VIOLÊNCIA - Um país perigoso para os jovens



O Brasil é um lugar perigoso para crianças e adolescentes. Pelo menos é o que mostram os dados da Pesquisa Mapa da Violência 2015, segundo a qual o País ocupa um vergonhoso terceiro lugar em um ranking de 85 nações que mais registram homicídios de pessoas entre 0 e 19 anos. A taxa de 16,3 homicídios para cada 100 mil habitantes nesta faixa etária só não é pior que a registrada no México e em El Salvador, como aponta o estudo feito pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso).
A pesquisa destaca também que, em 2013, os homicídios representavam quase metade das causas de mortes de jovens de 16 e 17 anos no Brasil. As principais vítimas são adolescentes do sexo masculino, negros e com baixa escolaridade. O aumento da violência contra essa parcela da população é histórico. Enquanto as mortes de crianças e adolescentes por causas naturais diminuíram 78,5% de 1980 a 2013, as mortes pelas chamadas causas externas, que incluem homicídios, suicídios e acidentes, aumentaram 22,4%.
O trânsito também se mostra perigoso para as crianças e jovens brasileiros. Se até um ano de idade eles morrem como ocupantes de veículos automotores, a partir desta idade até os 14 anos a maior incidência de óbitos ocorre quando transitam pelas ruas a pé. Já entre os 15 e 19 anos, a maior proporção das mortes envolve ocupantes de motocicletas. Os paranaenses correm mais riscos que grande parte dos brasileiros ao se moverem pelas cidades e rodovias. Em 2013, o Estado foi o quarto onde mais morreram crianças e jovens vítimas de acidentes de trânsito.
Flávio Leão Bastos Pereira, professor de Direito Constitucional da Universidade Mackenzie, destaca que o Mapa da Violência mostra, a cada ano, que a ameaça aos adolescentes é diferente dependendo da classe socioeconômica. Adolescentes da periferia, por exemplo, que tiveram pouco acesso a serviços básicos de qualidade em educação e saúde e que não vivem em áreas bem estruturadas do ponto de vista do saneamento básico, são ameaçados principalmente pela violência do Estado e do crime organizado.
Segundo ele, a falta de políticas públicas efetivas tira oportunidades do jovem negro e pobre da periferia e os torna vulneráveis a serem cooptados pelo crime ou atingidos pela violência estatal. "Esta violência se configura na falta de acesso a serviços que só o Estado deveria fornecer com qualidade e igualdade, especialmente nas áreas de saúde, educação e segurança pública. Quando o Estado não ocupa esse espaço, ele passa a ser ocupado por estruturas paralelas, como o crime organizado", opina. Segundo o professor, é comum que estruturas de poder paralelo forneçam medicamentos e segurança, deixando uma população refém das necessidades e intenções de quem dá.
Paralelamente, Pereira lembra que existe uma ação estatal repressiva sobre essa população, visto que a opção do Estado brasileiro em relação ao combate ao crime é pela repressão, e não pela investigação. Esses ingredientes deixam os jovens da periferia, que vivem em um mundo consumista – onde são considerados pelo que têm e não pelo que são – com poucas opções. "Eles não têm oportunidades no mercado de trabalho, até porque a escola pública é sucateada, e isso os deixa vulneráveis ao crime organizado que causa violência letal e à ação repressiva do Estado", analisa.

TRÂNSITO

Já o jovem de classe média é ameaçado pelo trânsito, que ainda é violento no Brasil apesar das normas serem mais rígidas, principalmente por causa da corrupção e pouca fiscalização. "A corrupção aumenta a violência da sociedade e atinge também o jovem", diz Pereira.
Além disso, são vitimados pelo álcool e pelas drogas. "O tráfico atinge todas as camadas com diferentes efeitos e diferentes drogas, dependendo do poder aquisitivo", avalia, destacando que o álcool é uma das grandes ameaças à juventude e reflete diretamente nos acidentes de trânsito que vitimam essa população. "O jovem tem acesso à bebida e é incentivado a beber pela publicidade intensa de bebidas, o que demonstra a fragilidade das instituições do Estado que não fazem frente ao lobby poderoso da indústria de bebidas", critica.
Para o professor, essa conjuntura revela a falta de conscientização dos adolescentes sobre o risco das bebidas, das drogas e principalmente da necessidade de respeitar o outro, o que inclui a consciência de, por exemplo, não dirigir após beber. "A escola pública sucateada é uma das piores tragédias do nosso País. O Brasil é muito perigoso para o jovem de classe média e letal para o jovem de periferia, o que reflete o aumento da violência causado pela falta de justiça social. É preciso que a população volte para as ruas para pressionar por boas escolas e hospitais púbicos. Só a pressão maciça da população é que vai trazer mudança", defende.
Carolina Avansini
Reportagem Local/FOLHA DE LONDRINA
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