COMPORTAMENTO - Compre menos e preserve mais



Não basta adotar um ou outro hábito sustentável. Gestores públicos e especialistas alertam que já passou da hora da sociedade repensar o modelo de desenvolvimento baseado no consumo

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Estabelecer um elo com o produtor de alimentos é uma forma de se relacionar mais harmonicamente com o meio ambiente

Um passo para frente e três para trás. Faz pelo menos 44 anos, desde que se estabeleceu a data de 5 de junho como Dia Mundial do Meio Ambiente, que esse desconforto é cada vez mais comum, em quem decide diminuir o impacto das próprias ações sob o meio ambiente, mas se vê frustrado diante de uma série de comportamentos desconexos. Você escolhe a bicicleta como meio de transporte, mas tem um guarda-roupa lotado de roupas que nunca usou. Não come carne, porém não separa o lixo reciclável do orgânico, ou até separa, mas sem o cuidado de limpar e secar vidros e plásticos. Sentir estranheza por contradições dessa ordem é um ponto considerado positivo por especialistas e gestores públicos da área de Meio Ambiente. Isso porque o desafio de impactar menos, para trazer resultados efetivos, não se restringe ao comportamento individual e, sim, a uma revisão do modo de vida da comunidade global, bem como desse modelo de desenvolvimento econômico predominantemente baseado no consumo.
Doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento e professora de Direito Ambiental da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Katya Isaguirre, explica que esses limites para um tema de dimensões tão profundas começam no âmbito da Constituição Federal, que embora trate o meio ambiente como um direito humano, no artigo 225, ao considerá-lo como um bem público, direciona o foco apenas para os desdobramentos econômicos, deixando de lado os aspectos sociais e culturais. "A primeira pergunta que todos nós deveríamos fazer é por que nos preocupar com o meio ambiente, por que isso é direito humano fundamental? As respostas para essas perguntas tornam evidente o fato de que apenas com decisões individuais, como reduzir o consumo de água em casa, não conseguiremos reverter todo esse processo de destruição ambiental", pondera.
Ainda nesse raciocínio, tão importante quanto compreender que ações e decisões isoladas não vão alterar o curso da degradação, é passar a observar e refletir sobre a diversidade de modos de viver com o meio ambiente. "Entender as diferenças e especificidades de cada povo que compõe a população brasileira é uma forma de aprender com organizações bem mais tradicionais do que o nosso atual modelo urbano de viver nas cidades. Os quilombolas, os indígenas e as comunidades agroflorestais vêm mostrar que existem maneiras mais harmônicas de se relacionar com o meio ambiente e se desenvolver como sociedade", aponta.
Dá para iniciar esse exercício de se interessar por outros modos de vida até mesmo em uma feira orgânica, estabelecendo um elo com o produtor e se aprofundando em todo o processo de produção. De acordo com Katya, não é de conhecimento de todos os consumidores o fato de haver dois processos de certificação de orgânicos reconhecidos no Brasil. Um é por meio da contratação de uma empresa que vai auditar a produção. O outro é via sistemas participativos de garantias, onde o reconhecimento do alimento orgânico vêm da própria cadeia produtiva. O selo SisOrg (Sistema Brasileiro de Avaliação de Conformidade Orgânica) é um indicador de que o produtor foi endossado por esse segundo tipo de certificação. "Essa informação da certificação é um dos exemplos que reforça o quanto o tema envolve todos os agentes sociais e como precisamos nos manter em estado de alerta. Um requisito indispensável a quem busca contribuir para essa causa é, ao se deparar com algo dito sustentável, perguntar para quem aquele produto é produzido e por que ele é sustentável? Por que todas essas ferramentas servem para que cada um de nós de forma coletiva passe a repensar o modelo de desenvolvimento que queremos daqui para frente", orienta.
Nesse direcionamento, a FOLHA buscou exemplos de ações em Londrina e Curitiba engajadas com a preservação do ecossistema e a multiplicação dessas práticas para outras pessoas, uma vez que todos os habitantes da Terra são considerados pelos estudiosos do meio ambiente como "agentes sociais". Das Estações de Sustentabilidade, implementadas há quase dois anos pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA) de Curitiba, a um arquiteto entusiasta do conceito de que a arquitetura eficiente tem por regra básica a sustentabilidade, os exemplos contidos nesta edição demonstram que é viável praticar uma nova forma de viver neste planeta.
Magaléa Mazziotti
Reportagem Local
FOLHA DE LONDRINA
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