Por laços cada vez mais estreitos
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Governo japonês intensifica política para atrair jovens da comunidade nissei brasileira para preservar valores e tradições |
Mais de um século se passou, muitas adversidades e enormes diferenças culturais foram vencidas e os brasileiros descendentes de japoneses formam hoje a maior comunidade nipônica do mundo, com cerca de 1,5 milhão de pessoas. "O Japão tem muito orgulho e respeito pela comunidade formada no Brasil. É um patrimônio imaterial do país e esses descendentes ajudaram a construir uma imagem muito positiva dos japoneses, não só aqui, como no mundo", afirma a vice-cônsul do Consulado Geral do Japão em Curitiba, Akiko Kikuchi.
A importância da comunidade vem sendo colocada em prova. A mostra disso é o conjunto de ações que o governo japonês vem pondo em prática para manter os laços entre a cultura do país e os descendentes no Brasil atados. A política vem sendo ditada pelo Ministério de Relações Exteriores do Japão, que tem programas para levar brasileiros com ascendência nipônica para conhecer a Terra do Sol Nascente, onde vivenciam uma série de experiências e participam de encontros durante uma semana. A ideia é que a experiência seja multiplicada na volta para casa, na própria comunidade. Participaram da última edição do Programa de Convite a Descendentes de Japoneses das Américas Central e do Sul de Viagem ao Japão, realizada em setembro de 2018, 15 pessoas do Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Venezuela, Bolívia e México. Daqui do País, foram oito participantes, de São Paulo, Brasília, Amazonas, Paraná e Pará. A seleção é realizada por meio dos consulados e embaixadas do Japão nos países das Américas Central e do Sul. "Queremos fortalecer os laços entre as comunidades e, além das viagens, o consulado busca participar de festas e eventos culturais que ajudem a divulgar os valores e tradições", explica Kikuchi.
O trabalho promovido pelo governo japonês e o esforço do país para estreitar o relacionamento entre as comunidades nikkeis foi tema de uma mesa-redonda. Intitulado "Por um Caminho mais Curto entre o Brasil e o Japão", o evento foi organizado no dia 11 de dezembro do ano passado, em uma parceria entre o grupo Integranikkey e a jornalista da FOLHA Mie Francine Chiba. A conversa promoveu uma rica troca de experiências entre integrantes da comunidade japonesa da região, tendo como objetivo reaproximar especialmente os jovens, de terceira e quarta gerações de descendentes, que estão distanciados dos valores nikkeis. Entre os reunidos estavam nomes como Atsushi Yoshii, presidente do Conselho Administrativo do Grupo A. Yoshii, e Eduardo Suzuki, próximo presidente executivo da Aliança Cultural Brasil-Japão do Paraná. "O evento foi uma maneira de despertar a comunidade para esse cenário e buscar sugestões, tanto dos mais velhos quanto dos mais jovens, do que podemos fazer para fortalecer os laços da comunidade nipo-brasileira com o Japão", conta Chiba, que participou da viagem do programa do Consulado Japonês em Curitiba.
A vivência em solo japonês promovida pelo governo do país provocou o encontro de integrantes de comunidades nikkeis de várias partes das Américas, que acabaram por identificar que comungavam dos mesmos valores. Uma das apresentações promovidas no Japão explicava detalhes sobre o Bushido - um código de conduta e modo de vida para os samurais - composto por sete virtudes: integridade, respeito, coragem, honra, honestidade, dever e compaixão. Aqueles valores tão fundamentais para os guerreiros do período feudal marcam a sociedade japonesa ainda hoje. No Brasil, para os que cresceram sob a educação de ascendência nipônica, os princípios também estão arraigados. "O mais impressionante é que pessoas de origens tão diferentes identificaram que essas virtudes fazem parte dos ensinamentos que receberam. São valores tão intimamente ligados aos japoneses que passam de geração em geração de forma muito natural", conta Laís Higashi, presidente da ONG Litro de Luz Brasil, que também participou da mesa-redonda.
Parte fundamental do trabalho para fortalecer os laços entre o Japão e a comunidade no Brasil é a promoção da cultura por meio das artes e das associações. Os principais pontos de interesse são os grupos musicais, de dança e esportivos. Em Londrina, o grupo Sansey reúne descendentes há 30 anos em torno da prática do canto, dança do yosakoi soran e dos tambores conhecidos como taiko. Criado com 20 jovens, hoje o número de participantes chega 120 e já inclui a segunda geração dos que começaram com a professora de canto e diretora do grupo, Mity Shiroma. Os trabalhos começaram quando iniciou o movimento dos dekasseguis. "Muitas pessoas foram trabalhar no Japão e os seus filhos ficaram. Resolvi começar esse trabalho para desenvolver a cultura, no sentido de divulgar e preservar os ensinamentos dos nossos antepassados", explica Shiroma. A preocupação da professora é manter o interesse nos temas que estão em voga hoje e não apenas os traços mais longínquos. "Temos que tratar do que se vive hoje no Japão. A música pop, os animes, a febre dos cosplay", detalha.
Outro ponto sensível sobre a proximidade cultural entre a comunidade nipo-brasileira com o Japão é o distanciamento cultural dos descendentes adultos, imersos nos problemas do cotidiano e do mercado de trabalho. O grupo Integranikkey atua exatamente para auxiliar neste sentido. A instituição foi criada para orientar especialmente a segunda e terceira gerações que foram trabalhar no Japão e voltaram com recursos para investir. A ideia é a ampliar o ambiente de negócios e ajudar os profissionais. "O comportamento dos nikkei muitas vezes é mais retraído. Por muitos anos, nossos avós e pais sofreram preconceito e bullying, identificamos que havia muita dificuldade de comunicação e agimos muito nesse ponto, assim como lutamos para garantir o legado de nossos antepassados, que precisa ainda perdurar por muitas e muitas gerações", conclui o empresário Luciano Matsumoto, do comitê gestor do Integranikkey.
Pedro Moraes
Reportagem Local/FOLHA DE LONDRINA


