Em 20 anos, plantio de soja cresce 120% no Norte Pioneiro



Na microrregião de Cornélio Procópio a área cultivada da cana-de-açúcar caiu 33%


Jacarezinho – Entre 1996 e 2016, a área cultivada de soja cresceu 544% na microrregião de Jacarezinho e 68% em Cornélio Procópio. O aumento do plantio da oleaginosa grão no Norte Pioneiro foi de 232,8 mil hectares para 513,2 mil hectares em 20 anos. Os dados são do Departamento de Economia Rural (Deral) de Jacarezinho e Cornélio Procópio, órgãos ligados aos núcleos regionais de agricultura, vinculados à Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento (Seab). Em contrapartida, culturas tradicionais da região, como o feijão, a cana-de-açúcar e o café, perderam espaço para o plantio da soja.

O feijão, em 1996, tinha uma área de 40 mil hectares (somando as três safras anuais) no Norte Pioneiro, mas em 2016 ficou próximo a 20 mil, uma queda de 50%. Regiões tradicionais no cultivo do feijão, como Wenceslau Braz e entorno, praticamente extinguiram essa cultura. "A partir de 2000, fomos substituindo quase tudo por soja", conta o engenheiro agrônomo Taurino Alexandrino Loyola, que ajudou muitos produtores a fazer a transição.

O agricultor Darci Bassi, morador de Wenceslau Braz, foi um dos que optou em tirar o feijão e plantar soja. Ele possui uma área de 2,6 mil hectares e desde a década de 1980 plantava feijão. "Mas o preço estava muito ruim, mal dava para pagar as contas. Havia muitas despesas com pragas, como a mosca branca. Mas o que mais pesou foi a falta de mão de obra: o povo foi embora e não tinha gente para colher", lembra. Em 2000, Bassi fez o primeiro plantio de soja e não parou mais. "A soja é mecanizada, existem produtos avançados para o controle das doenças, o preço também é melhor, além da facilidade para vender. Não me arrependo. Hoje eu meus três filhos vivemos da agricultura em uma situação bem melhor que antes".



CANA-DE-AÇÚCAR
A cana-de-açúcar cresceu até meados da década de 2000, mas vem gradativamente diminuindo. Na microrregião de Cornélio Procópio, a área cultivada caiu 33% em 20 anos. Ao redor de Jacarezinho, o plantio chegou a 72 mil hectares em 2006, porém, a partir de 2010 a área vem caindo, registrando 43 mil hectares em 2017. "É um reflexo da crise das usinas. Uma delas, em Cambará, fechou há quatro anos. Muitos produtores migraram para a soja", conta o técnico do Deral de Jacarezinho, Franc de Oliveira.

A relação do preço do etanol com a gasolina foi um dos fatores que ampliaram a crise do setor sucroenergético. "O preço da gasolina foi controlado por muito tempo. Como o álcool, por uma questão de mercado, tinha que ser vendido por um valor 30% menor que a gasolina, isso gerou uma crise no setor, que não conseguiu se sustentar com o preço estipulado", explica o economista do Deral de Cornélio Procópio, Santo Pulcinelli Filho.

CAFÉ
O café, embora tenha se mantido estável na microrregião de Jacarezinho, sofreu queda de 60% em Cornélio Procópio e arredores. A área nesta região, que em 1996 era de 14,8 mil hectares, atualmente não chega a 6 mil. Para Pucinelli, a explicação está no preço. "A soja é uma das poucas commodities que acompanhou o crescimento do Índice Geral de Preços de Mercado (IGPM), com aumento de 300% em 15 anos, enquanto que o do café foi 32%, um dos menores da pesquisa".

Na microrregião de Jacarezinho, a mecanização das colheitas mantiveram o plantio do café nos últimos anos. "Em Carlópolis, Ribeirão Claro e Pinhalão o café permaneceu em razão da mecanização. Na região de Ibaiti, onde a área é mais declinada, dificultando a mecanização, o plantio diminuiu, pois faltam trabalhadores para a colheita", aponta Oliveira.

MILHO
Verificou-se também uma diminuição de 70% do milho plantado no verão nos últimos 20 anos. O milho safrinha (plantio de inverno), porém, cresceu 178% no mesmo período. "O milho safrinha, o trigo e a aveia são culturas relacionadas à soja. O produtor planta soja no verão, e no inverno trigo, milho ou aveia. Trigo é mais comum nas cidades onde o inverno é rigoroso, nas demais planta-se milho", explica Pulcinelli.

A aveia preta tornou-se uma alternativa recente no inverno. As maiores áreas se concentram entre Wenceslau Braz e Curiúva. "É uma cultura que melhora a qualidade da terra, e pode servir como pastagem", diz Oliveira.

SUBSISTÊNCIA
As chamadas culturas de subsistência, como arroz, tomate, alho, que possuíam relevância até a década de 1990, foram aos poucos sofrendo queda. "O arroz, comum em Santa Mariana, no distrito de Panema, e Cambará, foi substituído por pastagem e soja", conta Pulcinelli. O mesmo se deu com o alho, forte em Quatiguá. "Eles tinham galpões e toda estrutura para embalar e vender alho. Hoje não existe, os produtores migraram para o gado leiteiro e soja". A razão são os baixos preços praticados no mercado para essas culturas.

Para o economista Pulcinelli, a monocultura não é o quadro ideal, porém, é o que tem permitido a sobrevivência do homem no campo na região. "A conjuntura atual leva para esse lado. Os preços das outras culturas são muito baixos perto da soja". O produtor Darci Bassi concorda. "O agricultor passa por uma situação difícil. O clima é instável, as pragas são muitas, e os juros para financiar altos. Então buscamos o que é mais seguro. Se houvesse políticas públicas que incentivassem o plantio de outras culturas, preços mais favoráveis, com certeza a diversificação seria maior. Mas por enquanto é a soja que tem pagado as contas dos produtores da região e agradecemos muito a ela", resume.


Rubia Pimenta
Especial para a FOLHA DE LONDRINA
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