AÇÕES COLABORATIVAS - A nova cara da solidariedade



Projetos de financiamento coletivo, novas organizações de trabalho pautadas pela colaboração e a união de forças para resolver problemas comunitários são ações que tornam-se cada vez mais comuns como alternativas para atender demandas da sociedade atual. Ao contrário do previsto, o individualismo tão anunciado como o grande mal contemporâneo não está impedindo as pessoas de colaborarem entre si para o bem comum.
Em Londrina, ações tão diferentes como o projeto de financiamento coletivo para modernizar a Rádio UEL FM ou o esforço de um médico que está reunindo pessoas para viabilizar um centro de apoio para pacientes com câncer demonstram uma inesperada tendência de solidariedade que se repete em várias iniciativas similares Brasil afora. O comportamento não surpreende a psicoterapeuta Eliana Louvison, de Londrina, para quem o cenário demonstra que as pessoas estão aprendendo a ser solidárias para atender aos próprios interesses. Otimista, ela defende que tal tendência é positiva. "Significa a mudança de um modelo assimétrico pautado pela caridade para adoção de um modelo horizontal de solidariedade, no qual quem doa também se beneficia", explica.
A caridade, segundo ela, é uma ação de ajuda movida por falta ou culpa, geralmente com pouco valor e nem sempre de acordo com o que o outro precisa. "A pessoa que doa para um pedinte na porta o faz para aliviar a culpa, mas não pergunta o que aquela pessoa quer. Ela não doa pensando na necessidade do outro", exemplifica.
A solidariedade, ao contrário, ocorre por identificação. "Quem doa se identifica com o que falta para o outro, porque é também uma necessidade própria", diz Eliana, destacando que esta nova dinâmica confere autoestima para quem pede. "As ações de financiamento coletivo têm essa marca. Quem pede mostra o quanto precisa e já deixa claro que não quer esmola. É um modelo com mais dignidade", acredita.
O doador, por sua vez, só faz a doação porque se sente parte daquele projeto, ao contrário dos antigos caridosos que doam justamente porque se sentem diferentes, como é o caso do rico que doa para o pobre ou do saudável que doa para o doente. "Sair da reta da caridade e ir para a solidariedade combina melhor com nosso tempo. Quem doa também usufrui, doador e receptor são sujeitos da mesma causa, o que é uma novidade no Brasil. O dinheiro que transita de forma solidária é mais justo", defende.
Para a psicoterapeuta, essa conjuntura indica que a própria sociedade encontrou um jeito de lidar com o individualismo e chegar ao bem comum. "O mais interessante é que hoje em dia não é 'feio' doar e receber em troca uma recompensa, como ocorre, por exemplo, nos projetos de financiamento coletivo", reforça.
As relações antigas, segundo Eliana, são assimétricas e funcionam dentro de uma relação de poder. Já o novo modelo é justo e se repete em outras esferas, como por exemplo nos escritórios de coworking, onde as pessoas colaboram entre si para ter vantagem da estrutura física e até mesmo da troca de ideias. "O objetivo primeiro não é ajudar o outro. É uma união em função de necessidades individuais", avalia.
O conceito de estar junto, compartilhar, mas com privilégios de interesses individuais ao invés de uma causa comum norteia também serviços como Uber e Airbnb, no qual as pessoas oferecem serviços para quem precisa a preço mais justo, sem intermediários. "É um modelo interessante porque desinstitucionaliza. Não tem mais aquela figura do provedor bondoso, generoso, mas que também tem uma posição de poder", considera.
Para a psicoterapeuta, a nova solidariedade que começa a ser desenhada no Brasil mostra que, ao invés de caírem no individualismo exacerbado, as pessoas construíram uma alternativa para lidar com o fato de que o ideal de ajuda ao próximo não existe. "É uma boa saída, ser solidário no individualismo", conclui.


Papel do Estado

O professor Renato Pessinoto, do departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR), destaca que iniciativas autônomas de solidariedade em comunidades carentes, principalmente onde o Estado não está presente, não chegam a ser novidade. "Era muito comum nos anos 80, por exemplo, realizarem mutirões para construção de casas populares. A pessoa construía a própria casa e também a do outro, era uma ajuda mútua que se espalhava", analisa. As redes sociais, porém, estão mudando a prática da solidariedade. "A internet amplia a capacidade de cooperar", pontua.
As mobilizações solidárias, segundo ele, mostram que a sociedade civil - ao contrário do que se acreditava - não é passiva, está disposta a participar. "Mas esse tipo de ação é feita em pequena escala. O Estado continua sendo imprescindível, por ter capacidade de arrecadar recursos e promover ações que outras inciativas não atingem", opina.
O professor defende que o Estado brasileiro não é pobre. "O problema é que é endividado e gasta mal. Temos que lembrar, porém, que a ausência do Estado nunca será suprida por este tipo de iniciativa, pois ações solidárias só resolvem problemas locais. As dimensões são diferentes", diz.
Para ele, as associações de bairro são entidades que sintetizam uma boa maneira de atuação da sociedade civil, pois envolvem pessoas com problemas que afetam diretamente o dia a dia, como falta de pavimentação, saneamento ou saúde. "Se for uma associação ativa, gera um ciclo virtuoso, porque as pessoas ficam motivadas a participar quando veem que dá resultado", opina.
Carolina Avansini
Reportagem Local/FOLHA DE LONDRINA


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