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Na boleia, o medo como companheiro de viagem


Responsáveis por transportar cargas muitas vezes valiosas, caminhoneiros convivem com o risco de assaltos nas estradas

Marcos Zanutto/28-5-2015
Caminhoneiros evitam locais perigosos para reduzir risco de assaltos
Fotos: Gustavo Carneiro
"No roubo de carga, o único que perde é o motorista, que fica com o trauma", lamenta Carlos Rodrigues
Motoristas optam por paradas mais movimentadas para não ficarem tão expostos a ação de bandidos
Londrina - "Na verdade, quem guarda a gente é só Deus." A frase no caminhão de Elias Natanael Telles, de 39 anos, retrata bem a rotina dos profissionais da boleia nas estradas brasileiras. Além da série incalculável de buracos nas pistas País afora e do frete desvalorizado, os profissionais do volante são obrigados a conviver com uma sensação constante de insegurança.

Telles, por exemplo, já foi assaltado duas vezes, ambas em Minas Gerais, e carrega os momentos de tensão bem vivos em sua memória. Na segunda ocorrência, chegou a ficar sob domínio dos bandidos por um dia inteiro. Foi algemado e permaneceu vendado, sem ao menos poder ligar para a família. "É um trauma que a gente nunca mais esquece. É uma coisa humilhante, você fica à mercê dos bandidos, não há como reagir, só rezar", descreve.

Os pouco mais de dez anos de estrada e a coleção de histórias assustadoras lhe ensinaram que neste meio está cada mais difícil confiar em alguém. Ele relata que por trás dos roubos de cargas existem muitos interesses. É preciso andar o tempo todo alerta e ainda escolher a dedo os locais onde parar para fazer uma refeição ou ir ao banheiro. "Já vi bandido roubando caminhão na bomba de gasolina, na frente de um posto policial, e nada aconteceu. Se é uma carga grande e valiosa, tem muita gente envolvida. O próprio posto, um mercado que tem interesse na carga, as empresas de rastreamento. Não dá para confiar em ninguém. É uma sensação de impotência muito grande", reclama. "Já é tudo planejado, os caras sabem tudo: onde você mora, os nomes de seus familiares. Então por aí você vê como funciona", acrescenta.

O paulistano Carlos Lúcio Rodrigues nunca foi assaltado, mas afirma já ter perdido amigos mortos por bandidos nas estradas. Justamente por não acreditar em nenhum sistema de proteção, ele prefere rodar sem rastreamento. "Um dia chegando em Caxias (RS) com uma carga de quase R$ 900 mil em produtos esportivos, a pessoa da empresa me perguntou onde estava a escolta e eu apontei o dedo para cima e falei: ‘Só Deus’. Ela disse que eu era louco, mas infelizmente é assim", diz.

Já se passaram 25 anos desde que Sérgio Cardoso teve seu caminhão levado por bandidos, perto de Goioerê (Noroeste). O trauma foi grande e o fez deixar de viajar à noite e de percorrer grandes distâncias. "Hoje só rodo para perto e ainda assim analiso bastante antes de pegar a carga", conta. Ele cita que alguns trechos no Paraná são evitados pelos motoristas, como o da PR-445 que liga Londrina a Mauá da Serra, e a PR-090, entre Londrina e São Jerônimo da Serra. "São dois trechos em que o movimento é baixo e os bandidos aproveitam", diz o caminhoneiro de 67 anos, 40 deles dedicados à profissão.

Solução para acabar com os roubos? A sensação de impunidade é tamanha que o motoristas já nem acreditam mais.

Para Valdecir Miotto, de 38 anos, as rodovias pedagiadas inibem um pouco mais a ação dos bandidos por conta das câmeras. "Na verdade, temos poucos policiais nas estradas e alguns ainda são corruptos", lamenta o caminhoneiro, que tem 17 anos de profissão e foi assaltado uma vez perto de Bituruna (Sul). "A solução seria a lei, mas infelizmente ela não funciona no nosso País. Então não tem solução", lamenta Carlos Rodrigues. "No roubo de carga, o único que perde é o motorista, que fica com o trauma", encerra.
Rafael Souza
Reportagem Local-folha de londrina
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