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Aluna de Ubiratã é uma das vencedoras da Olimpíada de Língua Portuguesa

A aluna Amábile Vitória dos Santos, da Escola Cecilia Meireles, de Ubiratã (Oeste), foi uma das vencedoras da 5ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro. Ao todo foram premiados 20 estudantes e a garota venceu na categoria memórias literárias, com o texto "Meu vizinho nipônico", e orientada pela professora Aparecida Torres dos Santos Barroso. São cinco ganhadores em cada gênero literário - artigo de opinião, crônica, memórias literárias e poema. Vinte e oito professores foram premiados pelos melhores relatos de prática. A premiação ocorreu no dia 13, em São Paulo.

Os alunos vencedores, assim como seus professores receberam a medalha de ouro, um notebook e uma impressora. Suas escolas serão contempladas com dez computadores, impressora, projetor multimídia, telão de projeção e livros para a biblioteca. Os professores autores dos relatos de prática vencedores também levaram para casa um notebook.

A realização é da Fundação Itaú Social em parceria com o Ministério da Educação (MEC) e com coordenação técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). "A festa premia um grande esforço de todos em prol do ensino da Língua Portuguesa no País, da formação do professor para a didática da produção de textos, do despertar do gosto do aluno pela escrita e da mobilização das equipes das escolas e das redes para que tudo isso aconteça", comemorou a superintendente da Fundação Itaú Social, Angela Dannemann.

Confira o texto vencedor de Amábile:

Meu vizinho nipônico

Domingo. Tarde de outono. Sento-me no piso fresco da varanda. Dia de brincar de avó. Um pouco de meninice me faz bem. Observo com ternura a minha netinha. Vejo-me refletida em seus singelos gestos e atitudes. Seu doce modo de saborear a vida me deixa enternecida. O som suave da canção, na voz do padre Zezinho (Maria de minha infância), vinda de um radinho lá da área de serviço, conduz-me ao passado.

Reencontro minha infância. Imagens confusas aos poucos vão se tornando reais. Na carroceria de um caminhão animais e pessoas, ocupando o mesmo espaço, ali ancoramos às margens do Rio Carajá. Plantamos nossos sonhos em forma de sementes no abençoado solo roxo do oeste paranaense. Adotei Ubiratã "lugar de gente feliz" como minha terra natal.

Aromáticas lembranças das primeiras plantações de hortelã. O tapete verde cheiroso, com o tempo, foi cedendo espaço ao plantio de algodão, trigo, soja...

Nossas brincadeiras preferidas: a fazendinha com animais fabricados de legumes, alimentar as formigas com farelos de pão, o banho no Córrego Esperança. Quanta algazarra!

Doces memórias. A ceia de Natal depois da Missa do Galo, na cidade. Meu avó e seu "cumpade Mané", por muitos anos, convidavam toda a nossa família e vizinhos para participarem dessa romaria. Locavam o possante veículo dos nossos vizinhos orientais. Os donos de uma relíquia: o caminhão. Único.

Cabine verde. Um luxo. Desempenhava funções essenciais no povoado. Na colheita, puxava os produtos do campo para a cidade. Nascimento de um bebê, alguém se encarregava de chamar o japonês com o caminhão para buscar a parteira. Meu irmão bebeu querosene (susto), meu tio quebrou a perna (o caminhão nossa ambulância, o nosso pronto-socorro). Casamento na comunidade, que festança! Lá estava ele o pomposo caminhão "do japonês", um carrossel em lindo estilo. Alguém falecia no povoado (que triste). "Funerária?" o caminhão do japonês conduzia o corpo à última morada. Nas eleições: o verdão nos aguardando.

Noite de Natal. Na carroceria, bancos de madeira acomodavam crianças e senhoras, os homens iam em pé acompanhando os movimentos do veículo. Cai não cai. Na cabine, às vezes, ia a senhora grávida ou de bebê de colo. O bom mesmo era sentir a brisa da noite beijar nossas faces, na carroceria. Adrenalina pura. Os sobressaltos provocados pelas crateras da estrada de chão eram as turbulências do nosso airbus.

A missa tinha início à meia-noite em ponto. Durava uma hora. Parecia uma eternidade. Eu amava os cânticos natalinos na voz do coral acompanhado pela freira em seu piano provençal. De repente "Noite Feliz". Ufa! Estava terminando. Quase a hora da ceia.

Enfim a ceia. Lá na venda da esquina de fronte a matriz, acomodados em umas poltronas de vime saboreávamos um picolé "cilíndrico" de leite, nas cores lilás, rosa ou branca. Sabor: felicidade. Recheio: sonhos. Os olhos brilhantes das crianças se deliciando com aquela abençoada ceia deixavam o meu avô e seu cumpade Mané orgulhosos e a sensação de dever cumprido. Na carroceria do possante, de volta aos nossos lares, o sacolejar ritmado me embalava. Eu adormecia.

O almoço natalino, as guloseimas, a sodinha com furinho na tampa, resfriada na água fresquinha da mina, não ofuscava as lembranças da ceia da noite anterior.

Eu, sempre arteira e curiosa fazia questão de espiar pela janela do quarto da minha avó, de longe, só um pouquinho. Ele estava na garagem. Agora descansando. Verde e imponente, o meu vizinho.

O papaguear das crianças me traz à tona e num sobressalto volto à realidade. Ufa... Inebriada em meus pensamentos não percebo o tempo passar, o sol já descambava no horizonte. O domingo se findava. Com seu olhar brejeiro, seu sorriso maroto aquela garotinha de 7 anos, minha neta, tenta ler (e lê) meus pensamentos: "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena". É, Fernando Pessoa, nisso somos bem parecidos. Nossa vida é uma constante viagem na busca pela felicidade. Mesmo que o meio de locomoção seja "na carroceria do caminhão... do japonês".

(Texto baseado na entrevista feita com a senhora Maria, 62 anos.)

Professora: Aparecida Torres dos Santos Barroso

Escola: C.E.E.F.M. Cecília Meireles – Ubiratã (PR)
Reportagem Local/FOLHA DE LONDRINA
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