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Produtor em paz com os insetos do bem

A lagarta-do-cartucho é uma das principais pragas do milho, mas tem um poderoso inimigo natural...
Na lavoura - independentemente da cultura - por muitos anos o produtor enxergou os insetos com olhos de desconfiança. Eram os inimigos da produção, implacáveis em destruir a rentabilidade de quem trabalha no campo. Precisavam ser aniquilados a qualquer custo. Impressionante como esse conceito mudou. O controle biológico, em que organismos benéficos se alimentam de pragas, está cada vez mais absorvido pelos produtores, que passaram a entender o manejo integrado de pragas e doenças (MIPD) como uma alternativa viável, inclusive nos grãos, em que o preconceito era grande e as dificuldades de trabalho maiores ainda.

Inseticidas sendo substituídos pela vespa Trichogramma no controle de lagartas. Fungos que controlam outros fungos perigosos para a produção. Formulação de biopesticidas super eficientes. Insetos sendo preservados para o controle de pragas. Os exemplos são diversos e - mais do que isso - a cabeça do produtor aberta para essas novas biotecnologias, reduzindo custos de produção e fazendo uma agricultura mais sustentável, com menor número de aplicações de defensivos químicos na lavoura.

E o produtor de grãos se torna cada vez mais consciente. Na semana passada, produtores participantes de grupo de WhatsApp da Emater em Londrina que utilizam o MIP ficaram impressionados com um vídeo viral da Embrapa Sorgo e Milho, de Sete Lagoas (MG), em que o inseto "tesourinha" age fortemente se alimentando da pequena lagarta-do-cartucho: 60 lagartas por hora. Um santo amigo da lavoura, e de graça!

Marina Torres/Embrapa
Marina Torres/Embrapa - ...a 'tesourinha' (Doru luteipes) que, se estivesse presente em 70% das plantas milho, o produtor não precisaria se preocupar com a lagarta
...a "tesourinha" (Doru luteipes) que, se estivesse presente em 70% das plantas milho, o produtor não precisaria se preocupar com a lagarta


O pesquisador da Embrapa Soja, Adeney de Freitas Bueno, explica que o controle biológico pode ser feito de duas formas: o natural, em que o controle ocorre dentro do sistema naturalmente, e o aplicado, em que cabe ao produtor 'interferir' liberando algum parasitoide ou biotecnologia na lavoura. "Quando se pensa no controle aplicado, vale dizer que a oferta ainda é infinitas vezes menor do que o controle químico, bem mais fácil de encontrar. A indústria de controle biológico tem crescido, ainda num ritmo lento, e precisa de mais gente e pontos comerciais. O produtor só vai usar se estiver disponível."

Agora, a conversa é diferente quando o controle é o natural. Afinal, é possível preservar os insetos benéficos e outros organismos se a aplicação de inseticida, por exemplo, for mais acertada, sem exageros. "O fato de fazer o MIP, aplicar o inseticida quando necessário, no momento certo e escolhendo químico de maior tecnologia - os mais seletivos - dão chance para o controle natural surgir e assim fazer uma agricultura mais sustentável", observa o pesquisador.

Neste caminho sem volta, o grande desafio está em saber a velocidade com que o controle biológico vai acontecer. Isso vai depender de outros fatores, como os socioeconômicos. Se a economia vai bem, o produtor fica mais consciente, tem maior poder aquisitivo, e exige produtos de maior qualidade e menos nocivos a esse insetos do bem. "Hoje, com o aumento do custo de produção das lavouras, a margem de lucro do produtor está ficando mais apertada e ele está buscando essas alternativas de forma, digamos, forçada. Ele também está entendendo que se aplicar menos inseticida, não vai ganhar menos por isso. A pressão da mídia também, às vezes até de forma exagerada e sem fundamentos científicos, também está ajudando de alguma forma o produtor a pensar mais sobre a forma que ele vai trabalhar."


Victor Lopes
Reportagem Local/FOLHA DE LONDRINA

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