentes.
No serviço Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República, que recebe denúncias anônimas relativas à violação de direitos, em 2014 foram feitas 321 denúncias referentes à exploração sexual de adolescentes no Paraná, com aumento de 272% em relação aos 118 registros de 2011.
Pensando na proteção de meninas e meninos cujas histórias de abuso sequer chegam ao conhecimento das autoridades que existem para protegê-los, foi criado em 2000, no Brasil, o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A data – 18 de maio - busca chamar a atenção para histórias como a de Natália, de 22 anos, que foi aliciada pela internet aos 15 e passou quatro anos explorada em trabalho escravo por um cafetão do interior paulista.
Abandono e luta
A moça nasceu de uma relação extraconjugal da mãe. Abandonada por ela, que preferiu reatar o casamento a cuidar da filha, a menina morou com a avó até os 6 anos, quando a cuidadora morreu e ela passou a viver em abrigos. Ela chegou a ser "adotada" por uma família de Curitiba quando tinha 11 anos. "Eu dormia no quarto da empregada e cuidava de um bebê. Isso não é ser filha", denuncia ela, que acabou sendo abusada sexualmente pelo próprio "pai" adotivo e foi devolvida ao abrigo sob justificativa de não ter se adaptado.
Aos 13 anos, conheceu um rapaz de 18 e, um ano depois, acabou engravidando da única filha. Levada aos serviços que acompanham adolescentes em situação de risco, foi orientada a pedir a emancipação e casar com o namorado, pois a outra opção seria continuar abrigada mas entregar o bebê para adoção. Natália se casou. Quando a filha estava com seis meses, foi "devolvida" para o Conselho Tutelar pela família do marido. "Eu tinha 15 anos. Não sabia cuidar da casa, passar roupa, fazer janta. Eles consideraram que não era boa dona de casa", recorda. Por ser emancipada, não tinha mais direito à tutela do Estado. Perdeu a guarda da filha e se viu na rua, com R$ 100 no bolso, sem ter para onde ir.
Desesperada, a então adolescente entrou em uma lan house e postou um pedido de ajuda em uma sala de bate-papo na internet. Rapidamente, um homem do interior de São Paulo se ofereceu para ajudar. "Ele disse que seria meu pai, cuidaria de mim e mandou uma passagem. Viajei naquele dia", conta ela, que chegou à cidade e foi apresentada logo de cara ao mundo da prostituição. Até então, Natália tinha tido relações sexuais apenas com o ex-marido.
Cafetão e drogas
"No meu primeiro programa, ainda estava com os seios cheios de leite da amamentação da minha filha", lembra. Morando na casa do cafetão, ela fazia programas com homens e casais, mas nunca recebeu qualquer dinheiro por isto. "Os clientes pagavam ao cafetão antes de me levar ao motel. Eu entrava com casais deitada no banco traseiro", relata a moça, que aprendeu a cheirar cocaína com os clientes que exigiam uso de drogas. "Nunca mais usei depois que saí de lá", afirma.
Acabou criando vínculos com um homem que comprava chocolates e a deixava comer batata frita com refrigerante durante os programas, satisfazendo desejos infantis da adolescente. Este homem ajudou Natália a fugir da escravidão de quatro anos comprando uma passagem para Belo Horizonte, onde ela teria amigas que conheceu pela internet. Na região metropolitana da capital mineira, superou a exploração sexual comercial e arrumou alguns empregos. Um pouco mais estabilizada, decidiu voltar para Londrina para encontrar uma irmã – que foi abandonada como ela – e procurar a filha. Sem conseguir emprego e sem dinheiro, Natália chegou a voltar para as ruas e fez alguns programas em um conhecido ponto de prostituição da cidade, onde foi resgatada pelo projeto Casa Verde, que dá abrigo a pessoas que querem superar situações degradantes.
O resgate
Aos 22 anos, Natália reatou vínculos com a filha e agora se dedica a retomar planos que incluem terminar os estudos, arrumar um emprego e desta forma recuperar a guarda da criança, que perdeu o pai e hoje vive com parentes. Matriculada em um programa de educação de jovens e adultos, ela conta com a ajuda do projeto Casa Verde para encontrar um trabalho, mas confessa que é difícil omitir a história da própria vida sempre que é convocada para uma nova entrevista. Otimista, Natália tem um sonho: estudar Direito e um dia trabalhar na Vara da Infância, em uma tentativa de evitar que outras crianças passem pelas tragédias que lhe foram apresentadas antes mesmo da vida adulta.
FOLHA DE LONDRINA
A história das vítimas que concordaram em contar a sua trajetória para a FOLHA não é única. Operação do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), deflagrada no início do ano em Londrina, já identificou como vítimas de exploração sexual pelo menos 50 meninas de 13 a 18 anos que faziam programas com homens adultos – muitos deles com projeção social – a troco de dinheiro e presentes.
No serviço Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República, que recebe denúncias anônimas relativas à violação de direitos, em 2014 foram feitas 321 denúncias referentes à exploração sexual de adolescentes no Paraná, com aumento de 272% em relação aos 118 registros de 2011.
Pensando na proteção de meninas e meninos cujas histórias de abuso sequer chegam ao conhecimento das autoridades que existem para protegê-los, foi criado em 2000, no Brasil, o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A data – 18 de maio - busca chamar a atenção para histórias como a de Natália, de 22 anos, que foi aliciada pela internet aos 15 e passou quatro anos explorada em trabalho escravo por um cafetão do interior paulista.
A moça nasceu de uma relação extraconjugal da mãe. Abandonada por ela, que preferiu reatar o casamento a cuidar da filha, a menina morou com a avó até os 6 anos, quando a cuidadora morreu e ela passou a viver em abrigos. Ela chegou a ser "adotada" por uma família de Curitiba quando tinha 11 anos. "Eu dormia no quarto da empregada e cuidava de um bebê. Isso não é ser filha", denuncia ela, que acabou sendo abusada sexualmente pelo próprio "pai" adotivo e foi devolvida ao abrigo sob justificativa de não ter se adaptado.
Aos 13 anos, conheceu um rapaz de 18 e, um ano depois, acabou engravidando da única filha. Levada aos serviços que acompanham adolescentes em situação de risco, foi orientada a pedir a emancipação e casar com o namorado, pois a outra opção seria continuar abrigada mas entregar o bebê para adoção. Natália se casou. Quando a filha estava com seis meses, foi "devolvida" para o Conselho Tutelar pela família do marido. "Eu tinha 15 anos. Não sabia cuidar da casa, passar roupa, fazer janta. Eles consideraram que não era boa dona de casa", recorda. Por ser emancipada, não tinha mais direito à tutela do Estado. Perdeu a guarda da filha e se viu na rua, com R$ 100 no bolso, sem ter para onde ir.
Desesperada, a então adolescente entrou em uma lan house e postou um pedido de ajuda em uma sala de bate-papo na internet. Rapidamente, um homem do interior de São Paulo se ofereceu para ajudar. "Ele disse que seria meu pai, cuidaria de mim e mandou uma passagem. Viajei naquele dia", conta ela, que chegou à cidade e foi apresentada logo de cara ao mundo da prostituição. Até então, Natália tinha tido relações sexuais apenas com o ex-marido.
"No meu primeiro programa, ainda estava com os seios cheios de leite da amamentação da minha filha", lembra. Morando na casa do cafetão, ela fazia programas com homens e casais, mas nunca recebeu qualquer dinheiro por isto. "Os clientes pagavam ao cafetão antes de me levar ao motel. Eu entrava com casais deitada no banco traseiro", relata a moça, que aprendeu a cheirar cocaína com os clientes que exigiam uso de drogas. "Nunca mais usei depois que saí de lá", afirma.
Acabou criando vínculos com um homem que comprava chocolates e a deixava comer batata frita com refrigerante durante os programas, satisfazendo desejos infantis da adolescente. Este homem ajudou Natália a fugir da escravidão de quatro anos comprando uma passagem para Belo Horizonte, onde ela teria amigas que conheceu pela internet. Na região metropolitana da capital mineira, superou a exploração sexual comercial e arrumou alguns empregos. Um pouco mais estabilizada, decidiu voltar para Londrina para encontrar uma irmã – que foi abandonada como ela – e procurar a filha. Sem conseguir emprego e sem dinheiro, Natália chegou a voltar para as ruas e fez alguns programas em um conhecido ponto de prostituição da cidade, onde foi resgatada pelo projeto Casa Verde, que dá abrigo a pessoas que querem superar situações degradantes.
Aos 22 anos, Natália reatou vínculos com a filha e agora se dedica a retomar planos que incluem terminar os estudos, arrumar um emprego e desta forma recuperar a guarda da criança, que perdeu o pai e hoje vive com parentes. Matriculada em um programa de educação de jovens e adultos, ela conta com a ajuda do projeto Casa Verde para encontrar um trabalho, mas confessa que é difícil omitir a história da própria vida sempre que é convocada para uma nova entrevista. Otimista, Natália tem um sonho: estudar Direito e um dia trabalhar na Vara da Infância, em uma tentativa de evitar que outras crianças passem pelas tragédias que lhe foram apresentadas antes mesmo da vida adulta.
FOLHA DE LONDRINA
Carolina Avansini
Reportagem Local
Reportagem Local

