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Cadeias de proteína animal atentas ao bem-estar

O olhar sobre um animal de produção apenas como um produto na gôndola do supermercado não é mais aceito pela sociedade mundial. O Brasil - que vislumbra tornar-se o grande protagonista na produção de proteínas - tem percebido cada vez mais a importância de ações sólidas em cima do BEA (bem-estar animal), principalmente aves, suínos e bovinos. Uma tendência latente e sem volta para um mundo que busca saber como esses animais vivem, do nascimento ao abate.

Movimento que começou a ganhar força mundialmente na década de 1960, quando a jornalista Ruth Harrison visitou sistemas de produção intensiva da Inglaterra e constatou uma realidade cruel, descrita no livro "Animal Machines". Depois disso, a sociedade britânica começou a abrir os olhos e definiu critérios básicos para a produção animal, como livres de fome e sede, desconforto, dor, ferimentos e doenças, medo e angústia e para expressar seu comportamento natural.

De lá para cá, muito se evoluiu em conceitos sobre o tema e, atualmente, grandes empresas têm tomado atitudes que até se sobressaem acerca do que a legislação preconiza no País. Um caso recente foi do Carrefour, que anunciou que até 2028 vai comercializar apenas ovos de galinhas poedeiras criadas longe de gaiolas. Recentemente, o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) abriu consulta pública sobre a Portaria 195, que visa gerar uma Instrução Normativa para regulamentar o bem-estar de suínos. A Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná) lidera os debates no Estado por meio da organização de representantes dos produtores, cooperativas, agroindústrias, poder público e pesquisadores.

A coordenadora de bem-estar animal da World Animal Protection Brasil, Paola Rueda, relata que o conceito mais aceito sobre o tema é de 1986, do zootecnista inglês, Donald Broom. "O conceito está relacionado às tentativas do animal em se ajustar ao meio. É uma ciência multifatorial, em que se observa o ambiente, as condições de saúde e psicológica do animal e a relação dele com as pessoas. Que ambiente ele está inserido? Tem luz natural? Bom conforto térmico? Pode expressar seus comportamentos normais? Tudo isso é analisado em indicadores e base científica."


Mapa
A auditora fiscal federal agropecuária da Divisão de Bem-Estar Animal e Equideocultura do Mapa, Liziè Pereira Buss, relata que o consumidor brasileiro já está atento que a produção animal pode gerar muito sofrimento se não atender a algumas premissas básicas. "14% dos brasileiros se declaram veganos ou vegetarianos e a maioria dos jovens, os futuros consumidores, questionam certas práticas, mesmo que sejam apresentadas argumentações técnicas que as motivam. Desta forma, podemos inferir que as empresas e produtores que não comprovarem a adoção de boas práticas para o bem-estar animal terão dificuldades de obter aceitação de seus produtos no futuro."

O Mapa criou uma comissão específica em 2008, que até 2017 era conduzida e coordenada pela área técnica (CBPA - Coordenação de Boas Práticas e Bem-estar animal). Hoje a área técnica continua com seus projetos e programas, atuando em praticamente todas as cadeias produtivas: bovinos, suínos, aves, equinos, ovinos, com propostas para atuar em aquacultura e apicultura. "Desde 2008 os projetos são contínuos, com foco na capacitação e divulgação das melhores práticas no manejo dos animais. Começamos pelo abate humanitário, etapa final da cadeia produtiva, que gera grande impacto econômico e na qualidade dos produtos se não for bem conduzido, e que ainda há uma atenção do público, uma percepção maior de que é um procedimento que pode causar muito sofrimento e dor, caso não seja feito conforme as recomendações científicas."

Liziè complementa que depois iniciaram-se projetos de capacitação para o manejo racional de bovinos, transporte de suínos, gestação coletiva de matrizes suínas, boas práticas na produção de aves de postura, capacitações em boas práticas na equideocultura, além da sensibilização dos órgãos responsáveis pelo fomento e fiscalização do bem-estar animal . "É um tema amplo que depende do comprometimento de todos os setores e profissionais, sejam da iniciativa pública ou privada", complementa. 

Victor Lopes
Reportagem Local/folha de londrina

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