Pós-crise permite ao cooperativismo crescer ainda mais



Os momentos de pós-crise como o vivido hoje no Brasil permitem que o sistema cooperativista ganhe ainda mais terreno em relação ao setor privado, com desenvolvimento que chega a ser o dobro do alcançado por instituições financeiras. As taxas mais atrativas por serviços, a crise de confiança em um mercado cada vez mais desigual e a maior busca por relações humanas da geração nascida nos últimos 20 anos devem contribuir para esse desenvolvimento, que já começa a dar os primeiros sinais, segundo analistas convidados pelo Sicredi União para o painel "Perspectivas para o cooperativismo de crédito", em Porto Alegre, no último dia 10.

A cesta de serviços de cooperativas de crédito tem custo aproximadamente 40% menor do que a média dos grandes bancos, segundo a assessoria do Sicredi. Ainda, o valor cobrado em transferências entre instituições financeiras diferentes é 30% menor do que em bancos privados e mesmo os juros para cheque especial saem cerca de 20% mais em conta pelo sistema associativista.
Isso ajuda a explicar porque a demonstração financeira do Sicredi no primeiro semestre deste ano registrou alta no resultado líquido de 36,4% em relação ao mesmo período de 2016. O valor chegou a R 1,2 bilhão, o mais representativo entre as cooperativas do tipo no País. O grupo registrou aumento de 17,2% em ativos, que somam R$ 72,8 bilhões, e crescimento de 19,3% no patrimônio líquido, que chegou a R$ 11,8 bilhões. "O ritmo de desenvolvimento das cooperativas de crédito tem sido bem acima do dobro do registrado pelo sistema bancário brasileiro, e falo da média das cooperativas e não apenas das melhores", disse o presidente da OCB (Organização das Cooperativas do Brasil), Márcio Lopes de Freitas.
Para ele, crises econômicas levam à desconfiança e é natural que as pessoas busquem cooperativas nesse cenário, em busca de transparência e poder de decisão. Freitas destacou que as associações do tipo na agropecuária também registram avanço acima do mercado em geral e hoje já abrangem 55% da economia no campo. "A condição está colocada e, se soubermos trabalhar essa confiança que as pessoas esperam, o cooperativismo será a passagem para um mundo melhor", afirmou o executivo da OCB.
O presidente da SicrediPar, Manfred Alfonso Dasembrock, lembrou que a participação da população no sistema de crédito por cooperativas ainda é pequeno no Brasil, de 3,42%, quando comparado a países como Irlanda (74,47%), Estados Unidos (52,61%), Canadá (46,71%) e Austrália (19,65%). "Mas não tem um centavo de dinheiro público no desenvolvimento do sistema por aqui. É tudo privado, dos sócios, então cresce na velocidade que é possível."

NOVA PERCEPÇÃO
Professor da ESPM, do CIC (Centro de Inovação e Criatividade) e pesquisador da cultura digital, Gil Giardelli afirmou que os jovens de hoje não têm mais tanto interesse no "ter", mas no "ser", no propósito do trabalho. Por isso, colocou como nova necessidade o equilíbrio entre prosperidade financeira, desenvolvimento sustentável e distribuição de renda, que convergem para o cooperativismo. "As entidades criadas no pós-guerra perderam reputação porque não cumpriram o que prometeram. O maior colapso no mundo hoje é da ética", disse.
Giardelli considerou que a própria onda migratória de países em guerra ou onde a população passa fome para o hemisfério norte indicam a necessidade de mudança. "Em Botsuana, uma pessoa não tem nada, mas está conectada à internet pelo celular. Ela vê como é a vida na Europa, nos Estados Unidos, e pensa que quer ter aquelas mesmas condições, então vai para lá", sugeriu. Para ele, as nações economicamente fortes têm percebido que precisam criar condições para que essas pessoas fiquem e se desenvolvam nas comunidades onde estão.
O presidente do SicrediPar completou que é isso que o cooperativismo faz. "Temos centenas de abaixo-assinados, pleitos de prefeitos, gente que quer agências do Sicredi porque os bancos se afastaram. E esses bancos saem da praça dizendo que é por estratégia, mas é porque tiveram prejuízo, enquanto mais de 300 comunidades no País só têm uma agência local do Sicredi, que acredita e trabalha no desenvolvimento desses locais."
Dasenbrock afirmou que é preciso fazer com que o cooperativismo seja melhor compreendido, mas que é necessário vivê-lo para compreendê-lo. Porém, destacou que até o Banco Central liberar em 2013, não se podia ter uma cooperativa de credito aberta em cidades com mais de 1,5 milhão de habitantes. "O sistema cooperativo é muito mais humano e só precisamos montar uma boa estrutura, reunir pessoas e treinar pessoas."

*O jornalista viajou a convite do Sicredi
Fábio Galiottom
Reportagem Local/FOLHA DE LONDRINA
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