ACOLHIMENTO - Cuidados para um adeus com dignidade



Comissões em hospitais garantem qualidade de vida para pacientes sem chance de cura


O Brasil ocupa a 42ª posição no Índice de Qualidade de Morte, que avalia as medidas de qualidade dos cuidados paliativos em 80 países. O ranking divulgado recentemente pela The Economist Intelligence Unit (EIU) foi encomendado pela Fundação Lien, uma organização filantrópica de Singapura, e que ouviu mais de 120 especialistas em cuidados paliativos.
Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia encabeçam o ranking. O Brasil ficou atrás dos nossos vizinhos do Mercosul: Chile (27ª), Argentina (32ª) e Uruguai (39º).
De acordo com o índice, o Brasil precisa avançar nos quesitos ambiente de cuidados de saúde, mais acesso a profissionais treinados e disponibilidade de analgésicos. O país ainda está formulando a estratégica nacional, que deve atender a três áreas: política de drogas, de recursos humanos e redes de formação e assistência.
Equipes estruturadas para prestar esse tipo de atendimento ainda são efêmeras. Em Londrina, aos poucos os hospitais começam a dar atenção ao assunto. Os hospitais do Câncer, Dr. Anisio Figueiredo (Zona Norte) e o Evangélico são exemplos de unidades que já constituíram comissões de cuidados paliativos.
Implantada há pouco mais de um ano, a comissão do HZN iniciou os trabalhos há dois meses. Dez pacientes foram atendidos neste período. Sete morreram no hospital, um teve alta domiciliar e dois continuam em atendimento.
A iniciativa partiu dos próprios funcionários do hospital e foi abraçada pela direção. "Normalmente, se adota um atendimento padrão para o prolongamento da vida. O paciente é entubado, levado para a UTI. Os cuidados paliativos (comissão) vem questionar esses procedimentos, que muitas vezes são desconfortáveis para o paciente e busca trabalhar a qualidade de morte", comentou o fisioterapeuta Fernando Marcucci, presidente da comissão.
Um quarto com quatro leitos foi preparado para atender os pacientes sem perspectivas de cura. "O quarto recebeu uma pintura azul, diferente do branco que predomina no hospital e estamos pensando em colocar um som ambiente. O horário de visitas é estendido e número de acompanhantes que pode ficar no quarto é maior", explicou o fisioterapeuta.
Marcucci afirmou que a iniciativa também diminuiu o conflito entre a vontade da família de deixar o paciente confortável nos momentos finais da vida e da equipe médica de fazer o máximo possível para prolongá-la.
A equipe é multidisciplinar. Eles passaram por uma capacitação com a equipe de atendimento domiciliar da Secretaria Municipal de Saúde. Marcucci está fazendo doutorado na área e passou cinco meses na Austrália pesquisando o assunto. "Visitei alguns serviços como uma comunidade budista que tinha um trabalho desenvolvido por uma ONG".
Para o presidente da comissão, o "Brasil ainda é limitado nesta questão. Falta investir em política pública, treinamento e formação de profissionais e envolvimento da sociedade. Países como Argentina, Chile e Uruguai estão mais estruturados. As faculdades de Medicina não têm um curso ou disciplina sobre o assunto", ressaltou o fisioterapeuta.
De acordo com o Índice de Qualidade de Morte, no Brasil apenas três das 180 escolas de Medicina oferecem o conteúdo em seus currículos.

Idosa recebe visita de cachorro

Ricardo Chicarelli
Auta Balassa, de 91 anos, está internada no HZN há mais de 20 dias e sempre chamava por Tufik

Além dos cuidados para deixar o paciente confortável e controlar a dor, a equipe de cuidados paliativos do Hospital da Zona Norte procura atender os pedidos deles, adaptando o cardápio e fazendo um atendimento mais personalizado. "Procuramos fazer uns mimos para eles", disse o presidente da comissão, o fisioterapeuta Fernando Marcucci. Um exemplo foi uma visita inusitada que os profissionais prepararam para dona Auta Balassa, de 91 anos, internada há mais de 20 dias.
Desde que chegou ao hospital, dona Auta chamava por um nome: Tufik. A equipe descobriu que se tratava do cachorro de seis anos, que está com ela desde os dois meses de idade. "Ela falava pouco, pedia para ir embora e sempre falava do Tufik. Então pedimos autorização à direção que se sensibilizou e liberou a visita do cachorrinho", contou o fisioterapeuta.
Como não é permitida a entrada de animais em hospitais, o encontro dos dois foi em uma área externa da unidade. Tufik tomou banho e foi vacinado antes do reencontro. "Foi algo importante para família, mas também especial para a equipe, que percebeu que pode fazer algo mais por ela, além de dar medicamento", comentou Marcucci. 


Para a filha de dona Auta, Matilde Balassa, de 57 anos, a iniciativa dos profissionais do HZN. "Foi muito lindo ver a alegria no rosto dela. Nunca imaginei que teria essa oportunidade." Tufik é o companheiro de dona Auta, segundo Matilde. "Ele sempre fica deitado no chão ao lado dela. Onde ela vai, ele vai. O Tufik também estava sentindo a falta dela", contou Matilde.
A família agora aguarda decisão dos médicos para dona Auta poder ir para a internação domiciliar. Ela está acamada há mais de um ano, após ficar com sequelas de um acidente vascular cerebral (AVC). Em função do longo período que permanece deitada, a idosa desenvolveu úlcera de decúbito e teve complicações clínicas da última internação. (A.M.P.)

FONTE - FOLHA DE LONDRINA
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